quinta-feira, 2 de setembro de 2010

UM VIZINHO CHAMADO PARAGUAI


Nos últimos meses, em virtude da Copa do Mundo de futebol, o Paraguai passou a ser notado, tanto pelo futebol, quanto pela figura da modelo Larissa Riquelme.
O Paraguai, no entanto, goza de uma baixa reputação entre os brasileiros. Os produtos de segunda linha, não regularizados, com formatos de cópia das marcas de referência são tomados pela alcunha pejorativa de “produto paraguaio”.
Essa referência simbólica negativa tem como base a característica econômica do país. Objeto de exploração política, em longa data, por uma ditadura extremamente degenerativa.

A história recente do Paraguai merece, também, nossa atenção. Revela características do país que nos ajudam a entender melhor a América Latina (estruturalmente) e também perceber que devemos ter cautela em relação a generalizações acerca de uma similaridade entre os diversos países do continente. A idéia de uma grande nação latino-americana.

Migração européia – Da guerra do Paraguai a Segunda Guerra
Depois da II Guerra Mundial, o país virou um celeiro de alemães fugidos da derrota, alguns nazistas sobraram nas terras guaranis. As denominadas colônias de Menonitas, ou seja, destes europeus alemães e holandeses, entre outros, refugiados são até hoje uma referência presente no território.
Tal como o Brasil, o Paraguai também soube abrigar muitos povos, isso aconteceu depois da Guerra da Tríplice Aliança (1865 – 1870), a “generosidade” nacional surgiu da necessidade de repovoamento do país e para sua reconstrução. Sobraram somente mulheres, crianças e velhos nativos mestiços (filhos de espanhóis com índios).
Durante aproximadamente 10 anos, após a Guerra do Paraguai, o país foi reordenado pelos “aliados” (Brasil, Argentina e Uruguai).
Depois disso, o Paraguai, tornou-se uma terra de muitas etnias, durante muito tempo, até os 1960 os europeus ainda eram notados em diferentes colônias, comunidades, separados um dos outros.
Os primeiros convidados foram italianos. Depois foram chegando mais espanhóis, dentre outros.

Etnia paraguaia “guarani”
Hoje etnicamente convivem diferentes tipos. Por detrás desta realidade, existe o velho mito nacional de uma grande nação de etnia guarani (poucos ainda conservam característica, a mestiçagem que conserva a forte marca indígena e com mesclas européias). Portanto, guarani nos restou somente como uma forma de afirmação de uma cultura que há muitas décadas tenta descobrir-se novamente.
Os mais pobres falam guarani (aproximadamente 70%). Estes são ora chamados, preconceituosamente, por “índios” ou positivamente por “raça guarani” (uma forma aceita inclusive pelos mais ricos). Falar guarani é sinônimo de pobreza, vida campesina ou indígena, fora do contexto da cidade desenvolvida.

A Guerra do Chaco (1932 – 1935)
O Paraguai foi reconstruído em meio a um caldeirão de revoluções entre colorados e liberais (fundados depois da Guerra do Paraguai).
O colorado é um partido com estatuto, ou seja, discurso, nacionalista e progressistas, com o tempo e com a Ditadura de Strossner, passaram a uma tendência de nacionalismo de direita populista.
Os liberais eram aqueles que queriam que o pais se abrisse a influência do investimento estrangeiro, compostos por indivíduos de condição econômica e/ou ideologia capitalista de mercado.
No Paraguai, ensina-se nas escolas que os bolivianos, como perderam sua saída para o mar, na década de 1870 a 1880 (na Guerra do Pacífico, em que o Chile enfrentou Bolívia e Peru, com vitória dos chilenos que levou a anexação de parte do território boliviano) invadiram a região do Chaco região norte do país, do rio Paraguai para cima. Essa invasão, na verdade já começa nos anos de 1927, mas só se percebeu o avanço bélico depois. A guerra começa quando a invasão chega perto da capital (separada do Chaco pelo rio Paraguai).
Na verdade a questão nacional foi um disfarce para a guerra da disputa de um território, já identificado como rico em Petróleo, e que tinha como interessado, de um lado Standartt Oil (inglesa, sediada na Bolívia) e de outro, Shell Company (americana, sediada no Paraguai).
O Paraguai endividado por anos, desde a guerra do Paraguai, que nunca conseguiu pagar aos Ingleses obteve um acordo de perdão desde que comprasse armamentos (valor correspondente aos custos de mais de duas hidroelétricas de Itaipu).
Muitos acordos foram tentados para evitar a guerra, mediados sempre pela Argentina. Quando explodiu a guerra, em 1932, o confronto se estabeleceu. Pelo lado do Paraguai muitos soldados foram campesinos, tal como os bolivianos (comandados estes por um general russo, que não conheciam os campo) contra pobres soldados descalços com machados na mão. Os bolivianos estavam muito mais preparados para guerra.
Entre aspas quem vence a guerra é o Paraguai por que expulsa os invasores. O resultado é de 33 mil paraguaios mortos e mais de 60 mil bolivianos. O que fez diferença na guerra, foi a comunicação de rádio ocorresse em guarani, isto levou a uma dificuldade, não esperada pelos bolivianos. Nisso surge novamente o mito nacional da raça guarani, filhos de Lopes, que nunca mais deixariam de existir, junto a uma mescla de espanhol com dialeto guarani. Leva a uma aproximação da classe média e ricos da língua guarani.
O resultado disso é a constituição de um quadro de pobreza absoluto nos dois territórios acentuado pelos regimes militares posteriores.

A ditadura (todo mundo teve uma...)
Depois da guerra do Chaco a instabilidade política leva a muitas deposições de presidentes e intervenções de militares (influenciados por ideais facistas). A ditadura não é comentada nas escolas paraguaias. Em verdade um pacto da burguesia com os militares se manteve diante de um pacto mesclado de hegemonia colorada. Mas o fator econômico permitia a conservação de uma visão política também conservadora como oposição ideológica.
Em verdade o Paraguai até hoje não possui um forte partido de esquerda, mas ainda vive sobre a vigência da luta política entre liberais e colorados. Essa característica se efetivou em virtude da forte resistência que se efetivou no país através da forte divisão social e também pelo embargo político caracterizado por décadas de regime ditatorial encabeçado pelos colorados, tendo como líder o general Stroessner.
O ditador que governou o Paraguai por 35 anos passou seus últimos dias de vida na cidade de Brasília.
Alfredo Stroessner Matiauda nasceu em Encarnación em 1912. Filho de imigrante alemão e uma camponesa paraguaia Stroessner ingressou no exército paraguaio aos 17 anos. Participou da Guerra do Chaco, recebendo medalhas de honra e subindo postos no exército. Em 1948 ele era o general mais jovem da América do Sul. Stroessner tinha apenas 36 anos.
Em 1951 se filiou ao Partido Colorado, partido que sustentaria a sua ditadura. Stroessner se destacou no exército paraguaio pela sua postura incansável e rígida. Ele se tornou comandante do exército paraguaio e em 1954 general-de-divisão. No mesmo ano encabeçou um golpe militar que retirou do poder o presidente Federico Chávez. Em agosto foi eleito presidente pela Junta de Governo.
O regime de Stroessner foi sangrento e totalitário. Estima-se em quatro mil os desaparecidos políticos.
Em 1967 foi promulgada uma nova constituição, que permitia a reeleição imediata do presidente.
Stroessner era conhecido por proteger refugiados nazistas da segunda guerra, dada sua origem alemã, foi ele o responsável pelo visto aos ex-nazistas que procuravam asilo no país, como Josef Mengele.
É verdade que quando Stroessner chegou ao governo encontrou uma grave crise econômica. Saneou a economia, teve ajuda dos EUA e o país teve o seu milagre econômico. O Paraguai chegou a crescer 11% do PIB no final dos anos 1970. Fez acordos de integração com a Argentina, Brasil e Uruguai e em seu governo foi construída a Represa de Itaipu. Construiu cidades, pontes, escolas e cidades, como Puerto Flor de Lis em 1957, renomeada como Puerto Presidente Stroessner e após a sua queda renomeada como Ciudad del Este. Em todas as obras fazia questão de colocar seu nome. Em todo o país era visto o lema "Paz, trabalho e bem-estar".
No dia 3 de fevereiro de 1989 Stroessner caiu da mesma maneira que chegou ao poder: um golpe de Estado. Desta vez liderado pelo general Andrés Rodríguez, que ficou no poder até 1993. Stroessner tornou-se prisioneiro por alguns dias e foi enviado para o exílio em Brasília.

O contexto atual
A ditadura militar no Paraguai gerou a conservação do pacto entre elites econômicas e o poder político, o que levou a uma repressão absoluta dos movimentos populares e de esquerda.
É por isso que o atual presidente da República do Paraguai, Sr Fernando Lugo, associado ao Partido Democrata Cristão - uma sigla partidária de pouca representatividade, acabou compondo junto ao partido liberal uma frente para viabilizar sua candidatura.
Esse esforço permitiu que se desse a vitória eleitoral de um líder popular de esquerda, contra as candidaturas de Blanca Ovelar, do Partido Colorado, e o general Lino Oviedo.
Mas, ainda hoje, as elites políticas dominadas por colorados e pelos liberais, pouco fiéis, leva a um estado de isolamento de Lugo que limita sua ação política interna e no plano internacional. Esse esforço absurdo de ação da esquerda paraguaia é resultado da configuração política de um país em que se estabeleceu um conflito entre elites dominantes pela disputa do poder, mas não um efetivo confronto entre as classes operárias e campesinas ante as elites econômicas e políticas.
O desafio para a esquerda no Paraguai é constituir bases sólidas que permitam a continuidade do projeto do governo Lugo. No entanto, neste país a reeleição presidencial foi abolida, o que limita esta difícil tarefa, posto que o país ainda carece de figuras de representação fora do eixo colorado-liberal que possa se constituir numa alternativa.
Ademais, a maioria no congresso nacional, ainda, é composta por membros do velho regime. O Paraguai vive um contexto tênue entre a continuidade de um projeto progressista ou o risco de um retorno a estagnação política.
Vamos prestar maior atenção a este vizinho latino-americano, para entender processos de articulação de esquerda que estão sendo efetivados a partir de lutas pactuadas em foros internacionais tais como o Foro de São Paulo.

Texto escrito por quatro mãos junto a Leo Villar.

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