quinta-feira, 15 de julho de 2010

PENSAMENTO, CORAÇÃO E MÃOS – CONSTRUINDO UM PAÍS (PARTE I)


O pensamento do instante
Tem momentos na trajetória de um ser humano em que os atos mais imediatos, instantâneos, são percebidos como uma verdade. Não é por acaso que quando alguém nos julga negativamente em razão de algum fato, corremos o risco de que este acontecimento, e nada mais que fizermos, ser considerado pelas pessoas. Um pensamento deste tipo toma um pequeno fator: fato, ato, notícia ou boato, como meio de generalização de uma realidade. Gera um tipo de julgamento que corre o risco de produzir injustiças ou análises de pouca precisão. É também a base estrutural de preconceitos.
Os meios de comunicação, muitas vezes, dada a necessidade de produzir efeitos de atração com seu público, acabam por traduzir suas mensagens por formas sensacionalistas e tomando um fato de maior apelo como a explicação de processos complexos. A política nacional é constantemente avaliada desta forma. Isso acaba por estimular formas pouco aprofundadas de entendimento da realidade política.

Prestando a atenção!
Porém, de outra parte, podemos tomar um juízo a partir de diferentes fatores para entender uma trajetória ou situação.
O exemplo claro de como uma longa referência de acontecimentos forja um importante juízo é o da relação familiar. Os parentes próximos acabam nos marcando por meio de um longo relacionamento estabelecido. E mesmo ocorrendo conflitos e discussões, quando somos obrigados a nos afastar, acabamos percebendo quanto é importante e marcante esta relação solidificada pelo tempo e por ações de amparo coletivo e afetivo.
A sociedade também se faz assim, por referências imediatas, pouco refletidas, ou pelo contato com sólidas relações. Há momentos em que não podemos pensar muito para agir, e isso é natural, contudo, mesmo nestas situações, um mínimo “pé atrás” nos garante a vantagem de uma melhor direção.

O instante do voto, o momento da atenção!
Um cenário rico para uma cuidadosa análise é o presente contexto eleitoral.
O Adicional Contradicción tem insistido desde o ano passado em algumas impressões acerca do eleitorado brasileiro, uma delas dizia respeito ao fenômeno que se constataria depois de um longo tempo, o crescimento das intenções de voto em favor da candidata Dilma e sua tendência de vitória na disputa pela Presidência da República.
Esta aposta que era uma dúvida para muitos, mesmo para amigos do Adicional, agora toma a materialidade que se constata nos últimos resultados de pesquisa eleitoral.
Ela foi possível baseada em pressupostos que estão sendo incorporados à cabeça da maior parte do eleitorado brasileiro e tem relação direta com novos processos políticos que foram estabelecidos através da atual gestão de governo efetivada pelo Executivo Federal.
O governo Lula, no entanto, nem sempre foi objeto de apoio tão sedimentado na sociedade brasileira, como percebemos nos últimos anos. Este processo foi se expandindo à medida que as políticas públicas de Lula e sua engenharia de gestão público-institucional foram sendo estabelecidas e materializando resultados.
Os mais significativos como sabemos, estão relacionados ao modelo econômico brasileiro que incorpora ações de estabilização econômica e processos de desenvolvimento social. Mas este processo, mesmo no vitorioso governo de Lula foi fruto da articulação de planejamento e do amadurecimento do governo e de sua base de apoio político.

O projeto que indicava o futuro
Alguns políticos têm a capacidade de antecipar fenômenos posteriores do cenário nacional. Esta capacidade é decorrente de sua formação política e sua experiência nos espaços de decisão do poder.
Um desses personagens, central na construção do Partido dos Trabalhadores e na defesa total do projeto de Brasil pregado pelo PT, é José Genoíno.
No período pré-eleitoral de 2006, Genoíno apontava os rumos daquilo que seria notado depois como a consolidação do melhor governo da história brasileira. O que justifica a sua continuidade processual no governo Dilma:
“Falta disputar na questão da economia uma visão estratégica do tipo: Qual é o país que queremos? Qual é o modelo de inserção do Brasil no mundo? Qual é o modelo de Estado? Qual é o papel da ciência e da tecnologia?” Quer dizer, não adianta só discutir o superávit; há também que se discutirem idéias e projetos de futuro. O governo Lula interrompeu a agenda neoliberal, avançou nos programas sociais, na geração de empregos, na recuperação de instituições estatais e públicas, construiu uma política externa democrática e interdependente, impediu que se instalasse uma crise econômica controlando a inflação e resgatando alguns instrumentos de política de crescimento e diminuição da miséria” (p. 163).
Genoíno demostrava já a constituição de mecanismos de gestão econômica e de desenvolvimento que tinham em mira o enfrentamento de situações de instabilidade, o que se demonstrou eficiente depois do período de crise econômica internacional nos anos de 2008 em diante.
Isso por que, Genoíno mirava um país em processo de extrema modernização, autonomia e com competência para enfrentar grandes crises políticas e econômicas. Naquele instante, poderia parecer utópico, mas a materialidade daquele processo se estabelecia já, na mente daqueles que compunham a cabeça do projeto denominado: Governo Lula.
Para muitos que viam de fora a construção do governo Lula, não poderiam supor que Genoíno não estava simplesmente propondo generalizações, mas os nortes acerca de um projeto com pé na realidade nacional:
“No desenho que o PT fez da trajetória que o novo governo assumiria, os dois primeiros anos seriam de grandes dificuldades. No primeiro ano arrumaríamos a casa e no segundo daríamos início ao crescimento econômico. Em 2004, considerando a nossa forte vitória eleitoral, teríamos uma nova correlação de forças políticas que, por sua vez, permitiriam que o governo desviasse um pouquinho mais à esquerda a sua atuação. E na disputa de 2006 viríamos com um projeto mais claramente petista. Essa era a visão do processo político e foi resultado de deliberação do Diretório Nacional do partido. Por isso que as eleições de 2004 foram tão estratégicas para nós” (p. 169 – 170).

O protagonismo do Partido dos Trabalhadores
José Genoíno, desde o período do primeiro mandato, percebeu a necessidade de aperfeiçoamento que produziu uma guinada da gestão pública do governo federal: “Nós também devíamos ter trabalhado em paralelo com dois conceitos: governabilidade política e governabilidade social. Mesmo considerando o tamanho do superávit, os juros altos, o acordo com o FMI, o salário mínimo, que eram necessidades imperativas naquela conjuntura, nós tínhamos que ter tido mais ousadia para fazer sinalizações que dialogassem com a idéia da esperança e da mudança, e o partido poderia fazer tais sinalizações”.
Mais tarde se perceberia no Brasil, a sedimentação de uma ampla arena de ação política junto ao governo federal, estabelecida por meio das diversas conferências e conselhos regionais e nacionais entorno de temas definidores de políticas de governo. Esta ação reativou a esfera pública e política nacional para além dos antigos formadores de opinião e da influência dos meios de comunicação.
E Genoíno aponta em seguida o norte que seria tomado pelo governo de forma mais definitiva e se tornaria marca distintiva do primeiro para o segundo mandato: “Temos que avançar no programa, na agenda democrática, na agenda dos valores, na agenda social, fazer sinalizações na gestão econômica com um projeto de país do futuro” (p. 163)

Forças políticas antagônicas
O governo Lula foi durante todo o seu transcurso muito atacado pela imprensa nacional. Genoíno como figura que sempre defendeu este projeto, também, foi fortemente atacado e perdeu espaço dentro da imprensa. No momento mais agudo que sofreu, Genoíno teve a coragem de indicar através dos fatos que vivenciava no presente uma crítica ao governo que indicaria uma mudança já planejada para o segundo mandato de Lula: “Faltou também ao governo maior ousadia em tratar de temas importantes como o dos mortos e desaparecidos durante o regime militar, que era quase que um compromisso histórico do novo governo. No entanto, adotou-se uma postura recuada e defensiva”.
A marca de distinção do governo Lula em relação aos anteriores se demonstra na fala de Genoíno no contexto de 2006: “A partir do momento em que ficava claro haver limitações no campo econômico, era ainda mais essencial buscar atuar nas áreas em que essas limitações não foram tão impeditivas: o campo da política, da agenda democrática e dos programas sociais”.
O governo Lula corresponde a diretrizes que remontam desde a origem do Partido dos Trabalhadores, mas também, sua capacidade de avaliar a realidade social e política conforme as mudanças da realidade vão ocorrendo.
Isto demonstra a capacidade do PT em compor uma construção de projeto para o Brasil e de adaptação nas suas ações conforme os fatos políticos e sociais apontam mudanças. Essa capacidade de compor num país que se transforma um projeto de desenvolvimento sólido permite que o PT traduza suas ações políticas em uma forma de governar o Brasil através de resultados sociais e políticos sustentáveis.

Adesão popular ao PT
É nesse contexto que antes do período eleitoral de 2006, Genoíno anunciava um fenômeno que naquele momento não era prognosticado pelos adversários do governo Lula, a adesão popular na reeleição ao projeto petista, mesmo contra a tendência de ataques da mídia:
“Por isso acho que essas previsões catastróficas sobre o futuro do PT vão ser todas derrotadas, porque elas já tiveram esse grau de virulência no passado. E é preciso que se leve em conta a História do Brasil, e ela é processual, como já disse. Essas análises desconsideram a base social, desconsideram a história política do país, que vai formando experiências e partidos de maneira processual. São análises que primam por considerar a parte e não o todo. É como se “enxergassem a árvore, mas não a floresta”. Ao analisar o erro, é necessário analisar também o contraditório, o que há de positivo” (p. 185)
E continua esclarecendo: “Um partido político é muito semelhante a um ser humano: ele tem infância, adolescência, maturidade, envelhece um pouco, rejuvenesce. É um processo contraditório, dialético. Essa visão que alguns analistas têm é uma visão factual, conjuntural. Elas decretam sentenças com um grau de superficialidade e de simplismo do mesmo tamanho de suas análises. Elas transformam suas vontades íntimas e pessoais em supostas análises. Esse é o seu maior erro” (p. 185).
Em 2006 dois fenômenos se fizeram notar: a vitória de Lula, mesmo contra o discurso contrário das mídias e a expansão das políticas públicas do governo Lula, depois do processo de estabilização econômica que não havia se tornado algo definitivo no governo FHC.
Essa combinação de ingredientes fez com que o número de simpatizantes ao partido e que preferiam o PT aos demais aumentasse substancialmente e atingisse os maiores índices de aprovação para um partido brasileiro. Lula também ampliou sua aprovação popular. O que antes foi percebido mais entre as classes populares, foi ampliado para outros estratos sociais.
Portanto, é necessário perceber-se no atual momento eleitoral que tanto a estabilidade econômica, o dinamismo do desenvolvimento sócio-econômico no Brasil, o fortalecimento de uma esfera pública com atores sociais anteriormente excluídos, as políticas públicas do governo Lula, todos estes fenômenos são resultado de uma visão de governo defendida pelo PT e que constituem um projeto sólido e vencedor até o presente momento histórico.

Bibliografia: PARANÁ, Denise. Entre o sonho e o poder. Geração Editorial. 2006.

Um comentário:

  1. Luiz, o sr se considera socialista?
    é triste ver um jovem tão abraçado ao pragmatismo

    a propósito, ler:
    Solidariedade para com as vítimas do ''novo'' PT
    http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=33556

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