quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O FILME DO ANO

Quando assistir o filme, compare o governador da ficção com este.
A semelhança não é merca coincidência!


(...) Tá de bobeira!!!


Hoje assisti o melhor filme do ano brasileiro. Pelo menos o mais relevante diante da atual conjuntura política. As palavras, para explicar esta afirmação, já imagino que dentre os poucos que me conhecem e que de fato lerem estas linhas até o seu final, poderão ceder a uma certa irritação, algo como a lamentação daqueles que dizem: lá vem o discurso novamente!
O discurso vem, enquanto houver alma e alguma coragem.
O filme, em questão, trata de um incidente, supostamente, “ficcional”. No entanto sua beleza está na condição de radiografia sociológica de natureza estrutural. Trata-se de um filme sobre política e conflito de interesses, Tropa de Elite 2.
O que mais me importa tratar da película, no entanto, diz respeito à natureza do jogo de interesses que há por traz da cadeia de “valores” em nosso território nacional. E um pressuposto de análise, que do filme ecoa como conclusão, é o de que no território da política, o moralismo acaba se manifestando como figura retórica que esconde, para além do discurso, linhas de força em conflito.
Não falarei tanto do enredo do filme, posto que deixo um convite, para todos que puderem, que assistam e conheçam a estória. Só me cumpre dizer que as relações políticas e sociais ali expostas explicam um pouco a complexidade do sistema de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Mas, para além da narrativa e crítica que impregna a locução do narrador da epopéia, algumas observações podem ser inferidas (retiradas das entranhas e da razão):
a) o espaço da política nacional, recentemente, tem sido submetido a um olhar de crítica moral. Neste caso toma-se a política como terreno de aproveitadores e corruptos. Esta visão tem como testemunha ocular, ou, melhor dizendo, em termos marxistas, tem como relação social resultante, a legislação da ficha limpa e o apelo marketinizado do candidato a Presidência da República José Serra à temática do aborto na campanha eleitoral (isso foi tentado também contra a campanha de Obama, nos EUA);
b) no contexto atual, estes sintomas de moralidade acabam por favorecer um desvio do olhar da população para o verdadeiro jogo a ser decidido, o do confronto de grupos e interesses que estão em disputa, e visam impedir que as pessoas façam escolhas baseadas em ganho e análise racional. O problema maior é que o próprio posicionamento baseado em interesse de ganho, análise economicista (presente na visão dos que apóiam Dilma) tem sofrido por parte da academia e imprensa, a pecha de visão alienada, tomando os que defendem tal discurso como aproveitadores (como meros interessados em um cabide de empregos na terrível e má teia sindicalista da esquerda).
Se você tem alguma queda por esta impressão, digo-lhe que deveria modificar o enfoque de análise para melhor compreender o espaço de disputa. O que em verdade esta impressão sustentada por um discurso meramente moral (e frágil) lhe impede é a capacidade de tomar uma posição verdadeiramente política, por que esta é incômoda, exige coragem e transparência (não aparência). Esta onda com aparência política é claramente despolitizadora.
O bom agir não é sustentável como melhor plataforma do comportamento humano. Não se pode esperar um homem essencialmente bom. Antes de mais nada, estamos submetidos a um padrão moral cuja mescla é a da moralidade socialmente compartilhada associada aos interesses de auto-conservação próprios e de grupo. Por isso conflitos são inevitáveis.
Tomar posição nos é exigido a todo momento, mesmo que nos comportemos como que alheios ao processo social. Isso se dá, por que estruturalmente vivemos enquanto ser (subjetivamente - superestrutura) e na relação social (objetivamente – infraestrutura) o embate entre questões de natureza objetiva (econômica e política) e subjetivas (da opinião socialmente compartilhada e reproduzida em práticas = ideologia). É por isso que acertadamente os marxistas consagram a crítica de que não é possível agir sem ideologia.
Baudrillard, em uma de suas obras - Por uma economia política do signo - salienta que uma das formas artificiais (simulacros) sociais que nos submetemos, na contemporaneidade, é a de comportamentos que são sustentados por mecanismos de etiquetamento de boa conduta ou de condutas prazerosas (a eterna promessa de realização da libido). Mas estes comportamentos formalizados escondem, em seu fundo, um processo de adaptação coletiva a uma forma mercantil de vida, sustentada na superestrutura pelo marketing.
São melhor “adaptados” a esta forma social rígida (portanto, conservadora), aqueles que sustentam na base material a condição de consumidor padrão e que na base superestrutural (do marketing) gozam da referência de cidadão consumidor. Fora deste eixo de referência da conduta que é defendido pela imprensa e pelo sistema jurídico, todo o resto é considerado marginal, medíocre ou secundário. Por detrás dessa diferenciação de comportamento está o mais presente e profundo conflito de classe. Profundo por que sai das entranhas, do engasgado do olhar julgador, ou do sorriso daquele que faz questão de transparecer que não tem envolvimento com questões dessa natureza. Prefere dar a entender que está acima dessas “pequenezas”.
É por isso que neste contexto histórico, não nos resta saída. Os éteres gritam no ar, é tempo de tomar posição. Há mais do que impressões. O ódio contamina as capas de revista e os jornais. Tomar posição neste ponto é uma forma de ser mais inteiro. De ter marca própria. E de conseguir analisar mais claramente quais os interesses e conflitos que estão em jogo. No caso do filme, esse posicionamento foi fundamental para o protagonista sobreviver física e psiquicamente. Na conjuntura do presente devemos avaliar, também, quais os interesses e forças políticas estão em conflito.
Minha posição é em favor da candidatura de Dilma Rousseff por entender que esta representa um projeto em andamento (que eu apoio), e não características de personalidade, secundários neste caso e reféns de adjetivos e escândalos construídos por uma mídia interessada na vitória de Serra.

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