quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A NOVA ESQUERDA DEMOCRÁTICA BRASILEIRA


Muito se falou acerca de uma terceira via, buscando desviar-se da dicotomia direita x esquerda. Esse debate tomou corpo no fim dos anos oitenta em diante tomou um peso muito grande no mundo. Neste ponto a Europa foi pioneira e muitos de seus pensadores fizeram desta referência uma nova alternativa política, não é difícil de recordar neste ponto de Anthony Giddens.

As origens deste quadro político remontam a crise instaurada na esquerda européia depois das denúncias que atravessaram a cortina de ferro e chegaram ao ocidente, destacando os abusos de poder executados por Stalin.

Neste momento surgiram tendências diferentes de pensamento a reboque do marxismo, tais como o culturalismo e a própria visão de terceira via. Mas não foi só isso, movimentos de luta para causas específicas, tais como movimentos de mulheres, de negros e outros grupos étnicos reprimidos, de defesa do meio ambiente, dentre outros, acabaram tomando força e dividindo a agenda política.

Autores de referência do marxismo europeu, como Adam Przeworski, apontam que esta nova repartição da agenda gerou um desgaste e menor poder de convencimento dos partidos de esquerda no contexto democrático. Isso levou a uma redução da força de articulação e convencimento dos partidos socialistas e comunistas.

No entanto, uma das poucas exceções no mundo acontecia no Brasil, o surgimento do Partido dos Trabalhadores - que tinha como pano de fundo estas questões (de diluição das bandeiras de esquerda com outras), mas vinha somada a uma base de movimentos populares (o que não se via mais na Europa) - acabou se tornando um fenômeno político que cresce, em apoio eleitoral, até os nossos dias.

José Genoino, antigo militante da esquerda brasileira, testemunha esta tensão entre influência de novas leituras da esquerda e sua adaptação ao cenário brasileiro pós-regime militar. Percebe-se na sua fala, as razões da sobrevivência e ampliação do Partido dos Trabalhadores como resultado da assimilação de bandeiras outras dentro do seu entorno socialista:

A ESQUERDA HOJE
No debate que eu fiz no início dos anos 90 tive de precisar bem o que significa ser de esquerda. Para mim, ser de esquerda é ter um compromisso militante com a luta pelo valor da igualdade social.

A luta pela igualdade é o que há de mais universal na Esquerda desde a época do socialismo utópico até hoje. Mesmo as experiências socialistas com autoritarismo político foram um avanço para a luta pela igualdade social. Mas é claro que não se pode absolutizar isso, é necessário incorporar a luta pela pluralidade, por uma sociedade radicalmente democrática.
Quando eu discuti essa questão, e era chamado de direitista, de moderado. Foi necessário que compreendessem que aquilo poderia se enquadrar nos parâmetros e conceitos de uma Esquerda nova, renovada. E acabei incorporando essa dimensão libertária e humanista no tratamento dos temas considerados polêmicos. Porque assim como é radical a luta pelo emprego, também é radical a luta pelo fim da discriminação em relação à mulher, seja no ambiente de trabalho, seja em casa. Não há como ter uma mudança compartimentada. Tem de ser integral. (Entre o sonho e o poder, Denise Paraná, 2006, p. 149)

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