quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CARTA AOS PETISTAS

Charge do cartunista Paulo Caruso produzida no programa Roda Viva da TV Cultura no dia 4 de julho de 2005,
José Genoino está encaminhando a carta abaixo para a militância petista. Para o deputado a campanha eleitoral permite a discussão de temas de relevãncia partidária e do projeto político a ser implementado pelo futuro governo. É por isso que com franqueza absurda Genoino se dirige aos petistas e trata de todos os temas pelos quais ele e o PT acabam sendo alvo seja da mídia, seja do discurso conservador. Sem pactuar com estas forças políticas a carta a seguir serve como instrumento para entendimento do processo atual que o Brasil tem passado. Boa leitura:


Companheiras e companheiros

Como vocês já devem estar sabendo, nestas eleições volto a disputar uma vaga na Câmara de Deputados. E gostaria de, mais uma vez, estabelecer um diálogo especial com todos os filiados do PT. Já disse, na carta que escrevi a vocês em 2006, que, para mim, a militância política só se justifica se for “em razão de um projeto coletivo, de uma missão, de um sonho, de uma causa”. E é dessa forma que quero começar esta conversa, quatro anos depois – período no qual exerci meu sexto mandato de deputado federal, e o Brasil se transformou, sob o comando de Lula.

Nesses últimos quatro anos exerci pela primeira vez um mandato como deputado da base de sustentação do governo. Nessa nova fase, pude resgatar a minha pauta política, interrompida em 2002 quando fui candidato ao Governo de São Paulo e requalificar minha militância com o aprendizado destas novas tarefas e com a defesa das conquistas do nosso governo.

Na campanha para governador percorri o estado todo e conheci profundamente as riquezas e as mazelas de São Paulo. A presidência nacional do PT propiciou meu contato com as diversas forças do partido, com a grandeza e com os problemas da sua militância. E, acima de tudo, o fato de conduzir o PT nos primeiros anos de governo me colocou no centro da construção do nosso projeto político. A crise de 2005 revelou o quanto subestimamos a radicalidade da disputa política e me impôs uma reflexão sobre os nossos erros e limitações.

De certa forma, esses acontecimentos todos remetem à minha experiência e fazem parte da história da minha militância. A radicalidade da disputa política e ideológica no Brasil eu já tinha presenciado na guerrilha, como preso político e na construção do PT. Ver o enfrentamento e a negociação como necessidade para a construção de saídas políticas e entendê-los não como imposição, mas como condição para a realização da democracia, eu já havia aprendido no convívio com Ulysses Guimarães, Lula, Plínio de Arruda Sampaio, Mario Covas e outros, durante a Constituinte de 1988.

Entretanto, assim como a ação impiedosa da mídia na crise de 2005 me remeteu às lembranças tenebrosas da tortura sofrida nos porões da ditadura militar, não tenho dúvida da semelhança entre a solidariedade recebida de diversos companheiros e companheiras e aquela que havia entre os que lutavam contra a ditadura e entre os presos políticos.

As visitas à minha casa, o carinho explícito de companheiros do governo, o convite do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para ministrar um curso de formação política, a ajuda inestimável de dirigentes petistas na campanha de 2006 – alguns deles inclusive candidatos iguais a mim – e a forma destemida como a militância defendeu o PT foram atitudes que tiveram o mesmo valor da do soldado que, mesmo me vigiando na prisão, secretamente me deu água após uma sessão de pau-de-arara. Ou da dos estudantes em 1968, delegados como eu, do Congresso da UNE de Ibiúna recém derrubado, que cantavam “A UNE somos nós, nossa força e nossa voz” diante do ônibus que levaria nossos dirigentes para a cadeia. Não tenho dúvidas de que sem essas manifestações eu não teria tido como superar aquelas dificuldades e voltar a enfrentar o desafio de ser, novamente, deputado federal.

Na Carta aos Petistas que escrevi quatro anos atrás esclareci a minha participação e a minha visão sobre a crise que vivemos em 2005 e a qual a mídia, na tentativa de amedrontar o PT, apelidou de “mensalão”.

Na ocasião, apontei que nos descuidamos da defesa de algumas bandeiras históricas do PT e da disputa política autônoma em relação à esfera institucional. Isso nos levou, por exemplo, a não ter assumido a defesa da Reforma Política já no início do governo.

Embora tivéssemos a compreensão de que para reformar o País era necessário, também, reformar a política, não resistimos à pressão institucional. E, ao menosprezar esta tarefa, contribuimos, também, para o fracasso da tentativa de mudar as regras do financiamento da política, o que abriu caminho para o PT cometer o mesmo erro dos outros partidos: não registrar parte dos recursos destinados à campanha de 2004.

Além disso, em 2006, afirmei que os dois empréstimos que assinei foram rigorosamente legais. Fizeram parte da prestação de contas do PT dos anos de 2004, 2005 e 2006, e foram renegociados judicialmente.

Em relação ao episódio do “dólar na cueca” não há nada que me ligue a ele. Nem sou citado no processo. O fato de o envolvido ser, na época, assessor de um irmão meu (que, inclusive, já foi inocentado pela justiça) foi explorado de forma maldosa e oportunista para aumentar o cerco contra o PT.

Pois, tudo era usado para atingir o Governo Lula. E, para isso, valia tudo, até criminalizar as tarefas da presidência nacional do partido para, num passo seguinte, acusar o próprio PT de agir fora da lei e transformar todo petista num criminoso.

Em 2006 fui para as ruas pedir voto munido das mesmas convicções que me levaram a ser candidato ao governo e, depois, a assumir a presidência do PT: a certeza de que o PT é a melhor possibilidade para a construção de um projeto político transformador; a crença de que o governo Lula é o resultado vitorioso das lutas da minha geração e dos 30 anos de construção do PT e a convicção de que os ideais e valores da esquerda e do socialismo sobreviveram ao desastre ideológico neoliberal.

E foi esse tripé a base sobre a qual construí e sustentei o cotidiano do meu sexto mandato como deputado federal. Não há uma ação, um discurso, um debate, uma entrevista, um texto sequer que não tenha tido como ponto central a defesa incondicional do governo Lula, do PT e dos valores da esquerda.

A defesa irrestrita dos programas e das políticas públicas do governo Lula sempre esteve – e está – vinculada à intenção de afirmar o conteúdo democrático e de conquistas de direitos do nosso projeto estratégico de transformação social e política do Brasil. Os índices recordes de aprovação e todos os demais números que indicam o avanço conquistado nas mais diversas áreas apenas ilustram o caráter dessa revolução silenciosa pela cidadania empreendida pelo nosso governo.

Para além de cifras e taxas, o governo do PT ficará na história como aquele que inseriu o Brasil no mundo, abrindo o caminho para o País encontrar a justiça social e o desenvolvimento econômico para todos. A veemência e determinação com que defendi as medidas para enfrentar a crise internacional 2008/2009, os projetos que envolvem a exploração no pré-sal e a política externa do governo Lula têm a ver com a convicção de que o Brasil é um diferencial e uma alternativa para um mundo que busca a paz, a pluralidade e a democracia.

Portanto, em minha opinião, o que está em jogo nas eleições de 2010 não é apenas a continuidade de um governo cujos resultados são positivos e que detém índices recordes de aprovação. É muito mais que isso! É a chance de continuar viabilizando um País justo, desenvolvido, democrático e soberano. A vitória do PT e de seus aliados consolidará o projeto nacional, democrático e popular alicerçado pelo governo Lula, e colocará o Brasil numa perspectiva real de conquista de amplos direitos para seu povo, da consolidação de um novo modelo de gestão do crescimento econômico voltada para a inclusão social e de um protagonismo inédito nas disputas internacionais, que impõe uma nova ordem mundial multilateral.

E, no meu entender, nossa vitória é a conjunção de três fatores: vitória da Dilma, a eleição de uma forte bancada federal no Congresso Nacional e a conquista de governos estaduais.

Porque, assim como tentaram interditar o governo Lula, uma terceira derrota na certa colocará a direita brasileira numa situação ainda mais crítica, o que radicalizará mais a disputa política e poderá levar setores da oposição ao vale-tudo. Ganhando, Dilma precisará de uma força política que sustente seu programa de continuidade com avanços. E essa força será fornecida por um grupo coeso de governadores do PT e dos partidos aliados e por uma bancada forte e unida em torno desse projeto.

É por tudo isso, que me coloco novamente a disposição do PT como militante e quero fazer da minha candidatura a deputado federal o meio de selar meu compromisso com o futuro do Brasil e com a consolidação do nosso projeto. Concluí a “Carta aos Petistas” afirmando que acreditava estar mais calejado e experiente. Hoje posso dizer que, também, estou mais afiado! Vamos à batalha!

Abraços,

José Genoino




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