sexta-feira, 3 de setembro de 2010

QUANDO NÃO SE PODE RECUSAR A LUTA



Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

(passagem do Hino Nacional Brasileiro)


Dilma na luta contra o Regime Militar
Um dos temas que foram retirados do baú nestes tempos de eleições foi o envolvimento de certos atores políticos na luta armada, em particular a candidata a presidência da República Dilma Rousseff.
A atual candidata já foi militante de grupos de resistência ao regime ditatorial tais como: o Comando de Libertação Nacional (Colina) e da VAR – Palmares.
Neste período diversas organizações com tendências ideológicas e de leituras estratégicas diferentes atuavam, o que de certo modo, impediu uma melhor articulação entre as mesmas.

Os constrangimentos físicos, o risco de vida e a disciplina acabam marcando a vida daqueles que sobreviveram ao período. Dilma é o retrato deste tipo humano que levou para a política e trabalho tais características pessoais de resistência e disciplina.

A história retoma as páginas de jornal em virtude de uma estratégia dos grandes veículos de comunicação, sobretudo os jornais e revistas, que buscam nesta forma de caracterização da pessoa de Dilma, estimular uma repulsa do eleitorado, que segundo pesquisas do comportamento eleitoral, como o ESEB (Estudo do eleitorado brasileiro) de 2002 e 2006 não tem como valor positivo atividades políticas de confronto com a institucionalidade.

Apesar de tudo isso, a referência principal do eleitorado brasileiro para definição eleitoral em 2010, é a articulação entre políticas públicas, estabilidade econômica e social e a associação destas ao governo de Lula. Daí que o ataque a Dilma pode vir a fortalecê-la diante do eleitorado, já que reforçam suas características de resistência e favorecem a referência do mito do herói.

Mas por que pegar em armas?
Entender as razões que levaram um conjunto de militantes de esquerda a encarar a luta armada no período do Regime Militar no Brasil não é só uma decisão que demanda coragem, mas leitura política e opção por um projeto político.
Foi isso que levou alguns a arriscar a própria vida por este ideal.

José Genoino, antigo militante político e atual deputado federal pelo PT/SP, com franqueza absurda, explica o contexto que o levou a pegar em armas e lutar por um outro sistema político no Brasil:

A OPÇÃO PELA LUTA ARMADA


Quando eu optei pela guerrilha, eu não tinha nenhuma dúvida de estar fazendo a coisa certa. Todo mundo, da geração de 68, tinha em relação à luta armada uma opção factível, era uma opção concreta.
Porque a gente sabia que não tinha outro jeito; ou você ia para o exílio ou era preso e torturado. A outra opção era tentar sobreviver na luta armada, que também poderia acabar em tortura e prisão, mas nós não levávamos essa possibilidade muito em consideração.
Como eu era vinculado ao PCdoB e o partido tinha como estratégia a luta camponesa dentro do modelo chinês/vietnamita de exército popular, não cogitei me engajar na luta armada urbana. Minha concepção era preparar o camponês para uma guerra prolongada, e que a gente ia construir grupos guerrilheiros em áreas libertadas para sobreviver ao longo de anos e anos. Até hoje eu tenho os documentos em que o PCdoB cita a estratégia da luta armada por meio da ação popular prolongada. Estes eram o documentos que orientavam os militantes do partido. E eu estava decidido, já que a nossa própria vida nas cidades, em 70, estava muito difícil, apresentava muito risco. A clandestinidade na cidade ia se apertando muito. O risco de prisão era cada vez maior, porque os espaços iam se fechando.

(sobre a desarticulação da esquerda na época)
Hoje vejo que a concepção do PCdoB foi um equívoco. A esquerda se pulverizou muito naquela época, havia várias organizações de esquerda e de luta armada e cada uma tinha sua estratégia, sua tática e seu cenário. Por outro lado, pelas próprias condições da época, na universidade, era muito difícil um debate dentro da esquerda, porque a clandestinidade impedia um debate mais aprofundado, um maior entrosamento, impedia uma troca de opiniões. Era muito difícil haver uma ação coordenada de toda a esquerda. Quando veio o AI-5 aquilo tudo se aprofundou ainda mais, cada grupo foi fazendo a sua estratégia e a idéia é que com a luta sobrevivendo, uma resistência prolongada, a gente ia se reencontrar no processo da própria resistência armada. Essa era a visão que se tinha.

(idealismo missionário)
A imagem que eu tenho na minha memória, corre toda em câmera lenta. Eu entrava numa roda que você não tinha volta e convivia com o risco toda hora. A cada derrota você a gente se imolava mais ainda, porque não ia deixar os companheiros serem liquidados. A idéia de ir para o exílio era repudiada pelo pessoal da luta armada.
Quando eu digo “ir para o exílio” me refiro a ir espontaneamente, não via seqüestro. Era diferente de você ser preso e ser resgatado de seqüestro, de autoridades. E você ia e voltava, tanto que muita gente que foi libertada assim acabou voltando logo depois.

Eu sempre fiquei nesse duelo interno entre a missão e a opção individual, e geralmente na política tem que prevalecer a missão.

Quando eu fui para o Araguaia era uma missão. Eu saí de São Paulo no dia que a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato e chegou para desfilar no Anhangabaú. E eu passei pelo Anhangabaú e fui para o Araguaia.

(vida de isolamento – vida dura)
Vivi na selva por dois anos, inteiramente isolado, eu lia jornal e revista de três em três meses quando chegavam companheiros. Eu me lembro que toda vez que chegava um companheiro, ele trazia as novidades da cidade. Levava revistas, jornais e o “Bondinho”. O Bondinho era a única revista alternativa da época. Uma vez chegou um companheiro lá muito gozador, ele disse “olha, eu trouxe para vocês aqui a última novidade”. Era a “micro saia”, que saiu numa capa da revista Veja. Ele mostrava a imagem e explicava que a minissaia agora era ‘micro saia’. Era esse tipo de coisa que chegava até nós. Além daquela propaganda do “Brasil: ame ou deixe-o”, aquela coisa toda.

Mas a gente era muito bem informada porque tinha rádio.
Ouvíamos as rádios internacionais, BBC de Londres, rádio de Moscou, de Havana, de Pequim, de Tirana. Geralmente ouvíamos as rádios diariamente, pela manhã, ao meio dia e à noite. Havia programação e noticiários em português. A gente tomava conhecimento sobre quem estava morrendo, as torturas, acompanhava tudo lá pela escuta das rádios internacionais. Isso era uma coisa religiosa. Era um horário que todo mundo se reunia no barraco, porque a gente morava em barracos de palha. A gente vivia literalmente como camponês: morando em barraco de palha, trabalhando na roça, caçando, pescando e fazendo comida no barraco.


(trecho A OPÇÃO PELA LUTA ARMADA extraído do livro Entre o sonho e o poder de Denise Paraná, 2006, p. 68 - 70)

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