sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

LULA, O FILME - INÁCIO ARAÚJO COMENTA

Ao contrário do que dizem, com uma bonita camisa.


Já que a mídia, mal o sujeito faz alguma coisa, desce a lenha, deixo aqui um texto sincero (agora que passou o rebuliço) que diz o que alguém pensa, sem segundas intenções.



Lula, o filme

“Lula, o Filho do Brasil” pode não ser um filme que vai entusiasmar os cinéfilos, nem tem muito por quê.

Cumpre as convenções que tem de cumprir um filme acadêmico, um filme feito para o sucesso. Ponto.

Mas é um produto complexo, desses de que se poderá falar por anos. Se der certo, em especial.

Há muitos aspectos a destrinchar. Vou apenas nomeá-los. Depois, conversa-se a respeito.

1) A mãe. O presidente tem razão: não é um filme sobre ele, é sobre a mãe dele.
Ou antes, é um filme sobre “a mãe”, a maternidade, os milhões de mães pobres que criam os filhos depois que os maridos ou parceiros desaparecem do mapa sem dar explicação. O filme investe sobre isso. Faz do pai um vilão que, lendo o livro, não percebi muito bem. O fator de identificação com as mulheres é muito forte.

2) O filho. É um sobrevivente. O brasileiro é um sobrevivente (sempre que sobrevive, claro). Fator de identificação com os homens.

3) Um homem pobre, não muito alfabetizado, chega à presidência da República. É o triunfo do “homem qualquer” (não no mau sentido, claro). É o fulano com quem qualquer pessoa pode se identificar e que triunfa, chega à presidência.

4) É um filme do culto da personalidade? Se eu fosse presidente nunca deixaria ninguém fazer um filme sobre a minha vida eu estando na presidência.
Me parece imprudente. Pode-se cair no ridículo ou no culto da personalidade. Talvez por isso minhas chances de chegar à presidência, ou mesmo à vereança, sejam praticamente nulas. Agora, também não dá para engolir essa de “pensamento único”, como se houvesse uma ditadura lulista em andamento. Não é isso. O presidente consentiu no filme, me parece, como outros consentem em que se escreva um livro sobre eles. Acho que é sensibilidade. Não acredito em cálculo político.

5) Será uma peça de campanha? Me parece que não, a menos que os publicitários decidam trabalhar a imagem de Dilma Rousseff como a mãe protetora do Brasil. Se isso acontecer, o filme pode entrar na roda. Caso contrário, acho que está perfeitamente isolado: é a história de uma mãe.

6) Qual a semelhança com “2 Filhos de Francisco”? Bem, há dois tutores fortes, no primeiro caso, um pai. No segundo, a mãe. Mas Francisco tem um quê de novo rico (digo isso: no filme, tal como é representado, não quer dizer que ele seja isso): seu horizonte é o êxito, a fama como maneira dos filhos saírem da pobreza. (Acho que isso não é verdade, na vida real: se não fossem sucesso, os filhos de Francisco seriam bons cidadãos, então tenho a impressão de que ele fez mais do que o filme diz). Já a mãe de Lula cria os filhos, um bando, porque cria, para que sobrevivam. Ela não visa o sucesso. Nisso, acho que identificação de “2 Fihos” é com os “vencedores”, os que são ricos ou acham que ser é indispensável. A identificação que “Lula” propõe é de outra natureza: somos brasileiros, nordestinos sobretudo, que lutam para sobreviver, para quem sobreviver é o heroísmo (ei, isso é quase Samuel Fuller).

7) “2 Filhos” não tem história. É filho do country. É recente. É novo-rico no sentido cinematográfico também. “Lula”, ao contrário, descende de “Vidas Secas”. Não acredito que o cachorro largado ali esteja por acaso. Em “Vidas Secas”, Baleia vinha junto. Aqui, o cachorro fica. É uma perda a mais. Mas “Vidas Secas” abria um ciclo no cinema novo, na vida de Luiz Carlos Barreto.

“Lula” encerra. Pode-se pensar que o Brasil melhorou nesses 45 anos. Me parece que sim, aos trancos e barrancos, com e sem ditadura, mas caminhou. Mas se os dois filmes servem para aferir o caminho cinematográfico, ficcional da nação, então demos para trás. As coisas não caminham necessariamente juntas, ao mesmo tempo. “Lula” é acadêmico, como um monte de outros filmes brasileiros. Ou mundiais, vamos ser francos. O cinema é algo a ser repensado em vários sentidos. Para falar com as massas agora será assim: dramaturgia evidente. Será difícil escapar disso. Bem, nesse sentido “Lula”, me parece, é eficaz. Se a publicidade caminhar bem, pode funcionar, sim. As decorrências políticas, na verdade, veremos depois. Não é um filme de campanha, isso é verdade. Mas pode, sim, produzir um clima capaz de favorecer a candidata do presidente.

Por Inácio Araujo às 10h58

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