sexta-feira, 6 de agosto de 2010

UMA GUERRA SILENCIOSA - UM DEBATE DE TELEVISÃO


Três pontos no ibope, feito a internet (na cobertura política), algo que nem todo mundo vê, mas pode depois influenciar opiniões. Este foi o resultado do debate de ontem a noite, protagonizado pela Rede Bandeirantes.

Confete para si mesmo: hiper-realidade egóica
Durante duas semanas, esta e a anterior, a Rede Bandeirantes produziu encontros para comentar o que seria este debate, enquanto fator de influência do eleitorado.
Tomando como referência debates anteriores, apontavam os debates como determinante da decisão eleitoral. Ora justificavam que o que mais pesava era o momento de enfrentamento de candidatos (cara a cara), ora diziam que fatores comportamentais dos candidatos é que contavam na decisão eleitoral (se for agressivo, perde! - foi o que disse Demétrio Magnoli em uma dessas ocasiões, no programa Canal Livre).

O que os comentaristas propagandistas do evento não contavam era com uma questão básica: “quando dois não querem, não tem conversa”. O debate de ontem provou mais uma vez o poder reduzido do impacto da televisão na decisão eleitoral, neste momento. Ontem, o próprio Noblat, em seu twitter ironizava a questão, indagando minutos antes do debate, se assistiria o mesmo ou a jogo entre São Paulo e Internacional, na Libertadores.
Ninguém viu o debate, a não ser o eleitor mais envolvido com o jogo eleitoral, eleitor este que já decidiu o seu voto. E mais, cá para nós, este fator, não será decisivo para a tomada da decisão eleitoral para a Presidência da República (será um dos fatores, mas outros já pesam mais, e por serem fatores consolidados em longo e médio prazo, tem contribuido para que o eleitorado decida antecipadamente por Dilma, ou melhor, pelo projeto de governo petista).

Os personagens do Debate
Quatro figuras, além do apresentador se fizeram presentes. No plano da oralidade, todos tinham dificuldades de se fazerem entendidos, claramente:
1. O primeiro deles, Plínio de Arruda Sampaio, candidato pelo PSOL, foi irônico e engraçado nas suas colocações (e talvez com o discurso mais fácil de se entender – o que não significa que dispunha de um discurso que pudesse gerar convencimento).

Uma das características da fala de Plínio era a da generalização esquerdista de que tudo se resolve por meio de uma radicalização política (o meio ambiente, a condição agrária, o salário mínimo, a economia interna e externa), mas no debate ficou claro que sua postura era a da generalização do socialismo, que na sua fala deixava de ser postura político-científica para se fazer como um slogan retórico.
Sua postura, nesse caso, é digna de crítica, por que parece gerar um desserviço a difusão da proposta socialista. Não é verdade que o genérico socialismo gera melhoria do meio ambiente, que vai melhorar de vez a questão salarial, etc. Nenhum projeto político pode desprezar as especificidades de cada questão a ser encarada: questão salarial, economia interna, segurança, etc, podem até ter liames, mas os seus problemas devem ser enfrentados com especificidade e tomando o todo como aspecto relacionado a esta especificidade. Foi assim que Marx criticou os teóricos burgueses da economia política. O que Plínio não efetivou na sua fala.
Falando em generalizações, Plínio se colocou como representante dos movimentos sociais. Bem, quem conhece este universo, sabe bem que ele é muito eclético e difuso. E que Plínio não poderia se colocar desta forma. Na verdade Plínio se apresentou como um revolucionário de direita (ou a serviço dela).

2. Por falar em generalizações, vejamos Marina. No plano do discurso, para manter a tradição do PV, apresentou falas sobre sistematizações, projetos (com cara de novo, mas que nas explicações, nada mais eram do que o denominado Sistema S: Sesi, Senai, Sesc, etc). Contradições entre posturas humanistas moralistas e um suposto arrojo que não apresentava nada diferente do que já se vê praticado pelo governo federal. Plínio mesmo, resolveu a questão acerca da candidata: “o seu problema, é que você não sabe pedir demissão”.
Marina insistiu em defender que defender o meio ambiente é também fazer políticas de expansão social, sem explicar, na prática, como se resolve o problema do desenvolvimento sem gerar desgaste ambiental. Essa questão no plano prático, não é fácil de se resolver. E Marina não se apresentou com propostas claras para fazer esta equalização.

3. Agora falemos de Serra, o candidato tarimbado por diversas campanhas eleitorais não foi mal, mas também não foi bem. A fala de Serra não foi ruim e só tem validade na comparação com a de Dilma.

A candidata petista se mostrou nervosa e gaguejou em grande parte de suas falas. O que não é surpreendente, vez que se tratava do seu primeiro debate.

Serra defendeu uma fala em que não citou o nome de Lula e buscou se apresentar como o mais preparado, e equilibrado. Quase conseguiu ... mas não deu. A razão se deve a dois detalhes: (a)Serra não tem projeto para o país; (b) e tenta sustentar em sua fala uma continuidade que não é a continuidade do projeto de governo petista, e ao mesmo tempo que seria a continuidade de processos governamentais desde Sarney, sendo que o governo Lula seria uma natural continuidade disso tudo. Ufa!!! Confuso, ademais, a maior parte do eleitorado não pensa isso.
Serra estava nervoso, pasmen! Não se espera isto de um político tão experiente. O seu olhar visivelmente cansado e avermelhado traduziam uma figura que tentava ser leve, mas que aparentava apatia e um ar de doença. Essa estranha aparência fez do seu discurso final, uma tentativa de emocionar, e de quase lacrimejar, fracassada (no plano da expressão) pela incapacidade de tirar dos olhos alguma gota.

4. Falando em lacrimejar, vamos a Dilma. Um fato que não pode ser negado é o visível nervosismo da candidata petista. Esse nervosismo estava associado a sua necessidade de aparentar leveza. A tentativa de parecer uma “boa moça” e de não ser agressiva. Por isso gaguejou muito em suas falas. O que não quer dizer que foram falas ruins no seu conteúdo, mas que tinham problemas de clareza.

Dilma por vezes falava de números, mas não explicava claramente a relação destes com o fenômeno que discutia. O eleitor mais interado entendeu, mas um eleitor fora destes padrões estranharia muito. Um ponto foi positivo, Dilma defendeu o projeto petista, o que é salutar. Foi específica na abordagem dos problemas, sem as generalizações apontadas anteriormente. Por vezes específica até demais. No entanto, apesar do seu nervosismo, um fenômeno importante deve ser notado:
A imprensa, hoje, não falou do nervosismo de Dilma! Por que?

Os defensores da candidatura de Plínio, ou o próprio Plínio não titubeariam em afirmar que estaríamos diante de uma imprensa “chapa branca”. Esta análise, aparentemente acertada, tal como o discurso de Plínio, seria superficial diante de um jogo tão sofisticado, que é travado no espaço da cobertura de imprensa.
A imprensa não se referiu ao nervosismo de Dilma, por que o seu nervosismo foi notado, ou poderia ser notado, por parte do eleitorado como um sintoma natural de uma pessoa que estava extremamente pressionada. Se a imprensa atacasse Dilma, desta forma, poderia alimentar uma situação de vitimização da candidata e reforçar o processo, que já sustenta, de claro enviesamento contrário a sua candidatura.

O leitor poderia então indagar:
4.1. O eleitorado não confundiria tanto as coisas!! A resposta para esta questão, principalmente dos analistas que defendem a candidatura de Serra, como Lavareda ou Demétrio Magnoli, é que o inconsciente opera na construção do entendimento do eleitor. E neste caso o risco era muito grande;
4.2. Não se pode afirmar que há enviesamento contra Dilma!! Para responder esta questão, um exemplo é emblemático: ontem após a publicação da entrevista Sensus, em que Dilma foi apontada com vantagem de 10% em relação a Serra, a Folhaonline, deu como chamada a seguinte notícia: Serra continua em primeiro no Sul. Sem comentários ...

Assim, no fim das contas, vamos esperar o horário eleitoral, e os próximos debates. Até lá, Dilma estará mais tarimbada, e se apresentará menos nervosa. Acredito que o debate que poderá produzir algum efeito eleitoral, mas não na maioria do eleitorado, será somente o último, a ser realizado pela Rede Globo. Aguardemos.

Um comentário:

  1. Estou preocupado com esse debate da Globo. Lembremos das eleições de 1989!!!!

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