sábado, 25 de setembro de 2010

SANDRA CUREAU X CARTA CAPITAL - O QUE ESTÁ EM JOGO


Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe ...
(Pra que discutir com madame - João Gilberto)


Uma das figuras mais festajadas pela grande mídia nacional tem sido a Vice-procuradora Geral Eleitoral Sandra Cureau que ficou bastante conhecida por suas diversas iniciativas de "fiscalização" do comportamento de Lula e dos candidatos a Presidência da República em possíveis infrações eleitorais.

O processo eleitoral no Brasil tem entre muitas características uma em particular que é passível de críticas, a sempre e constante mudança de regras legais para cada período eleitoral, o que faz do mesmo um jogo de adaptação do TSE a cada momento político. Esta atitude política de um órgão do Judiciário não é ideal, vez que os certames eleitorais (em nome da segurança jurídica, social e política) deferiam ser demarcados pela estabilidade legislativa a partir de regras fixas e gerais válidas para os diferentes certames e sem absorver abusivas restrições a atividade político-eleitoral, o que, nos últimos anos, tem levado a um esvaziamento das possíveis manifestações populares e partidárias no período eleitoral e fora dele.
A visão dominante (moralista e elitista) nesta corte é a de que a política é um necessário espaço de manipulação das mentes do eleitorado e eivada de corrupção, basta observar as declarações dos diferentes presidentes do TSE nos últimos anos, bem como a retórica do marketing da instituição.

Assim, toma-se o eleitor como um sujeito destituído de capacidade racional, bem como a atividade política como ato passível de repreensão e controle. Como ato criminalizado em muitas características que até a pouco tempo não eram objeto de censura legislativa. Ou será que teríamos movimentos como as Diretas Já dentro de um regime jurídico asfixiante como este?
No entanto, esta forma de "tutela social" é contra a crença na constituição de uma sociedade em que a democracia substancial seja meta constante. Uma sociedade deve ter direito a se manifestar amplamente sobre convicções políticas, só assim pode-se gerar aperfeiçoamento da mesma.

Marginalismo de elites no MP
A senhora Sandra Cureau, no entanto, tem manifestado uma tendência do Ministério Público desde sua formulação contemporânea por meio da Constituição Federal de 1988 de marginalismo de elites.
Dotado de prerrogativas especiais, competências processuais e públicas muito arrojadas e, também, por uma independência política e orçamentária, esta instituição, nas suas diversas esferas obteve a oportunidade de se fazer um interventor profundo no processo de modernização do Brasil.
No entanto, com o passar dos anos o que se viu foi a repetição de comportamentos conservadores que tutelavam interesses de diversa tendência política e que não radicalizavam ações em favor dos mais pobres e criminalizados.
O Ministério Público, conforme a concepção do jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni é uma instituição que reproduz uma característica elitista em razão da natureza de sua formação estrutural no cenário social latino-americano e de seus membros constituintes, quase todos advindos de setores político-econômico dominantes.

Não é por acaso que Sandra Cureau se manifestou aos brados, indagando suspeitas de parcialidade no posicionamento da revista Carta Capital, o que para ela poderia ser uma resultante de ilegalidade e beneficiamento deste veículo pelo governo federal. Cureau alega, ou talvez suspeite (depende do clima político) que a revista estaria sendo beneficiada pelo governo federal através de publiciade governamental e que por isso teria uma posição editorial em favor do governo Lula. No entanto, a procuradora nunca suspeitou das atitudes claramente parciais de oligopólios como o grupo Abril, Organizações Globo e jornais Folha e Estado de S. Paulo, os quais acumulam a maior parte dos recursos públicos destinados à publicidade governamental no Brasil.
Veja a seguir entrevista com Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé e importante militante pela democratização do setor de Comunicação Social no Brasil, que trata do recente comportamento da procuradora Sandra Curreau contra a Revista Carta Capital enfocando as reais razões políticas que tem determinado a reação da mídia e de setores do aparelho do estado brasileiro, como o Ministério Público.




Esta entrevista foi concedida no Ato contra o golpismo midiático que ocorreu no dia 23 de setembro de 2010 no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

ERUNDINA DISCURSA CONTRA IMPRENSA GOLPISTA


O dia 23 de setembro de 2010 foi um daqueles dias em que muitos militantes recordaram o período de agitação política vivido nas diretas ou no Fora Collor. Não pela proporção numérica dos envolvidos, mas pelo gás e seriedade dos participantes que se fizeram prontos a se posicionar contra um manifesto comportamento abusivo da denominada "Grande Imprensa" brazuca.
Ocorreu neste dia o “Ato contra o golpismo midiático”. Estavam presentes representantes da CUT, CTB, CGTB, Nova Central Sindical, MST, Altercom, Barão de Itararé, Sindicato dos Jornalistas, UEE/SP, PDT, PCdoB, PT e PSB e muitos militantes de diversos movimentos e tendências. Luiza Erundina também esteve por lá.
O denominado golpismo midiático parece ser a tônica dos últimos meses no Brasil. E isto não deve ser naturalizado como um processo evolutivo na sociedade, mas sim, vislumbrado como um fenômeno em que forças político-midiáticas se confrontam com um projeto político para o Brasil que é antagônico a sua visão de mundo.
Os factoides, notícias que não reportam a fatos mas sim a opiniões, desqualificação de pessoas por ataques a sua vida privada, eis o ingrediente retórico das redações dos jornalões. É tempo em que o STF tira da existência jurídica a referência de regras básicas sobre a atividade de imprensa. Ademais o cenário político/jurídico é o daqueles em que os que sempre mandavam, e se submetiam de vez em quando aos caprichos do direito de resposta, depois que já haviam feito o estrago na imagem de alguém, agora nem a isso se submetem. E mais, agem de forma parcial em favor de um dos candidatos a Presidência da Répública, José Serra, e contra a continuidade do projeto de governo do Partido dos Trabalhadores.

No vídeo a seguir, temos Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo e atual deputada federal. Também, uma das mais ativas deputadas em favor da modernização e democratização do sistema de comunicação no Brasil. Articuladora fundamental para a realização da primeira Conferência Nacional de Comunicação.
Erundina aponta as razões para o tal comportamento midiático em um emocionante discurso.



sexta-feira, 24 de setembro de 2010

GUTO CAMARGO (SIND. JORNALISTAS) EM DEFESA DOS JORNALISTAS E DA ÉTICA


Em defesa dos jornalistas e da ética

Reproduzo o corajoso pronunciamento de José Augusto Camargo, o Guto, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e secretário-geral da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), lido durante o Ato contra o golpismo midiático, desta quinta-feira:

Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação

O conceito de golpe midiático ganhou notoriedade nos últimos dias. O debate é público e parte da constatação de que setores da imprensa passaram a atuar de maneira a privilegiar uma candidatura em detrimento de outra. É legítimo - e desejável – que as direções das empresas jornalísticas explicitem suas opções políticas, partidárias e eleitorais. O que é inaceitável é que o façam também fora dos espaços editoriais. Distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos não é exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o noticiário cotidiano segundo interesses outros que não os de informar com veracidade.

Se esses recursos são usados para influenciar ou determinar o resultado de uma eleição configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. Não se trata aqui do uso da força, mas sim de técnicas de manipulação da opinião pública. Neste contexto, o uso do conceito “golpe midiático” é perfeitamente compreensível.

Este estado de coisas só acontece porque os jornalistas perderam força e importância no processo de elaboração da informação no interior das empresas. Cada vez menos jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública. Ela passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a dita orientação editorial são penalizados. Também nunca conseguem atingir cargos de direção que, agora, são ocupados por executivos que atendem aos interesses de comitês, bancos associados, acionistas etc.

Esse estado de coisas não apenas abre espaço para que a mídia atenda a interesses outros que não o do cidadão, como também avilta a profissão de jornalista, precariza condições de trabalho e achata salários. A consequência mais trágica disso é a necessidade de se adaptar ao “esquema da empresa” para garantir o emprego, mesmo em detrimento dos valores mais caros.

Para avançar nessa discussão é necessário estabelecer a premissa de que informar a população sobre os desmandos do governo (qualquer deles) é dever da imprensa. Orquestrar campanhas pró ou contra candidatos é abuso de poder. A linha divisória entre esses campos é tênue e cabe ao jornalista, respeitando o profissionalismo e a ética, estabelecer o limite tendo em conta o que é de interesse público.

Não podemos incorrer no erro de instaurar na cobertura de fatos políticos os erros cometidos em outras áreas, ou seja, o pré-julgamento (que dispensa provas, pois o suspeito está condenado previamente) e o jornalismo espetáculo (que expõe situações de maneira emocional para provocar reações extremadas).

A ideia de debater e protestar contra esse estado de coisas resultou na realização do ato em defesa da democracia e contra o golpismo midiático realizado no auditório do Sindicato dos Jornalistas. A proposta surgiu em conversa entre blogueiros, foi assumida pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, que procurou o Sindicato dos Jornalistas e este aceitou sediar o evento.

A sociedade sabe que o local ideal para este debate é o Sindicato dos Jornalistas. Não apenas porque os jornalistas são parte importante nesse processo, mas, principalmente, pela tradição da entidade em ser um espaço democrático aberto às diversas manifestações públicas e de interesse social.

O que está em discussão são duas concepções opostas, uma que considera a informação um bem privado, passível de uso conforme interesses pessoais, e outro que entende a informação como direito social, portanto, regulado por um “contrato social”, exatamente como acontece com a saúde ou a educação.

Ter direito de resposta, garantir espaço para que o contraditório apareça, impedir o monopólio da mídia, tornar transparente os mecanismos de outorga das empresas de rádio e TV, destinar parte da verba oficial para pequenos veículos, criar a rede pública de comunicação, regulamentar as profissões envolvidas com a mídia, não são atos de censura, são movimentos em defesa da liberdade de expressão e cidadania!

O grupo dos liberais quer, a qualquer custo, impedir que o conceito de direito social seja estendido à informação. A confusão feita entre liberdade de opinião, de imprensa, de informação, de profissão e o conceito de censura e de controle público é intencional. Essa confusão é visível na argumentação utilizada pelo Ministro Gilmar Mendes para acabar com a necessidade do diploma de jornalismo. O objetivo é impedir que as ideias por trás das palavras sejam claramente entendidas pelo cidadão e, assim, interditar qualquer reivindicação popular nesse campo.

A liberdade de imprensa é o principal instrumento do jornalista profissional. Não é propriedade dos proprietários dos meios de comunicação. O verdadeiro ato em favor da liberdade de imprensa é feito em defesa do jornalista e, por consequência, diminui o poder da empresa. O problema é que, a exemplo do que escreveu George Orwell no livro 1984 quando criou a novilíngua (que pretendia reduzir o vocabulário, eliminar sinônimos e fundir palavras para diminuir a capacidade de pensamento), o conceito de liberdade de imprensa foi virado pelo avesso e, uma vez apropriado pela empresa de comunicação, passou a diminuir o papel do jornalista obrigando-o a se submeter às engrenagens do poder empresarial. Não é por acaso que existe a frase, ao mesmo tempo trágica e engraçada, de que apenas existe “liberdade de empresa”.

Não é por acaso que o debate sobre liberdade de imprensa e democratização da mídia está presente na campanha eleitoral deste ano. Não é uma briga entre partidos ou candidatos, é uma questão bastante difundida na sociedade e que exige posicionamento público das autoridades. A Associação Nacional de Jornais - ANJ está preparando um código de autoregulamentação para a imprensa que vem, exatamente, no sentido de fazer algo para impedir que o Estado ou a sociedade organizada o faça. Lembremos das palavras do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, em O Leopardo, “mudar para continuar igual”.

O debate público precisa ser aprofundado e ele não será feito com preconceitos ideológicos, mas, sim, a partir de análise apurada da realidade e das necessidades da democracia que, penso, não se concretiza sem o chamado “contrato social” que regra a atividade humana, impedindo que os mais fortes destruam os mais fracos. Estamos clamando pela verdadeira liberdade de imprensa, pela ética profissional e pelo direito do cidadão de informar e ser informado!

Retirado do Blog do Altamiro Borges

LULA DEFENDE NOVO MARCO REGULATÓRIO DA COMUNICAÇÃO


Nós temos nove ou dez famílias que dominam toda comunicação deste país!
Luiz Inácio Lula da Silva


Foi publicado ontem, 23/09/2010, no Youtube parte de uma entrevista do Presidente Lula na qual este explica o atual cenário da imprensa brasileira e do seu comportamento parcial (favorável a Serra) velado.

O vídeo (produzido pelo Portal Terra) além de se tratar de uma importante manifestação política, por que demonstra a posição do Presidente favorável ao debate e estabelecimento de um regime jurídico moderno para o sistema de comunicação do país, também, confirma mais uma vez a necessidade de estabelecermos um pacto social entorno da questão comunicacional.

Veja o vídeo:



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ESPECULAÇÕES DE QUEM (IMPRENSA) NÃO SABE PERDER


Tem pena de mim, ouve só meus ais,
que eu não posso mais, tem pena de mim!
Chora coração - Vinícius de Moraes


Na calada da noite preta, mais um debate sobre eleições
Assisti na madrugadinha o Band Eleições, da Rede Bandeirantes de Televisão. Se a solidão contagia na noite paulistana, o que resta é dar uma olhada nos comentários eleitorais! Brincadeiras a parte, o que se pode afirmar sem sombra de dúvidas é que a tendência do processo eleitoral se confirma, enquanto fenômeno social de estabilização da opinião do eleitorado. Esta opinião, para o desespero dos meios de comunicação, que estão claramente contra a candidatura de Dilma, não está submetida ao efeito que se desejava com a composição de escândalos midiáticos.
No programa esteve presente João Francisco Meira, do instituto VOX POPULI que reafirmou um processo de grande estabilidade (com variações mínimas de variação estatística) nos números de pesquisa eleitoral relativa a disputa à Presidência da República.

Dilma caiu? Existe risco de segundo turno?
Fernando Mitre, apresentador da mesa de discussões, não resistiu e apontou a “tese” de que Dilma teria caído um pouco na preferência eleitoral dos brasileiros, defendendo que este processo teria relação de coerência com os últimos escândalos noticiados pelos meios de comunicação dominantes. Não conseguiu sustentar seu rompante especulativo, o fenômeno Elenice não ofereceu nenhum risco, e isto restou como conclusão única possível, entre os debatedores.
O que foi dito pelos mesmos é que faltariam 8 pontos percentuais para viabilizar um segundo turno, uma vez que Dilma, segundo o Data Folha atingiria hoje 49% dos votos, sendo que o total dos demais concorrente não ultrapassaria a margem de 41% dos votantes.
Francisco Meira acertou no argumento que o eleitor não estaria votando ou deixando de votar pelas razões que Mitre tentava a todo custo defender como basilares de uma possível mudança do comportamento eleitoral. Na verdade, Mitre mais torcia do que defendia argumentos. Nesse ponto Meira foi enfático, escândalo que muda o processo eleitoral, muda para além da margem de erro, caso contrário não tem relevância estatística.

No entanto, os indecisos estariam no limite da alienação eleitoral. Marina, segundo apontou-se teria atraído um pouco do eleitorado neste momento de aperto obrigatório de decisão.
Outra perspectiva, no entanto, para o fenômeno de variação mínima percentual dos números favoráveis a candidatura governista que foi apontado é o de que Dilma, ao chegar a 60% dos votos válidos - como se percebeu como teto até o presente momento do acompanhamento do processo eleitoral - teria efetivado um fenômeno sem precedentes históricos, vez que Lula só atingira coisa parecida no segundo turno eleitoral, e não no confronto direto com todos os candidatos. Por isso que variações para baixo deveriam ser esperadas como natural diante de um fenômeno eleitoral tão robusto.

Sobre os conteúdos de campanha
No início do outro bloco, Fernando Mitre tentou iniciar a discussão de que não estava diante de uma campanha que discutia propostas. Francisco Meira, logo em seguida, tentou refutá-lo identificando que os canditatos teriam tratado de temas programáticos e pontuou que Serra teria combinado críticas com conteúdos: ampliação de bolsa família, dentre outros. Mitre, não permitiu que Meira concluisse sua fala e interrompeu o pesquisador com as velhas generalizações do tipo “trata-se da pior campanha que já vi”. Os argumentos jornalísticos parecem pontuar o mais do mesmo, como se já não tivéssemos ouvido isto em campanhas anteriores; o que, portanto, não indica necessariamente alguma evidência ou reflexão explicativa relevante.
O que restou no fim das contas como consenso foi mais uma obviedade. A de que o momento de uma campanha eleitoral não permite a abordagem direta de temas que possam prejudicar a condição eleitoral da viabilidade das candidaturas (nada de polemizar). Mas não seria assim em todos os momentos da vida, não avaliamos bem o que vamos abordar em função de cada momento social?
Eduardo Oinegue, jornalista do portal IG, um dos outros debatedores apontou como provável explicação, para os reclames de Mitre, que os candidatos ficaram um bom tempo tentando se conceituar, o que levou ao prejuízo da abordagem de temas fora da referência direta da imagem do candidato.
O que, no entanto, ou não percebeu, ou não quis declarar, é que um fenômeno de candidatura como Dilma teve sua imagem fincada na explicação específica dos programas de Lula e na forma com que estes poderiam ser continuados e ampliados, dentro de uma lógica sistêmica. O que foi acertado pela campanha de Dilma foi a percepção que explicar Dilma, conceituá-la, pasaria por associar a explicação do que afinal se tratou o governo Lula. E a forma de se fazer isso é através da abordagem de conteúdos de programa de governo, o que se tem visto no programa de Dilma.

OBSERVAÇÕES FORA DO EIXO:
(1) Parece que Marina dentro da limitação de agenda, espaço e tempo está colhendo alguns frutos. Na verdade bem pouco. Marina fica na rabeira da rejeição de Lula e Serra.
(2) João Francisco Meira refutou a idéia (advinhem, defendida por Mitre) que Plínio brigou, nos debates, para discutir propostas. É verdade, que ele (Plinio) bradou isto a quatro ventos, mas a única coisa que ele disse de concreto é que era contra tudo.

Olhos fechados miram a escuridão
Oinegue considerou também como ponto contra o desenvolvimento de uma abordagem programática na campanha teria sido que o tom de pancadaria demarcado na campanha, tomando-se em conta a grave denúncia do caso relativo a Receita Federal e do caso da ex-Ministra da Casa Civil Erenice em seu provável envolvimento com um processo de negociação ilícita.
Mais uma vez a visão generalista de ausência de conteúdos “relevantes” revelou uma mescla de predileção eleitoral dos âncoras de televisão por um dos candidatos, associada à uma visão de que a retórica que se desenvolve entorno dos temas de interesse do eleitorado não é a dos temas “verdadeiramente” importantes (uma visão de fato elitizadora da Democracia).
Em um destaque importante, contrapondo às posições de Mitre e Oinegue, Francisco Meira disse que a campanha de Dilma optara, estrategicamente, por não explorar denúncias. O que, segundo o pesquisador do Vox Populi. Já que o grupo de Dilma também teriam condições e elementos para denunciar.
Se ficou claro que as premissas da decisão eleitoral eram outras, o engraçado é que diante deste conjunto de argumentos, de tão forte base de realidade e que calou a todos, Mitre e Oinegue não se dispuseram a indagar quais seriam os tais fatores que contrariavam suas teses, imaginando o mero continuísmo como base do raciocínio eleitoral.

Tenho visto tal análise, mesmo entre os envolvidos no processo eleitoral, infelizmente. Isto demonstra que estes analisam a decisão eleitoral a partir de premissas que tomam o eleitor como um indivíduo pouco racional. A verdade é que talvez, mesmo estes, tanto mais os jornalistas, se encontram insensíveis para perceber fenômenos novos na leitura política que a população brasileira está expressando.

A velha visão paulicêntrica
Na mesma toada, Oinegue apontou que, em 2006, o PT teria dado um presente aos adversários que viabilizara o segundo turno. No entanto, o caso de Erenice, agora, não teria sido dado de bandeja. Para o jornalista Oinegue este caso teria sido tão grave quanto o outro, mas o efeito eleitoral negativo não se repetiu desta vez. A análise de Oinegue para isto é mais uma vez limitada, vez que se sustentou em características pontuais dos fatos de 2006 comparando com o dos fatos recentes, considerando que as diferenças factuais tivessem promovido um fenômeno diferente de percepção eleitoral.
Mitre, no caótico jogo opinativo, não podendo mais fugir da argumentação de Francisco Meira, ao seu modo, tentou emplacar mais uma tese, ao dizer que o ponto fundamental da decisão eleitoral seria o consumo. João Francisco Meira, no entanto, destacou que o melhor a dizer seria que tal ponto fundamental teria sido a percepção de qualidade de vida. Mitre refutou e Oinegue foi na cola, mas a visão paulicêntrica (destacada por Francisco Meira), de um Brasil pronto, foi apontada como a base para a desconsideração de um fenômeno confirmado por pesquisas.

Elites toldadas pelo seu próprio preconceito e visão restrita da realidade.
Oinegue, no entanto, também disse que qualidade de vida não seria um conceito explicativo muito forte para o caso. No entanto não pode desconsiderar que o cálculo comparativo do antes e depois, ou seja, a percepção de melhora das condições de vida era o que sustentava a racionalidade eleitoral presente. Dá para entender tanta confusão! Uma das razões em defesa disso foi a de que, apenas, 8% dos votos da Dilma vem de beneficiados do Bolsa Família (20% do total dos beneficiados).

O que vem por ai...
(1) No final das contas deu para entender qual será uma das pautas: "Dilma estaria perdendo votos e o segundo turno se avizinharia". Mas acho que o primeiro rond foi perdido pela mídia, e mais uma vez eles não convenceram o eleitorado.
(2) Detalhe, Boris no noticiário da Band, logo em seguida, destacou em suas manchetes, a ocorrência do evento que teria reunido juristas, artistas e outros em favor da Democracia (na verdade contra ofensiva ao evento que ocorrerá logo mais contra as posturas radicais da imprensa brasileira, promovido pelo Instituto Barão de Itararé).

É esperar para ver, o que está em disputa não é só a Presidência da República, mas a visão de mundo que irá dirigir o país. A guerra está acontecendo, quem tem olhos para ver que veja!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

DIAS DE LUTA! LULA E DILMA X PIG (PARTE II)


A última postagem deste blog foi acerca das manifestações de Lula e Dilma contra os processos de radicalização e afronta aos direitos de opinião, contraditório e contra princípios basilares do jornalismo ocidental.

Encontra-se abaixo o discurso de Lula, proferido no Comício do dia 19/09/2010 (sábado passado) e que foi objeto da postagem anterior, vale a pena conferir!




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

DIAS DE LUTA! DILMA E LULA X PIG


Os últimos dias foram marcados pela contra-ofensiva de Lula e Dilma à parcialidade "barra pesada" de veículos como a Veja, Folha, O Globo, Rede Globo de televisão. Lula e Dilma resolveram soltar o verbo e apontar a parcialidade, até então, pouco comentada publicamente.


Lula discursa em Campinas contra os jornalões
No dia 18/09/2010 (último sábado), em comício realizado na cidade de Campinas, onde foram reunidas mais de 30 mil pessoas, Lula falou do comportamento partidário da imprensa brasileira:
Nós não vamos derrotar apenas os adversários tucanos; vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partidos políticos e não têm coragem de dizer que são partidos políticos e têm candidato”.

Num recado direto aos jornalistas presentes, ele cutucou as suas consciências. “O dono do jornal, da revista ou da televisão tem lado. Só o jornalista acha que ‘eu sou neutro’. Não existe ninguém neutro”.
E emendou acerca da revista Veja: “Eu estive lendo algumas revistas, sobretudo uma que eu não sei o nome. Parece ‘óia’. Ela destila ódio e mentira... Tem dia que determinados setores da imprensa chegam a ser uma vergonha. E eles ainda falam em democracia. Eles não suportam escrever que a economia brasileira crescerá 7% este ano, não se conformam que um metalúrgico vai criar mais emprego que os presidentes elitistas que governaram o país... Não sou eu que vou censurá-los; é o telespectador, o ouvinte, o leitor que medirá o que é mentira e o que é verdade”.
Lula convocou todos para a política combativa que a conjuntura requer: “O dono dos jornais, das revistas tem lado! Nós também temos que ter lado!”, salientou.

Folha tenta desqualificar empresa estatal de comunicação
Depois disso tudo, a Folha de São Paulo, no dia de hoje, atacou o governo afirmando que a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) foi escalada pelo governo para cobrir a campanha de Dilma, em nota, a Secom respondeu a respeito da manchete do jornal Folha de S. Paulo de hoje (20/09), “Planalto manda TV estatal filmar comícios de Dilma”, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República esclarecendo:

1. A manchete está errada. A NBr, canal de comunicação do governo, produzido pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em contrato de prestação de serviços com a Secom, não foi instruída a gravar “comícios de Dilma”, mas sim as falas do presidente da República. É importante esclarecer que é missão da Secom manter registros de todos os pronunciamentos do presidente da República. Com isso, não só se assegura a preservação de arquivos que têm valor histórico, como se facilita a correção de possíveis erros de terceiros na divulgação dos discursos do presidente.

2. As gravações não se destinam à divulgação nem foram cedidas a qualquer campanha. Isso fica claro na orientação dada aos cinegrafistas, reproduzida pelo próprio jornal. Diz ela: “O objetivo é somente ter um registro, gravando as ações do presidente e os discursos”. E complementa: “Este conteúdo não é para ser usado na nossa cobertura, nem mesmo para ser gerado para as emissoras. É apenas para registro”. Apesar disso, a Folha dá a entender, sem qualquer prova, que elas poderiam estar sendo “encaminhadas ao comitê de Dilma ou utilizadas na propaganda eleitoral”. Trata-se de uma insinuação leviana.

3. Não houve qualquer utilização da máquina pública em favor desse ou daquele candidato. As gravações não foram cedidas a nenhuma campanha. O material é de uso da Presidência da República. Lamentamos que atividades institucionais regulares da Secom sejam tratadas de forma suspeita, em tom escandaloso.

4. Cabe registrar que a Folha errou ainda na identificação da foto da primeira página do caderno Eleições que vem acompanhada da legenda “Eleitoral – À noite, o cinegrafista filma comício com Dilma e Lula”. A foto publicada não é de nenhum comício, mas de um evento realizado à tarde, na Universidade Federal de Juiz de Fora, numa programação oficial do Presidente da República.

(fonte: http://blog.planalto.gov.br/secom-registra-todas-as-falas-publicas-do-presidente-e-a-folha-nao-sabia-disso/)



Dilma senta a pua na Folha de São Paulo
Para terminar (por enquanto), Dilma hoje de manhã, no Rio de Janeiro destacou mais uma das enviesadas da Folha, A candidata Dilma Rousseff protestou contra a postura “parcial” adotada pelo jornal Folha de S. Paulo numa matéria publicada na edição de hoje. A publicação deixou de informar que Dilma teve todas as suas contas aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS), quando foi secretária do governo estadual.
Ela falou sobre o tema durante uma visita ao bairro Alcântara, em São Gonçalo (RJ).
O jornal, segundo ela, tenta estabelecer uma relação entre a empresa Meta Instituto de Pesquisa e ela, porém não apresenta qualquer prova e não informa que as contas foram todas aprovadas. A Folha ainda usa pareceres do TCE sem citar qual foi a decisão final do tribunal, que foi pela aprovação total das contas geridas pela petista.

A contratação da Meta foi executada por licitação (regime de tomada de preços) e o Ministério Público em processo analisado pelo TCE, deixou claro que Dilma não podia ser responsabilizada pela falta de funcionários na Secretaria de Energia do estado, no período que foi ministra no RS.
Confiram no vídeo:




Vídeo extraído do dilmanarede.

sábado, 18 de setembro de 2010

CONTRA CONSENSOS FABRICADOS - LEONEL DE MOURA BRIZOLA

Brizola, em São Borja, no retorno do exílio.

Esta postagem busca recordar a presença de um homem extraordinário. O único político que fora governador em dois estados do Brasil. Um homem que defendeu o governo Jango e estava disposto a lutar com armas para evitar o Golpe de 1964. Um dos mais combatidos pela grande imprensa conservadora do Brasil, principalmente a Rede Globo.
Um político que instrumentalizou pólíticas públicas afirmativas de inclusão social, antes do "slogan" fazer parte das discussões do cenário político e institucional brasileiro.
O prioneiro contra a partidarização dos meios de comunicação, o que muitos tem denominado de PIG.

Foi duas vezes candidato a Presidência da República e em outra, vice na chapa que tinha Lula como candidato.

Um político de esquerda, nacionalista e militante até o fim da vida! Leonel de Moura Brizola.

Brizola Neto, no vídeo abaixo apresentado, conta sobre momentos de convivência com o avô Leonel Brizola e como este se preocupava com o agendamento da imprensa e a forma de apresentação (disposição) nos tablóides das notícias.

"Temos que libertar a mídia da censura do poder econômico", dizia o velho Brizola. Veja o vídeo:





Esta fala foi proferida no I Encontro de Blogueiros progressistas brasileiros.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

QUANDO TUCANOS DEIXAM DE VOAR – A MORTE DO PSDB


Fico observando os apoiadores tucanos na internet e percebo, antes de mais nada, que estes podem ser divididos entre a grande imprensa e trolls (encrenqueiros da internet) pagos pelo PSDB e cia. Ambos, no entanto tem como intenção habitual de discurso, a propagação de maus dizeres, falas sem substância factual (de realidade) e com baixo poder analítico.

Esta minha fala não tem a pecha de desqualificar o PSDB, que nascido da dissidência do Quercismo, de um PMDB que nos anos oitenta já falira (inflado com velhos apoiadores e comportamentos da ditadura) agora retorna, naturalmente, ao seu antigo celeiro, tendo como única forma de expressão política, a de outrora, sem discurso, sem projeto, a velha visão de política baseada em caciques e na figura de nomes políticos consagrados, e nada mais!

A recente fúria PSDBista, tenho afirmado se tratar de uma consequência da lógica do ressentimento e do chilique, que se caracteriza em suma, pela expressão de uma força desproporcional que tem como pano de fundo a derrota iminente de seu agente.

Este comportamento, no entanto, tem bases estruturais. O projeto PSDBista de uma social democracia européia que tanto lá, como aqui, se tornou neoliberal, fracassou com a crise econômica mundial. Ao mesmo tempo, um projeto em andamento que tem bases políticas em grupos de forte representação política (sindicalistas, movimentos sociais, intelectuais, marxistas) tornou-se A opção eleitoral no Brasil.

Essa opção tem como bases o resultado econômico e social que o governo de Lula foi capaz de traduzir em políticas públicas. É por tal razão que o discurso de marketing do PSDB (à moda de Lavareda: do subjetivismo), que toma os supostos eleitores como “irracionais” não consegue persuadir, posto que o eleitorado está, como diriam os americanos, "votando com o bolso" (à moda de Downs).

O racionalismo impera quando as bases econômicas são percebidas pelos cidadãos em geral. E isto ocorre, não somente, em função de um repertório político sofisticado, mas pela natural capacidade dos indivíduos de constituir opção diante de realidades concretas. Estas realidades se firmam à medida que deixam de ser mera referência simbólica e passam a ser percebidas na esfera do valor de uso, antes que a do valor agregado de bens (coisa que o marketing busca afirmar).

O programa de televisão de Serra é ruim não por incompetência, mas por uma visão desqualificadora do eleitorado, da recepção de suas mensagens. O programa de Dilma, ao contrário do que possa parecer, procura, em linguagem publicitária explicar (especificar, detalhar) o que teria sido o governo Lula.

Não é por acaso que se constata no Brasil, uma forte tendência de aproximação do eleitorado por uma opção de esquerda. Nesse contexto, o PSDB deixou de existir, enquanto mediador de visão política e de um projeto político nacional.

Conseqüências disso? Aécio tem apontado desde o início do ano que pretende deixar o partido (hoje deve sair uma Carta Capital apresentado esse prognóstico). Segundo aponta a revista, Aécio deseja formar um novo partido que iria apresentar uma proposta de oposição moderada ao governo de esquerda que deve ganhar as eleições no Brasil.

Mas mesmo isso, não é tão automático assim! Depende da vitória de Anastasia em Minas, e de seus prováveis apoiadores, caso contrário Aécio, também, naufraga junto ao PSDB.

Prováveis acompanhantes desta nova senda partidária seriam Geraldo Alckmin e Kassab em São Paulo.

O que está sendo abandonado com isso é a pessoalidade desequilibrada e desagregadora de Serra associada ao racionalismo autobajulador de FHC que não permitiu ao PSDB parar para se reajustar no cenário nacional. Resultando, degringolou. E este comportamento do PSDB leva consigo, parte de nossas elites econômicas que ainda não se permitiram buscar pactuar com a nova ordem política estabelecida no Brasil. Não se permitiram por dois motivos:
1. Por que estão quebrados e Serra representaria o pagamento das contas via Presidência da República;
2. Por que subsiste em sua leitura de manutenção do poder, a esfera política como garantidora de um mercado capitalista com sofisticação média para pequena e com o eterno temor de ter de se fazer gente grande. Nunca tivemos no Brasil liberais de fato, mas uma aristocracia que fundava seus lucros nas estruturas mescladas da política e do mercado.

Eis o fim do PSDB, uma relação social superada historicamente.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A HISTÓRIA DAS ELITES GOLPISTAS MILITARES

"Eu vim servir ao Exército pensando que o Exército estava servindo ao povo, mas quando o povo grita por seus direitos é reprimido. Aqui, o Exército defende os monopólios, os latifiundiários, a burguesia. O povo é sempe reprimido. Esse Exército é podre e eu não aguento mais..."

Carlos Lamarca, em o Capitão da Guerrilha de Emiliano José


É natural que ao notarmos um fato histórico importante, tomemos os seus principais personagens e os fatos mais próximos do incidente como fatores explicativos do mesmo.

Em muitos casos, porém, este tipo de olhar imediato nos limita a visão das origens que geraram um determinado contexto. Isso vale, certamente, para a questão do golpe militar de 1964.

O discurso oficial, da boca dos militares, aponta que o levante bélico se deu em contra-ofensiva ao governo de Jango e a ameaça de implantação de um regime socialista no Brasil. Se isso é verdade, diz respeito a fatores mais próximos do momento do golpe militar, mas não explicam de onde surgiram seus líderes e sua concepção ideológica.

Em um relato belíssimo, Darcy Rodrigues, antigo revolucionário da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) - movimento que teve como líder Carlos Lamarca, relata a história das forças armadas brasileiras (em especial, o Exército Brasileiro) por um viés marxista, demonstrando os conflitos de classe internos e as origens históricas dos grupos golpistas e revolucionários no interior da caserna nacional:
















CADÊ OS ADIVINHÕES DO DATAFOLHA?


No sábado, os dois geniais diretores do Datafolha, senhores Mauro Paulino e Alessando Janoni, do alto de sua sabedoria estatística, pontificavam no artigo “”Caso da Receita influencia voto em segmentos da classe média” que Dilma estaria caindo significativamente entre os formadores de opinião – leia-se, os mais ricos e os de maior escolaridade – em razão das denúncias sobre a quebra de sigilo fiscal de Verônica Serra.

Transcrevo, literalmente:

“Dilma Rousseff (PT) mantém confortável liderança, mas, estratificando-se os dados, nota-se que em subconjuntos típicos da classe média, o apoio à ex-ministra caiu de forma significativa.
Entre os eleitores que têm nível superior de escolaridade, por exemplo, a petista perdeu cinco pontos em cinco dias e voltou ao patamar de março (37%).
A queda foi de oito pontos entre os que têm maior renda.”

O assunto não saiu das manchetes e da televisão e ainda ganhou a companhia luxuosa das suspeitas sobre a ação da Ministra Erenice Guerra.

E o que mostra a pesquisa Datafolha concluída ontem? Dilma não caiu um ponto sequer entre estes segmentos. Ao contrário, subiu um ponto entre os entrevistados de nível superior e quatro pontos entre os de maior renda (acima de 10 salários mínimos). E entre os de renda média – 5 a dez salários – também, houve uma alta expressiva: três pontos.

E os nossos sabichões diziam, também, que Marina Silva era a grande beneficiada pela queda de Dilma, destacando o quanto ela tinha subido. Pois não é que a candidata verde caiu nos segmentos onde os adivinhões diziam que ela estava disparando. Perdeu três pontos entre os entrevistados de nível superior e subiu apenas um entre os mais ricos. Em compensação, perdeu cinco entre os eleitores de cinco a dez salários de renda familiar.

Os dois “sabidos” diretores do Datafolha desprezaram, no seu artigo, todos os sinais de cristalização dos votos pró-Dilma e preferiram trocar a análise fria pela interpretação dos seus desejos, ou dos desejos da empresa em que trabalham. O resultado é que deram um tiro n´água e, diante da opinião pública, parecem mais torcedores do que estatísticos.
Fonte: Tijolaço

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A MEDIDA DO SONHO É A LUTA


"A luta é minha vida." (Nelson Mandela)


Objeto de inúmeros ataques da imprensa por meio de jornais, revistas, televisão e internet. Hostilizado como meio de atingir o Partido dos Trabalhadores, justamente por que nunca abandonou este partido e seus propósitos. José Genoino encara todos os dias uma chuva de confrontos frente aos adversários do governo Lula. Estes ataques, em muitos casos, miram sua reputação pessoal.

Ataques que não tem qualquer responsabilidade em provar o que diz ou em dar voz a outra parte, o que é um princípio de direito democrático.
Quem conhece José Genoino chega a se emocionar ao ver que o que é dito pela imprensa não corresponde a verdade. Vivendo modestamente em uma casa no bairro do Butantã, há muitos anos, o mesmo sempre coloca a luta política acima de realizações pessoais e da afirmação pessoal.



Preso na Guerrilha do Araguaia em 18 de abril de 1972.
A foto foi divulgada, pela primeira vez, em 'O Globo', 24 anos depois, em 28 de abril de 1996


O mais tocante e valoroso disto tudo, é que José Genoino, mesmo sendo um dos principais alvos da imprensa, nos debates e na ação parlamentar é um dos grandes defensores da liberdade de imprensa e opinião.


José Genoino é uma das figuras mais admiradas entre a militância de esquerda no Brasil, em particular entre petistas. Esta condição no entanto não é gratuita, mas fruto de uma vida que por ações e sacrifícios colocam acima de tudo a luta por ideais políticos transformadores. Tal como Luis Carlos Prestes que mesmo tendo visto sua esposa Olga Benário encaminhada para a morte por Getúlio Vargas e tempos depois, foi capaz de celebrar um pacto com Getúlio para elegê-lo, colocando o interesse do povo brasileiro acima de suas dores pessoais.

Ou ainda, como Nelson Mandela que, depois de muitos anos preso, soube deixar a prisão fisicamente e espiritualmente e assim, compor politicamente um pacto nacional, incluindo inclusive aqueles que o prenderam.


José Genoino é uma figura que a todo momento contribui com a recente história democrática brasileira, mas a sua vida pessoa também é testemunho profundo de sua fidelidade aos ideias petistas.
Em um relato tocante de sua filha Miruna Kayano Genoino, de agosto de 2007, esta característica é ainda mais destacada:

"Acreditar. E vencer.
Muitos anos atrás, quando eu ainda era aluna do Logos e nem sonhava em tomar os caminhos que depois surgiram na minha vida, minha mãe veio me contar que meu pai tinha sido convidado para ir à Ilha de Caras com todos nós. E que tinha dito não. Eu fiquei um pouco desapontada, não porque seja fã de tal revista, mas porque imaginava a mordomia e os brindes que poderia conseguir com uns dias naquele paraíso.
Quando meu pai chegou de Brasília e eu perguntei o porquê da recusa ele foi taxativo: jamais iria participar de tal ambiente, jamais iria conseguir relaxar no meio de tanto esbanjamento de luxo e dinheiro e não ia deixar que ficassem fotografando a hora dele nadar, comer, ir ao banheiro. Pouco tempo depois encontramos aqui em casa uma caixa, pro meu pai, com um tubinho todo chique, com um convite dentro: era para a festa de lançamento da novela "O Clone", que já tinha acontecido há alguns dias. Novamente indaguei ao meu pai para saber porquê ele não tinha ido (e me levado junto) e a resposta foi bem parecida: não quero estar no meio de uma festa que não significa nada para mim. E ponto.

Durante todos estes anos em que esteve na política, nos altos e baixos, meu pai nunca mostrou qualquer mínimo sentimento de ambição e de ilusão com o poder. Nunca se deixou maravilhar por este mundo das revistas sociais e das ocasiões de luxo e glamour. Nunca teve nem aquela ambição do tipo Odette Roitman, nem aquela pequena, ínfima, que todo mundo tem, de querer ter algumas coisinhas nas nossas vidas. Ele nunca teve isso porque para ele não era o que o movia, não era o que dava sentido à sua vida, à sua história, à sua luta.
O que sempre moveu meu pai foi um sentimento amplo, único, de trabalhar para um bem maior, para algo que pudesse de verdade "melhorar a vida das pessoas", esta era a frase que a gente mais ouvia. Ele sempre me dizia que, desde a época da ditadura, o que sempre deu força para seguir lutando, seguir vivendo, seguir sonhando, era esta certeza de que com a sua luta, seus ideais, as coisas poderiam melhorar, poderiam ser diferentes. E que certamente um dia seriam.
(...)

(A carta continua tratando da mudança de postura da imprensa)
Desde então temos recebido alguns importantes telefonemas de apoio, de solidariedade, mas também temos recebido telefonemas da nossa velha amiga imprensa.
(...)
A mesma imprensa que depois do meu pai ter sido sempre o interlocutor mais fiel, escrevia absurdos nos jornais sem nem ao mesmo realizar um telefonema para checar antes...

Esta mesma imprensa que nos fez passar por tudo, desde mobilizar uma multidão na porta da nossa casa para nos xingar, até escrever que meus pais tinham ido ao meu casamento na Espanha com dinheiro do Marcos Valério – não foram capazes de perguntar antes na companhia aérea sobre as 10 parcelas que minha mãe pagou para que eles pudessem estar comigo naquele momento.
Eu nunca serei contra a liberdade de imprensa. Nem eu, nem meus pais, que lutaram, sofreram, foram presos e torturados por defender a liberdade que a ditadura esmagou. Mas não posso ser a favor de ir de um extremo ao outro... Saímos das notícias falsas do regime militar e a omissão sobre os fatos, ao vale tudo da imprensa, que hoje em dia parece conversa de vizinha: ouviram um rumor, já está lá publicado. Sofro com tudo isso porque é a mesma injustiça que, na volta da minha lua-de-mel, fez com que eu fosse deportada: não importam os fatos, não vou checar nada porque eu mesma já decidi que o que você está dizendo é mentira. E o mais triste não é nem isso, alguém ser assim de injusto; o pior é ver um monte de outras pessoas acreditando e se deixando levar pelo movimento.
O que percebo é que as pessoas não são mais inocentes até que se prove o contrário. Estão tratando a todos como se fossem culpados até que se prove o contrário.
Tudo isso me fez lembrar uma passagem do livro "O nome da morte", de Kléster Cavalcanti, que conta a história de um matador de aluguel que por acaso foi quem deu um tiro no meu pai e o prendeu no Araguaia. Quando tudo aconteceu, ele era apenas um jovem de 17 anos que não queria fazer mal a ninguém. E lá foram dizer a ele, para convencê-lo a realizar o tal serviço, de que ele estava ajudando a combater os comunistas terroristas e assim ajudando ao progresso do Brasil. E o tal matador acreditou. Tanto tempo se passou desde esta história, mas parece que muita coisa continua igual... "Eles são corruptos e formaram uma quadrilha!" e um monte de gente vai lá, acredita, se revolta e ainda reclama da demora da justiça, porquê vai demorar tanto tempo para eles serem condenados???? Já existiram tempos em que tudo era mais rápido não é mesmo?
Tudo isso parece um inferno, parece um calvário, mas se querem saber algo, nós não vamos desistir. Acho que a história da minha família é essa, derrubar para dar a volta por cima e vencer, vencer todos os desafios. Nós vamos vencer mais este desafio, vamos lutar até o fim para provar a inocência do meu pai, vamos lutar até o fim para que todos possam perceber que meu pai pode até ter cometido alguns erros políticos, mas que nunca, jamais, cometeu qualquer ação criminal. Jamais.
(...)
Não vamos desistir. Não vamos desistir, não vamos nos envergonhar e não vamos fraquejar. Nossa união sempre se mostrou imbatível e é ela que vai nos ajudar a vencer tudo isso e a provar que sim, os anos passaram, mas meu pai nunca deixou de ser aquele ser humano determinado, verdadeiro e íntegro, que nos momentos "em alta" não se deixou iludir pelas ilhas de caras da vida e por isso não vai ser agora, um pouco em baixa, que vai se deixar levar pelo mar de injustiça e desrespeito. Ele é maior que tudo isso, eu sei. E nós também, algum dia, seremos".

domingo, 12 de setembro de 2010

QUANDO MUDAR O BRASIL É UM SONHO


"Sou o resultado de uma história" - frase de Lula no parlatório do Palácio do Planalto em 01.01.2003.

Uma das estórias mais tocantes, que permite entender a garra e entrega pessoal dos antigos militantes de esquerda combatentes do regime militar e que muito tempo depois conquistariam o Palácio do Planalto, pode ser lida na passagem abaixo reproduzida.
Ela trata da visão de José Genoino, ex-guerrilheiro do Araguaia e importante militante petista acerca do forte significado da vitória de Lula, nas urnas em 2002.

A CONQUISTA DO PLANALTO
Quando estive preso em Brasília em 1972, a cada despedida de um companheiro que saía, nós dizíamos: “daqui a vinte e poucos anos vamos “marcar um ponto” ali no Palácio do Planalto, ok?”. Era um jeito de não perder a esperança no sonho de chegar ao poder, de fazer a Revolução. Nós subíamos sobre a pia da cela e conseguíamos enxergar pela janela o Palácio do Planalto. Chegar ali era o nosso sonho. Um sonho que eu pude realizar.


Em 2002, na festa da posse, quando Lula subia a rampa do Palácio do Planalto, eu me lembrei daquela cena da prisão. Foi um momento muito forte para mim.

A festa popular da posse em Brasília me deixou uma marca profunda.
Apesar da alegria, eu sempre comparei a nossa vitória naquele momento à conquista de uma espécie de árvore só com raízes e copa, mas sem os galhos fortes. As raízes representavam a tradição histórica e a luta do PT e a copa a realização extraordinária da vitória de Lula e de sua chegada ao poder. Mas faltava o meio-de-campo, aquilo que dava corpo e que ligava essas duas coisas. Porque só tínhamos três governadores e não éramos maioria política nem no congresso nem na sociedade (p. 167, Entre o sonho e o poder. Denise Paraná, 2006)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

OPINIÃO PÚBLICA EM TEMPOS DE INTERNET



Habermas é uma das principais referências teóricas acerca do conceito opinião pública. Este termo está associado ao de esfera pública que significa o espaço privado, ou conjunto de pessoas, que faria a mediação entre a sociedade e o Estado, expressando a tal da opinião pública.
A idéia restritiva do conceito de opinião pública, e que o vislumbra como uma categoria estática no contexto histórico, leva ao discurso blefe, como faz Demétrio Magnoli ao considerar a imprensa brasileira como mediadora da opinião pública.


Mas qualquer estudioso médio de comunicação sabe muito bem que dentre os desafios de produção persuasiva, mesmo para o mercado de produtos, encontra-se a questão entre a disputa entre o "mundo da vida" (o mundo fora da tela) e o "mundo da mídia". Resolvemos nossas opiniões e decidimos as coisas na combinação de fatores destes universos.
É neste momento que o caldo entorna, quanto maior for a discordância entre a narrativa da imprensa e aquilo que é notado no meio social ou nas conversas interpessoais, o modelo fixo de que a mídia é mediadora, vai pro brejo.
O pior para a capacidade persuasiva da imprensa se dá quando esta toma posicionamento político e entra em confronto inúmeros cidadãos que utilizando-se da plataforma da internet, disputam argumentos no espaço de embate da opinião pública.

A nova opinião pública depois do advento da internet e blogs é o tema do vídeo a seguir. Nele Luis Nassif debate o tema da mediação da opinião pública pelos grandes jornais. Esta fala contundente de um dos principais jornalistas de internet do Brasil foi proferida no I Encontro de Blogueiros Progressistas do Brasil.





quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A NOVA ESQUERDA DEMOCRÁTICA BRASILEIRA


Muito se falou acerca de uma terceira via, buscando desviar-se da dicotomia direita x esquerda. Esse debate tomou corpo no fim dos anos oitenta em diante tomou um peso muito grande no mundo. Neste ponto a Europa foi pioneira e muitos de seus pensadores fizeram desta referência uma nova alternativa política, não é difícil de recordar neste ponto de Anthony Giddens.

As origens deste quadro político remontam a crise instaurada na esquerda européia depois das denúncias que atravessaram a cortina de ferro e chegaram ao ocidente, destacando os abusos de poder executados por Stalin.

Neste momento surgiram tendências diferentes de pensamento a reboque do marxismo, tais como o culturalismo e a própria visão de terceira via. Mas não foi só isso, movimentos de luta para causas específicas, tais como movimentos de mulheres, de negros e outros grupos étnicos reprimidos, de defesa do meio ambiente, dentre outros, acabaram tomando força e dividindo a agenda política.

Autores de referência do marxismo europeu, como Adam Przeworski, apontam que esta nova repartição da agenda gerou um desgaste e menor poder de convencimento dos partidos de esquerda no contexto democrático. Isso levou a uma redução da força de articulação e convencimento dos partidos socialistas e comunistas.

No entanto, uma das poucas exceções no mundo acontecia no Brasil, o surgimento do Partido dos Trabalhadores - que tinha como pano de fundo estas questões (de diluição das bandeiras de esquerda com outras), mas vinha somada a uma base de movimentos populares (o que não se via mais na Europa) - acabou se tornando um fenômeno político que cresce, em apoio eleitoral, até os nossos dias.

José Genoino, antigo militante da esquerda brasileira, testemunha esta tensão entre influência de novas leituras da esquerda e sua adaptação ao cenário brasileiro pós-regime militar. Percebe-se na sua fala, as razões da sobrevivência e ampliação do Partido dos Trabalhadores como resultado da assimilação de bandeiras outras dentro do seu entorno socialista:

A ESQUERDA HOJE
No debate que eu fiz no início dos anos 90 tive de precisar bem o que significa ser de esquerda. Para mim, ser de esquerda é ter um compromisso militante com a luta pelo valor da igualdade social.

A luta pela igualdade é o que há de mais universal na Esquerda desde a época do socialismo utópico até hoje. Mesmo as experiências socialistas com autoritarismo político foram um avanço para a luta pela igualdade social. Mas é claro que não se pode absolutizar isso, é necessário incorporar a luta pela pluralidade, por uma sociedade radicalmente democrática.
Quando eu discuti essa questão, e era chamado de direitista, de moderado. Foi necessário que compreendessem que aquilo poderia se enquadrar nos parâmetros e conceitos de uma Esquerda nova, renovada. E acabei incorporando essa dimensão libertária e humanista no tratamento dos temas considerados polêmicos. Porque assim como é radical a luta pelo emprego, também é radical a luta pelo fim da discriminação em relação à mulher, seja no ambiente de trabalho, seja em casa. Não há como ter uma mudança compartimentada. Tem de ser integral. (Entre o sonho e o poder, Denise Paraná, 2006, p. 149)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

VOX POPULI PUBLICANDO DADOS SEM CHURUMELAS.



Os institutos de pesquisa eleitoral no Brasil e os principais veículos de imprensa repetem uma mesma métrica, a de serem poucos em um país de dimensão continental. A reboque disto, acabam por vezes a reproduzir um comportamento tendencioso que deixa de lado o rigor científico para caminhar por veredas da manutenção do discurso hegemônico, o que no período recente significa atacar o projeto de continuidade do governo petista.


No entanto, dado os escandalosos comportamentos perpetrados por institutos como IBOPE e sobretudo DATAFOLHA que no contexto recente de disputa eleitoral mantiveram números que claramente não correspondiam a realidade da opinião eleitoral, depois tiveram de correr atrás e em prazo de uma semana, numa escalada Dilma em relação aos demais, que as ruas e o Vox Populi, além das pesquisas internas dos partidos já apontavam como um fenômeno contínuo e não abrupto e surpreendente. Traduzindo, como o Serra não deslanchou, tiveram de apontar a vantagem de Dilma um "pouco" depois.

Essa impostura dos institutos foi criticada com clareza por Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, no dia 25/08/2010.

Este blog já advertia desde o ano passado que ao PIG restaria falar: foi sem querer querendo!


Um dos três grandes institutos de pesquisa do Brasil, resolveu se posicionar de forma diversa aos demais no contexto presente, simples, resolveu publicar o que o eleitorado apontava processualmente, sem inflar nem segurar dados estatísticos. Agora foi mais além, o Vox Populi está de parabéns, apresentando trackings da disputa presidencial, agora é possível acompanhar a evolução diária da tendência eleitoral. Compromisso com a transparência e cientificidade.
Vamos romper a malha do segredo (o que Habermas, no famoso livro: Mudança Estrutural da esfera pública, dizia ser uma arma da burguesia comercial e de produção associada a burguesia jornalística).
Vox Populi nadando contra a maré de uma imprensa e institutos de pesquisa tendenciosos.

Para ter acesso aos trackings clique aqui

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A CONJUNTURA ELEITORAL PARAENSE



Quando eu digo...Te amo
Falo do sempre
Do Círio, de tudo
Falo do eterno moleque
Do quanto te amo...

Belém, Belém
Regue a saudade
Regue a saudade pra mim
Belém, Belém, Belém, Belém...

(trecho da canção Doce Veneno, Nilson Chaves)


Tive a grata felicidade de morar no estado do Pará, mais especificamente no início de minha adolescência na cidade de Belém. Conheci naquele período o início do Partido dos Trabalhadores ainda numa caminhada inicial.
O Pará é conhecido por sua maravilhosa fauna e flora amazônica, por uma cultura particular e autônoma em relação a pressão da cultura de massa norteamericana e sobretudo, por uma gente solidária e emocionante.
Abaixo reproduzo análise do contexto político eleitoral do estado. Este texto foi produzido pelo colega Ruan Crapula Mor, paraense e especialista na questão do marketing eleitoral, mestrando em Comunicação pela UFBA.

A política paraense
O estado do Pará ficou 12 anos sob o comando dos tucanos. Em 2006, os paraenses finalmente conduziram ao poder um governo popular, de esquerda, progressista, chefiado por Ana Julia Carepa, ex-senadora e ex-vice-prefeita de Belém. Como acontece em praticamente qualquer gestão petista, Ana teve de convergir ao centro, e compor seu Governo com o PMDB de Jáder, que ocupou Secretarias importantes, a exemplo da SESPA – Secretaria de Saúde. Porém, na contramão de Governos petistas como os de Jaques Wagner na Bahia, e de Marcelo Déda em Sergipe - que também romperam com longos períodos de gestões do PSDM / DEM e tornaram-se amplamente populares - Ana enfrenta grandes dificuldades, e corre sério risco de não conquistar um segundo mandato. Última pesquisa IBOPE [1] colocou o ex-governador Simão Jatene, do PSDB, 10 pontos à frente: 43 a 33% para o tucano. O PMDBista, Domingos Juvenil, vem em terceiro lugar, com 6%.
De maneira geral, e em várias regiões do estado, há sentimento de decepção com o Governo do PT. Escândalos como a morte de 300 bebês na Santa Casa do Pará, e a prisão de menina de 15 anos em cela masculina em Abaetetuba, além de um cotidiano marcado por descaso com a saúde e avanço da criminalidade, chocam e revoltam a sociedade paraense, cada vez menos paciente com políticos. Todo este cenário ainda é consideravelmente agravado pela perda da Copa que Belém sofreu para Manaus. Os paraenses tinham muita esperança de sediar o evento mundial, e acreditavam apresentar melhores condições para isto. Pode-se dizer que, se Belém tivesse sido escolhida sede da Copa, a situação da Governadora seria muito diferente. Hoje, a rejeição de Ana é muito alta, e sua imagem está bastante desgastada [2].
Tucanos paraenses x onda vermelha
Jatene, por sua vez, descansou sua imagem nos últimos quatro anos, e tem explorado com muita competência e acidez a rejeição de Ana em suas inserções e programas televisivos. O marketing do PSDB tem sido implacável nas críticas, enquanto a campanha de Ana começou contida, um tanto acuada. Num português mais claro, apanhava muito e não batia nada. A coordenação petista parece ter apostado na prestação de contas, dispensando o enfrentamento – estratégia que faria sentido se a situação de Ana fosse como a de Dilma. Nos últimos programas, a candidatura petista começou a reagir, e vem se aproximando do tom necessário em uma disputa tão dura. Se o PT efetivamente optar por desconstruir o adversário, para além de mostrar as realizações importantes da governadora, o quadro desfavorável pode se inverter.
Primeiramente, a campanha de Ana tem de ser tão ou mais firme nas críticas quanto tem sido o PSDB desde a pré-campanha. Mesmo porque os 12 anos do tucanato no Pará são recheados de pendências, falhas, omissões e pontos-fracos. Durante o mês de outubro, Ana poderá capitalizar eleitoralmente a conclusão de importantes obras de trânsito em Belém, e de hospitais no interior. Além disso, não se pode ignorar que, em eventual segundo turno, a governadora contaria com dois fortíssimos trunfos: uma presidente já eleita de seu partido; e um presidente Lula menos requisitado (dado que a maioria das disputas estaduais caminha para decisão em primeiro turno – SP, RJ, MG, PR, RS, BA, PE, CE, DF, MT, dentre outras). Com agenda eleitoral mais folgada, Lula e a nova presidente poderiam até mesmo vir a comícios no Pará. Resta saber se o favoritismo do tucano paraense Simão Jatene resistiria à onda vermelha.
[1] http://blogdareporter.blogspot.com/2010/08/enfim-os-numeros.html
[2] http://blog.doxacomunicacao.com/2010/08/por-dornelio-da-silva-especialista-em.html

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

PROCESSOS MIGRATÓRIOS NA AMÉRICA DO SUL


Se no Brasil ao pensar o fenômeno migratório, imediatamente, recordamos os processos ocorridos à decadas atrás da saída de numerosas populações nordestinas para o eixo sudeste e sul do país, no entanto é possível perceber tal fenômeno como um importante processo sociológico presente em diferentes momentos históricos e em diferentes regiões, não necessariamente dentro de um único território nacional.

Este processo toma maior importância no contexto atual de crise econômica mundial, em que os países (recebedores) de primeiro mundo, reduziram substancialmente sua capacidade produtiva o que tem gerado processos econômicos e políticos de expulsão dos antigos migrantes internacionais.

Segundo relatou o professor Francisco Alves da Unicamp no encontro: Labour Migration and decent work: challenges and opportunities, em fala proferida no dia 02 de julho de 2010, a questão da migração toma maior importância no período de 1990 em diante, ainda que sempre existisse. Isso ocorre por que neste período se constitui um cenário de restrição e de impedimento à livre circulação de pessoas, de estagnação do espaço do trabalho, após certa saturação do capital.
Esse quadro dramático leva ações e políticas em prejuízo aos valores fundamentais da dignidade humana.



Mas o que explica o fenômeno da migração?
Segundo Alves, os efeitos de expulsão ou atração são os movimentos que explicavam, então, o fenômeno da migração, todavia, no período mais recente estes processos vem se mesclando e se tornando híbridos.
A questão da expulsão, no entanto ainda é mais importante, tendo em vista que os processos de criação de exército de reserva para o capital concentrado, contribui sempre para um renovado processo migratório.

Dentro da América do Sul é possível distinguir quatro movimentos migratórios fundamentais:

1. Movimento migratório das populações nativas da América do Sul (não estão circunscritos as fronteiras nacionais): incas, aimarás, guaranis, ianomâmis. A velocidade deste processo se dá na medida em que se efetivam os processos de estimulação da pressão do agricultura de grandes propriedades.
2. Um segundo movimento, o grupo mais numeroso que sem qualquer condição buscam o Paraguai e a Argentina em busca de melhores condições de trabalho ou de exploração de bens para comercialização.
3. Um terceiro movimento é o dos filhos de classe média que através de acordos de facilitação interncional, tais como o Mercosul (trabalhadores com escolaridade média ou superior – dec. 80 e 90), deslocam-se para outros países tendo o baixo desenvolvimento do mercado de trabalho na região Sulamericana.
4. Finalmente, um quarto grupo, que diz respeito a processos de migração dos escolarizados em nível superior, que buscam explorar condições de melhor empregabilidade e ganho.


Um continente de imigrantes

Quanto aos processos migratórios, Alves enfatiza que, em toda América do Sul, há superávit, ou seja o número de imigrantes é superior ao de emigrantes. A exceção dá-se na Argentina e Venezuela, mas mesmo nestes países, percebe-se cada vez mais um cenário de inversão.
Na Argentina (tal como no Brasil), a partir do início do século XX, uma anterior atração de europeus foi superada pela de latino-americanos. No caso argentino mais perceptível é a já antiga imigração de chilenos (a partir do golpe). Do contrário, percebe-se uma emigração de argentinos para Europa e EUA.



(o caso brasileiro)
No caso do Brasil, mais recentemente, ocorreu um profundo processo de imigração de bolivianos, dec. 1990, em um momento de em que o país (Brasil) não apresentava desenvolvimento. Portanto, não era atrativo para outras populações. Daí dizer que estas populações de bolivianos se fizeram expulsas por contingencias sociais de seu país.
Na cidade de São Paulo o principal local de recepção de populações de migrantes estrangeiros é o Bairro do Bom Retiro. Neste local, armênios, judeus, coreanos e agora bolivianos podem ser incluídos numa escala de substituição do trabalho escravo da população desde os anos de 1930.
Quanto aos brasileiros residentes no exterior, em particular nos EUA percebe-se taxas de crescimento populacional superiores ao do crescimento da população dentro do país.
Os processos de migração internacional, contemporâneos, estão baseados em fatores de ordem econômica e no desequilíbrio que a divisão internacional do espaço do trabalho dentro do capitalismo ocasiona. Veja-se, por exemplo, que este processo não atinge somente os menos abastados e qualificados, uma vez que os jovens doutores em países como o Brasil, principalmente nos anos de 1990, encontram na imigração um processo de oportunidade de trabalho, vez que neste momento histórico, não foram abertas vagas de para professores, sobretudo em universidades públicas. Aliás, esta década representa o período de maior força para este último fenômeno.

Tomando em consideração o que foi dito, segundo do professor Francisco Alves, é possível se pensar em ações para a redução dos processos de migração:

1) Proteção a áreas indígenas;
2) Reforma agrária (no Brasil, até então, tivemos poucos avanços efetivos - em verdade o Brasil não efetivou nada além de uma política de inserção a terra, de assentamento, isto é em verdade uma anti-reforma agrária, segundo Francisco Alves). Muitos brasiguaios retornaram ao Brasil no fim dos anos de 1990, com o fortalecimento do movimento do MST (o que indica uma necessária implementação de políticas de reforma agrária no Brasil);
3) Manter elevadas taxas de crescimento e de poder de compra;
4) Políticas públicas que estimulem ou forcem, por cento tempo. a permanência de alunos bolsistas de pós graduação. Isso se faz, para além da implementação de recursos no setor de pesquisas e de desenvolvimento, uma vez que só por esta forma de política fica difícil concorrer com as oportunidades internacionais, já que as melhores ofertas se efetivam por meio de grandes oligopólios do mercado que ficam situados no exterior.

Neste ponto, mais uma vez, percebe-se, por parte dos países desenvolvidos, o ganho desta mais valia (do país de origem do estudante) sem qualquer investimento anterior.



A palavra chave é desenvolvimento

Com os processos de crescimento econômico no Brasil, se torna crucial, entendermos os fenômenos de migração internacional e buscar mecanismos de intervenção sadia (ou seja, o contrário do que os norte-americanos sempre fizeram com os imigrantes). Ou seja, temos que incorporar a noção de projeto de desenvolvimento econômico e social combinados para evitarmos tragédias sociais internas e entre irmãos de outros países. O desafio da década é como desenvolver melhor.


QUANDO NÃO SE PODE RECUSAR A LUTA



Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

(passagem do Hino Nacional Brasileiro)


Dilma na luta contra o Regime Militar
Um dos temas que foram retirados do baú nestes tempos de eleições foi o envolvimento de certos atores políticos na luta armada, em particular a candidata a presidência da República Dilma Rousseff.
A atual candidata já foi militante de grupos de resistência ao regime ditatorial tais como: o Comando de Libertação Nacional (Colina) e da VAR – Palmares.
Neste período diversas organizações com tendências ideológicas e de leituras estratégicas diferentes atuavam, o que de certo modo, impediu uma melhor articulação entre as mesmas.

Os constrangimentos físicos, o risco de vida e a disciplina acabam marcando a vida daqueles que sobreviveram ao período. Dilma é o retrato deste tipo humano que levou para a política e trabalho tais características pessoais de resistência e disciplina.

A história retoma as páginas de jornal em virtude de uma estratégia dos grandes veículos de comunicação, sobretudo os jornais e revistas, que buscam nesta forma de caracterização da pessoa de Dilma, estimular uma repulsa do eleitorado, que segundo pesquisas do comportamento eleitoral, como o ESEB (Estudo do eleitorado brasileiro) de 2002 e 2006 não tem como valor positivo atividades políticas de confronto com a institucionalidade.

Apesar de tudo isso, a referência principal do eleitorado brasileiro para definição eleitoral em 2010, é a articulação entre políticas públicas, estabilidade econômica e social e a associação destas ao governo de Lula. Daí que o ataque a Dilma pode vir a fortalecê-la diante do eleitorado, já que reforçam suas características de resistência e favorecem a referência do mito do herói.

Mas por que pegar em armas?
Entender as razões que levaram um conjunto de militantes de esquerda a encarar a luta armada no período do Regime Militar no Brasil não é só uma decisão que demanda coragem, mas leitura política e opção por um projeto político.
Foi isso que levou alguns a arriscar a própria vida por este ideal.

José Genoino, antigo militante político e atual deputado federal pelo PT/SP, com franqueza absurda, explica o contexto que o levou a pegar em armas e lutar por um outro sistema político no Brasil:

A OPÇÃO PELA LUTA ARMADA


Quando eu optei pela guerrilha, eu não tinha nenhuma dúvida de estar fazendo a coisa certa. Todo mundo, da geração de 68, tinha em relação à luta armada uma opção factível, era uma opção concreta.
Porque a gente sabia que não tinha outro jeito; ou você ia para o exílio ou era preso e torturado. A outra opção era tentar sobreviver na luta armada, que também poderia acabar em tortura e prisão, mas nós não levávamos essa possibilidade muito em consideração.
Como eu era vinculado ao PCdoB e o partido tinha como estratégia a luta camponesa dentro do modelo chinês/vietnamita de exército popular, não cogitei me engajar na luta armada urbana. Minha concepção era preparar o camponês para uma guerra prolongada, e que a gente ia construir grupos guerrilheiros em áreas libertadas para sobreviver ao longo de anos e anos. Até hoje eu tenho os documentos em que o PCdoB cita a estratégia da luta armada por meio da ação popular prolongada. Estes eram o documentos que orientavam os militantes do partido. E eu estava decidido, já que a nossa própria vida nas cidades, em 70, estava muito difícil, apresentava muito risco. A clandestinidade na cidade ia se apertando muito. O risco de prisão era cada vez maior, porque os espaços iam se fechando.

(sobre a desarticulação da esquerda na época)
Hoje vejo que a concepção do PCdoB foi um equívoco. A esquerda se pulverizou muito naquela época, havia várias organizações de esquerda e de luta armada e cada uma tinha sua estratégia, sua tática e seu cenário. Por outro lado, pelas próprias condições da época, na universidade, era muito difícil um debate dentro da esquerda, porque a clandestinidade impedia um debate mais aprofundado, um maior entrosamento, impedia uma troca de opiniões. Era muito difícil haver uma ação coordenada de toda a esquerda. Quando veio o AI-5 aquilo tudo se aprofundou ainda mais, cada grupo foi fazendo a sua estratégia e a idéia é que com a luta sobrevivendo, uma resistência prolongada, a gente ia se reencontrar no processo da própria resistência armada. Essa era a visão que se tinha.

(idealismo missionário)
A imagem que eu tenho na minha memória, corre toda em câmera lenta. Eu entrava numa roda que você não tinha volta e convivia com o risco toda hora. A cada derrota você a gente se imolava mais ainda, porque não ia deixar os companheiros serem liquidados. A idéia de ir para o exílio era repudiada pelo pessoal da luta armada.
Quando eu digo “ir para o exílio” me refiro a ir espontaneamente, não via seqüestro. Era diferente de você ser preso e ser resgatado de seqüestro, de autoridades. E você ia e voltava, tanto que muita gente que foi libertada assim acabou voltando logo depois.

Eu sempre fiquei nesse duelo interno entre a missão e a opção individual, e geralmente na política tem que prevalecer a missão.

Quando eu fui para o Araguaia era uma missão. Eu saí de São Paulo no dia que a Seleção Brasileira ganhou o tricampeonato e chegou para desfilar no Anhangabaú. E eu passei pelo Anhangabaú e fui para o Araguaia.

(vida de isolamento – vida dura)
Vivi na selva por dois anos, inteiramente isolado, eu lia jornal e revista de três em três meses quando chegavam companheiros. Eu me lembro que toda vez que chegava um companheiro, ele trazia as novidades da cidade. Levava revistas, jornais e o “Bondinho”. O Bondinho era a única revista alternativa da época. Uma vez chegou um companheiro lá muito gozador, ele disse “olha, eu trouxe para vocês aqui a última novidade”. Era a “micro saia”, que saiu numa capa da revista Veja. Ele mostrava a imagem e explicava que a minissaia agora era ‘micro saia’. Era esse tipo de coisa que chegava até nós. Além daquela propaganda do “Brasil: ame ou deixe-o”, aquela coisa toda.

Mas a gente era muito bem informada porque tinha rádio.
Ouvíamos as rádios internacionais, BBC de Londres, rádio de Moscou, de Havana, de Pequim, de Tirana. Geralmente ouvíamos as rádios diariamente, pela manhã, ao meio dia e à noite. Havia programação e noticiários em português. A gente tomava conhecimento sobre quem estava morrendo, as torturas, acompanhava tudo lá pela escuta das rádios internacionais. Isso era uma coisa religiosa. Era um horário que todo mundo se reunia no barraco, porque a gente morava em barracos de palha. A gente vivia literalmente como camponês: morando em barraco de palha, trabalhando na roça, caçando, pescando e fazendo comida no barraco.


(trecho A OPÇÃO PELA LUTA ARMADA extraído do livro Entre o sonho e o poder de Denise Paraná, 2006, p. 68 - 70)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

UM VIZINHO CHAMADO PARAGUAI


Nos últimos meses, em virtude da Copa do Mundo de futebol, o Paraguai passou a ser notado, tanto pelo futebol, quanto pela figura da modelo Larissa Riquelme.
O Paraguai, no entanto, goza de uma baixa reputação entre os brasileiros. Os produtos de segunda linha, não regularizados, com formatos de cópia das marcas de referência são tomados pela alcunha pejorativa de “produto paraguaio”.
Essa referência simbólica negativa tem como base a característica econômica do país. Objeto de exploração política, em longa data, por uma ditadura extremamente degenerativa.

A história recente do Paraguai merece, também, nossa atenção. Revela características do país que nos ajudam a entender melhor a América Latina (estruturalmente) e também perceber que devemos ter cautela em relação a generalizações acerca de uma similaridade entre os diversos países do continente. A idéia de uma grande nação latino-americana.

Migração européia – Da guerra do Paraguai a Segunda Guerra
Depois da II Guerra Mundial, o país virou um celeiro de alemães fugidos da derrota, alguns nazistas sobraram nas terras guaranis. As denominadas colônias de Menonitas, ou seja, destes europeus alemães e holandeses, entre outros, refugiados são até hoje uma referência presente no território.
Tal como o Brasil, o Paraguai também soube abrigar muitos povos, isso aconteceu depois da Guerra da Tríplice Aliança (1865 – 1870), a “generosidade” nacional surgiu da necessidade de repovoamento do país e para sua reconstrução. Sobraram somente mulheres, crianças e velhos nativos mestiços (filhos de espanhóis com índios).
Durante aproximadamente 10 anos, após a Guerra do Paraguai, o país foi reordenado pelos “aliados” (Brasil, Argentina e Uruguai).
Depois disso, o Paraguai, tornou-se uma terra de muitas etnias, durante muito tempo, até os 1960 os europeus ainda eram notados em diferentes colônias, comunidades, separados um dos outros.
Os primeiros convidados foram italianos. Depois foram chegando mais espanhóis, dentre outros.

Etnia paraguaia “guarani”
Hoje etnicamente convivem diferentes tipos. Por detrás desta realidade, existe o velho mito nacional de uma grande nação de etnia guarani (poucos ainda conservam característica, a mestiçagem que conserva a forte marca indígena e com mesclas européias). Portanto, guarani nos restou somente como uma forma de afirmação de uma cultura que há muitas décadas tenta descobrir-se novamente.
Os mais pobres falam guarani (aproximadamente 70%). Estes são ora chamados, preconceituosamente, por “índios” ou positivamente por “raça guarani” (uma forma aceita inclusive pelos mais ricos). Falar guarani é sinônimo de pobreza, vida campesina ou indígena, fora do contexto da cidade desenvolvida.

A Guerra do Chaco (1932 – 1935)
O Paraguai foi reconstruído em meio a um caldeirão de revoluções entre colorados e liberais (fundados depois da Guerra do Paraguai).
O colorado é um partido com estatuto, ou seja, discurso, nacionalista e progressistas, com o tempo e com a Ditadura de Strossner, passaram a uma tendência de nacionalismo de direita populista.
Os liberais eram aqueles que queriam que o pais se abrisse a influência do investimento estrangeiro, compostos por indivíduos de condição econômica e/ou ideologia capitalista de mercado.
No Paraguai, ensina-se nas escolas que os bolivianos, como perderam sua saída para o mar, na década de 1870 a 1880 (na Guerra do Pacífico, em que o Chile enfrentou Bolívia e Peru, com vitória dos chilenos que levou a anexação de parte do território boliviano) invadiram a região do Chaco região norte do país, do rio Paraguai para cima. Essa invasão, na verdade já começa nos anos de 1927, mas só se percebeu o avanço bélico depois. A guerra começa quando a invasão chega perto da capital (separada do Chaco pelo rio Paraguai).
Na verdade a questão nacional foi um disfarce para a guerra da disputa de um território, já identificado como rico em Petróleo, e que tinha como interessado, de um lado Standartt Oil (inglesa, sediada na Bolívia) e de outro, Shell Company (americana, sediada no Paraguai).
O Paraguai endividado por anos, desde a guerra do Paraguai, que nunca conseguiu pagar aos Ingleses obteve um acordo de perdão desde que comprasse armamentos (valor correspondente aos custos de mais de duas hidroelétricas de Itaipu).
Muitos acordos foram tentados para evitar a guerra, mediados sempre pela Argentina. Quando explodiu a guerra, em 1932, o confronto se estabeleceu. Pelo lado do Paraguai muitos soldados foram campesinos, tal como os bolivianos (comandados estes por um general russo, que não conheciam os campo) contra pobres soldados descalços com machados na mão. Os bolivianos estavam muito mais preparados para guerra.
Entre aspas quem vence a guerra é o Paraguai por que expulsa os invasores. O resultado é de 33 mil paraguaios mortos e mais de 60 mil bolivianos. O que fez diferença na guerra, foi a comunicação de rádio ocorresse em guarani, isto levou a uma dificuldade, não esperada pelos bolivianos. Nisso surge novamente o mito nacional da raça guarani, filhos de Lopes, que nunca mais deixariam de existir, junto a uma mescla de espanhol com dialeto guarani. Leva a uma aproximação da classe média e ricos da língua guarani.
O resultado disso é a constituição de um quadro de pobreza absoluto nos dois territórios acentuado pelos regimes militares posteriores.

A ditadura (todo mundo teve uma...)
Depois da guerra do Chaco a instabilidade política leva a muitas deposições de presidentes e intervenções de militares (influenciados por ideais facistas). A ditadura não é comentada nas escolas paraguaias. Em verdade um pacto da burguesia com os militares se manteve diante de um pacto mesclado de hegemonia colorada. Mas o fator econômico permitia a conservação de uma visão política também conservadora como oposição ideológica.
Em verdade o Paraguai até hoje não possui um forte partido de esquerda, mas ainda vive sobre a vigência da luta política entre liberais e colorados. Essa característica se efetivou em virtude da forte resistência que se efetivou no país através da forte divisão social e também pelo embargo político caracterizado por décadas de regime ditatorial encabeçado pelos colorados, tendo como líder o general Stroessner.
O ditador que governou o Paraguai por 35 anos passou seus últimos dias de vida na cidade de Brasília.
Alfredo Stroessner Matiauda nasceu em Encarnación em 1912. Filho de imigrante alemão e uma camponesa paraguaia Stroessner ingressou no exército paraguaio aos 17 anos. Participou da Guerra do Chaco, recebendo medalhas de honra e subindo postos no exército. Em 1948 ele era o general mais jovem da América do Sul. Stroessner tinha apenas 36 anos.
Em 1951 se filiou ao Partido Colorado, partido que sustentaria a sua ditadura. Stroessner se destacou no exército paraguaio pela sua postura incansável e rígida. Ele se tornou comandante do exército paraguaio e em 1954 general-de-divisão. No mesmo ano encabeçou um golpe militar que retirou do poder o presidente Federico Chávez. Em agosto foi eleito presidente pela Junta de Governo.
O regime de Stroessner foi sangrento e totalitário. Estima-se em quatro mil os desaparecidos políticos.
Em 1967 foi promulgada uma nova constituição, que permitia a reeleição imediata do presidente.
Stroessner era conhecido por proteger refugiados nazistas da segunda guerra, dada sua origem alemã, foi ele o responsável pelo visto aos ex-nazistas que procuravam asilo no país, como Josef Mengele.
É verdade que quando Stroessner chegou ao governo encontrou uma grave crise econômica. Saneou a economia, teve ajuda dos EUA e o país teve o seu milagre econômico. O Paraguai chegou a crescer 11% do PIB no final dos anos 1970. Fez acordos de integração com a Argentina, Brasil e Uruguai e em seu governo foi construída a Represa de Itaipu. Construiu cidades, pontes, escolas e cidades, como Puerto Flor de Lis em 1957, renomeada como Puerto Presidente Stroessner e após a sua queda renomeada como Ciudad del Este. Em todas as obras fazia questão de colocar seu nome. Em todo o país era visto o lema "Paz, trabalho e bem-estar".
No dia 3 de fevereiro de 1989 Stroessner caiu da mesma maneira que chegou ao poder: um golpe de Estado. Desta vez liderado pelo general Andrés Rodríguez, que ficou no poder até 1993. Stroessner tornou-se prisioneiro por alguns dias e foi enviado para o exílio em Brasília.

O contexto atual
A ditadura militar no Paraguai gerou a conservação do pacto entre elites econômicas e o poder político, o que levou a uma repressão absoluta dos movimentos populares e de esquerda.
É por isso que o atual presidente da República do Paraguai, Sr Fernando Lugo, associado ao Partido Democrata Cristão - uma sigla partidária de pouca representatividade, acabou compondo junto ao partido liberal uma frente para viabilizar sua candidatura.
Esse esforço permitiu que se desse a vitória eleitoral de um líder popular de esquerda, contra as candidaturas de Blanca Ovelar, do Partido Colorado, e o general Lino Oviedo.
Mas, ainda hoje, as elites políticas dominadas por colorados e pelos liberais, pouco fiéis, leva a um estado de isolamento de Lugo que limita sua ação política interna e no plano internacional. Esse esforço absurdo de ação da esquerda paraguaia é resultado da configuração política de um país em que se estabeleceu um conflito entre elites dominantes pela disputa do poder, mas não um efetivo confronto entre as classes operárias e campesinas ante as elites econômicas e políticas.
O desafio para a esquerda no Paraguai é constituir bases sólidas que permitam a continuidade do projeto do governo Lugo. No entanto, neste país a reeleição presidencial foi abolida, o que limita esta difícil tarefa, posto que o país ainda carece de figuras de representação fora do eixo colorado-liberal que possa se constituir numa alternativa.
Ademais, a maioria no congresso nacional, ainda, é composta por membros do velho regime. O Paraguai vive um contexto tênue entre a continuidade de um projeto progressista ou o risco de um retorno a estagnação política.
Vamos prestar maior atenção a este vizinho latino-americano, para entender processos de articulação de esquerda que estão sendo efetivados a partir de lutas pactuadas em foros internacionais tais como o Foro de São Paulo.

Texto escrito por quatro mãos junto a Leo Villar.