segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A VIDA DE DILMA


O Adicional Contradicción tem insistido bastante que já é hora de dar a conhecer a vida de Dilma, para que a população em geral se familiarize com o lado humano da candidata e entenda por que o PT e Lula confiaram a ela a defesa da candidatura presidencial.
A seguir um artigo que se presta a dizer, um pouco, quem é Dilma. Mas esta tarefa deve ser intensificada pelo PT e partidos da base governista, caso tenham em mente o crescimento do seu nome na preferência do eleitorado brasileiro.
A trajetória de vida de Dilma Roussef é resgata pelo jornalista Fernando Rodrigues em artigo na Folha de S.Paulo, 21-02-2010. Não é o tom ideal que deve ser estimulado pela equipe de campanha de Dilma, mas eis o artigo.


‘Vivi bastante para estar cheia de vida’. A trajetória da pré-candidata do PT ao Planalto

Numa viagem recente a Belo Horizonte, Dilma RousseffSion, escola na qual cursou o ensino fundamental a partir de 1955 na capital mineira. "Ela me disse que só uma aluna da minha turma era psiquiatra, tirando também outras duas que eu conheço e seguiram carreira profissional." E o restante? "As outras todas eram donas de casa." encontrou uma velha amiga do colégio

O Sion era um colégio de freiras. Só para meninas. Eram educadas para debutar nos bailes de 15 anos. Não que fosse uma escola fácil. Quando Dilma chegou com o uniforme azul marinho para o primeiro dia de aula, aos 7 anos, a professora escreveu um texto no quadro negro e ordenou: "Copiem".

"Eu tinha feito o jardim de infância no Isabela Hendrix. E lá não se ensinava a escrever. A gente pintava. Eu entrei no primeiro ano completamente analfabeta. E tinha uma porção de meninas de um colégio chamado 12 de Dezembro. Todas sabiam escrever. E eu, não. Minha mão suava, borrava o caderno. Eu tentava copiar como se fosse desenho sem saber o que estava copiando."

A partir desse episódio, Dilma diz ter desenvolvido "uma vontade de aprender a ler que era um horror". Foi incentivada pelo pai, o búlgaro naturalizado brasileiro Pétar Russév - cujo nome depois foi aportuguesado para Pedro Rousseff. "Ele foi uma pessoa que teve forte vínculo com todos os movimentos de transformação europeus", relatou a ministra da Casa Civil em uma das sessões de conversa que concedeu à Folha desde janeiro deste ano.

Primeiro, foram livros infantis, "uma coleção da Melhoramentos, uns livrinhos desse tamanhozinho, assim", diz Dilma, indicando que eram edições de bolso. Depois, os contos dos irmãos Grimm, os alemães que popularizaram fábulas como Cinderela, Branca de Neve e João e Maria. Mas logo as leituras foram mudando de tom. "Eu li Germinal aos 14 anos", diz, citando o mais famoso romance do francês Émile Zola, de 1885, conhecido pela descrição naturalista, bem crua, das condições de trabalho sub-humanas de mineiros de carvão.

"Ela teve uma formação intelectual precoce. Lia muito, de histórias em quadrinhos até Marcel Proust e Jean-Paul Sartre. Sou cinco anos mais velho, mas lembro-me dela no movimento secundarista já dando aula para futuros vestibulandos", diz Claudio Galeno Linhares, 67, que foi casado com a ministra nos anos 60.


Família

O pai de Dilma, Pedro Rousseff, veio para a América Latina na década de 30 do século passado. Viúvo, deixara um filho, Luben, na Bulgária. Passou por Salvador, Buenos Aires e acabou se instalando em São Paulo. Fez negócios na construção civil e com empreitadas para grandes empresas, como a Mannesmann.

Já estava havia cerca de dez anos no Brasil quando, numa viagem a Uberaba, conheceu a professora primária Dilma Jane Silva, nascida em Friburgo (RJ), mas radicada em solo mineiro. Casaram-se e tiveram três filhos. Igor nasceu em janeiro de 1947, Dilma, em dezembro do mesmo ano, e Zana, em 1951. A família escolheu Belo Horizonte para morar.

Levavam uma vida confortável. Passavam férias no Espírito Santo ou no Rio. Às vezes, viajavam de avião. Não era uma clássica família tradicional mineira. Os filhos não precisavam ter uma religião. Escolhiam uma fé se assim desejassem. O pai frequentava cassinos, gostava de fumar e beber socialmente.

Quando morreu, em 1962, Pedro deixou a família numa situação tranquila. Cerca de 15 bons imóveis garantem renda para a viúva Dilma Jane até hoje. Um dos apartamentos fica no centro de Belo Horizonte. Foi exatamente esse apartamento o usado por Dilma Rousseff no final dos anos 60 para fazer reuniões com colegas militantes de esquerda e preparar ações a favor da luta armada contra a ditadura militar.

Ao terminar o ginásio, em 1963, Dilma prestou concurso para fazer o clássico em ciências sociais (um dos ramos do ensino médio daquela época). Em 1964 começou no Colégio Estadual Central. "Esse era "o" colégio de Belo Horizonte. Ali acontecia toda a agitação política estudantil da cidade", recorda-se Fernando Pimentel, 58, ex-prefeito de Belo Horizonte (2005-2008) e também ex-aluno do Estadual Central - no qual frequentava uma célula política comandada pela pré-candidata do PT ao Planalto.

Quando começou o clássico, em 1964, Dilma teve contato com militantes da esquerda organizada. "Foi a primeira vez que eu soube que as pessoas iam presas por crime de opinião", recorda-se. Em 31 de março daquele ano, o país sofreu um golpe de Estado. Uma ditadura militar se instalou.

Ao se aproximar dos grupos de esquerda, Dilma recebeu um texto para ler. "Era um livrinho. Chamava-se "Acumulação primitiva". Era um dos capítulos mais vitais do "Capital", do Marx. Li e não entendi. Aí eu perguntei o seguinte: "afinal de contas, ele é a favor dos trabalhadores ou não?'"

É raro Dilma tratar de temas mais filosóficos e não inserir uma citação literária. Sobre religião, por exemplo, fala dos romances de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), permeados do conceito de que, "se Deus não existe, tudo é permitido". Ao ser presa acusada de subversão pela ditadura militar, em 1970, sua ficha preenchida pela polícia paulista continha a inscrição "não tem religião" em um dos campos.

Hoje, a ministra contemporiza. Numa sabatina na Folha, em 2007, disse: "Fiquei durante muito tempo meio descrente. Acredito que as diferentes religiosidades são fundamentais para as pessoas viverem. A gente não pode achar que existe aquele seu Deus". Mas ela acredita em Deus? "Eu me equilibro nessa questão. Será que há? Será que não há? Eu me equilibro nela."


Militância

Egressa do Sion, Dilma tinha facilidade não apenas com literatura, mas também com matemática. No movimento estudantil secundarista, entre reuniões para discutir política e como seria a próxima passeata de protesto, a simpatizante da Polop dava aulas particulares. A Polop era como todos se referiam à Organização Revolucionária Marxista Política Operária. Mais tarde, em 1967, o grupo virou Comando de Libertação Nacional (Colina).

"O Zé Aníbal estudava no colégio Marconi e lá não tinha boa formação em matemática. Então fui eu estudar matemática com ele, na minha casa, todos os dias", diz Dilma. O Zé Aníbal que estudou com Dilma em 1966 é o deputado federal José Aníbal (PSDB-SP), à época também um simpatizante da Polop em Belo Horizonte. Os dois passaram no vestibular e entraram juntos para a Face (Faculdade de Ciências Econômicas) da UFMG.

O futuro deputado tucano teve a ajuda da futura petista não só para aprender matemática. Na primeira semana de aula, em 1967, a Polop estava tentando destronar um pouco o grupo político de esquerda AP (Ação Popular), ligado à Igreja Católica, então dominante no movimento estudantil. Zé Aníbal foi escolhido para ser candidato a representante dos primeiranistas. "A Dilma fez muita campanha para mim. Trabalhou como cabo eleitoral. Ganhei por um voto de diferença contra o candidato da AP", relata o hoje deputado federal pelo PSDB paulista.

Ser da Polop era estar por dentro do que se passava nas principais rodas políticas e culturais de Belo Horizonte. "A Polop misturava de tudo. Tinha Lênin, Marx, Rosa de Luxemburgo e uma pitada de Trotsky. Era o grupo mais intelectualizado. O pessoal da AP rezava o dia inteiro. Os do PC do B só liam Mao Tse-Tung. A Polop era um movimento iluminista", descreve Apolo Heringer, 67, um dos gurus da esquerda belo-horizontina nos anos 60.

Não era um grupo numeroso. Basta dizer que um dos principais veículos a conduzir os militantes para cima e para baixo era um Volkswagen sedã verde abacate. O Fusca foi o presente que Zé Aníbal ganhou do pai ao entrar na faculdade. Dilma andou muito naquele fusquinha. A verdade é que as conversas eram sobre revolução e exploração dos trabalhadores, mas "pobre, mesmo, não tinha muitos, não". A lembrança é do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. "Todos eram, pelo menos, de classe média".

Foi numa sessão de cinema, "possivelmente um filme italiano, do [Federico] Fellini", que começou o namoro entre Dilma e o jornalista Cláudio Galeno de Magalhães Linhares. Galeno já havia estado preso e tinha habilidade com produtos químicos. Seu pai era farmacêutico. "Andaram falando que eu fabricava bombas. Não tem nada disso. Fabriquei alguns protótipos de uma caixa com um dispositivo eletroquímico. Era para guardar documentos secretos. Se a repressão abrisse, a caixa entraria em combustão", diz. Só duas dessas engenhocas foram fabricadas. Uma acabou nas mãos da polícia. Não pegou fogo. O dispositivo não estava armado.

O casamento foi em setembro de 1967, só no civil. Familiares e amigos compareceram ao cartório. "Eram 30 ou 40 pessoas. Muitos já eram procurados. Se a polícia baixasse ali levaria alguns", diz Galeno, 25 anos à época. A noiva tinha 19.


"Aparelho"

Foram morar no apartamento da família Rousseff, no centro de BH. Eram tantas as reuniões políticas que o local era considerado quase um "aparelho" da Polop e do Colina -"aparelho" era o jargão para designar os endereços para encontros das organizações proscritas pela ditadura militar.

Foi nesse apartamento que Dilma e Galeno tiveram seus últimos dias antes de cair na clandestinidade. Jorge Nahas e outros militantes foram presos em janeiro de 1969, num confronto com a polícia. Morreram dois policiais. Os organismos de repressão mineiros começaram a caçar ostensivamente os militantes de esquerda -os subversivos, como se dizia.

O casal passou a dormir em locais diferentes. "Mas daí nos disseram que alguém havia escondido microfilmes nas caixas dos interruptores de quarto do apartamento. Eram fotos de locais usados em nossos treinamentos militares", disse Galeno à Folha em entrevista neste mês, em Belo Horizonte.

Com todo cuidado, entraram a pé pela garagem. Galeno descreve: "Olhamos pela janela e vimos uma caminhonete C14 e um Aero Willys, os dois de cor preta, da polícia. Ficamos em silêncio total, sem acender as luzes. Encontramos os microfilmes que nem eu nem a Dilma sabíamos da existência. O problema era como destruí-los".
Jogar no vaso sanitário e dar a descarga faria barulho. Queimar produziria fumaça. A solução foi desenrolar um cabide de arame enfiar os microfilmes nos ralos do apartamento. "Mas você imagine a tensão... Eles não sabiam que estávamos lá. Um policial subiu e tocou a campainha. Nós vimos que era um policial pela fresta de baixo da porta, com todo cuidado. Ele usava coturnos", relata Dilma.

Foi uma noite em claro. Galeno se lembra de terem levado colchões para a sala, em frente à porta. "Era uma espécie de barricada. Se entrassem atirando nós teríamos alguma proteção inicial mínima." Por volta das 6h do dia seguinte, um barulho no corredor externo chamou a atenção. Dilma relata: "Era a empregada do vizinho esperando o elevador. Pelo olho mágico deu para ver que ela levantou a saia, coçou a coxa e ajustou a meia. Uma mulher só faria aquilo no corredor se soubesse que estava sozinha. Olhamos pela janela e os carros da polícia não estavam lá."


Clandestinidade

Era o momento da troca de turno. "Eu disse: vamos nessa", conta Galeno. Dias depois os dois já estavam no Rio, clandestinos, usando nomes falsos e pulando de casa em casa. O casamento também estava chegando ao final. Dilma ficou no Rio. O marido foi para o Rio Grande do Sul, atendendo a um chamado do Colina. No dia 1º de janeiro de 1970, ele participou de um sequestro de um avião em Montevidéu, no Uruguai, e refugiou-se em Cuba.

O ano de 1969 foi intenso para Dilma. Ela usou vários codinomes, entre os quais Luiza, Wanda, Marina, Estela, Maria e Lúcia. Conheceu seu segundo marido, o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo. Quando se viram pela primeira vez, ele tinha 31 anos. Dilma estava com 21. "Sou 9 anos e 10 meses mais velho que a Dilma", calculou Araújo numa das conversas que teve com a Folha em Porto Alegre, onde mora e trabalha até hoje.

Era um comunista que conhecia União Soviética, Polônia, Checoslováquia. Havia militado ao lado de Francisco Julião nas Ligas Camponesas, no Nordeste. Algumas semanas depois de se conhecerem, no início de 1969, Araújo e Dilma já estavam vivendo juntos. "Foi uma paixão. Ela era muito linda. Ela era uma mulher muito bonita. Mesmo usando óculos." Dilma tinha 9 graus de miopia. Hoje, usa lentes de contato.


VAR-Palmares

Naquele final de anos 60, a hoje ministra participou de reuniões secretas em São Paulo e no Rio nas quais as organizações de esquerda armada iam se fundindo ou rachando conforme a ideologia do momento. "O livrinho do Régis Debray, "A revolução na revolução", colocou fogo em todos. O texto chegou mimeografado para nós, contrabandeado do Uruguai. Muitos acharam que o foquismo era a solução. Por um momento, a Dilma achou isso também", diz Apolo Heringer.

Pensador de esquerda francês, Debray morou em Cuba, conheceu Fidel Castro e Che Guevara. Difundiu a teoria do foco. Heringer, hoje um pacifista e ambientalista, descreve: "Era a tese da coluna móvel estratégica. Seria o organizador coletivo para movimentar as massas, como um motor. Atuava-se nas cidades e refugiava-se nas florestas, derrotando o Exército aos poucos, a cada combate, conquistando adesão das massas. Não tinha a menor base na realidade brasileira".

Deu-se então a fusão do Colina, de Dilma e Araújo, com a Vanguarda Popular Revolucionária, de Carlos Lamarca. A nova organização, criada em meados de 1969, chamava-se Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

O novo grupo falava em combater a ditadura, mas a alternativa não era propriamente democracia. Em 1970, um militante foi preso em Goiânia com um estatuto da organização. A VAR-Palmares se definia como instituição "político-militar de caráter partidário, marxista-leninista, que se propõe a cumprir todas as tarefas da guerra revolucionária e da construção do Partido da Classe Operária, com o objetivo de tomar o poder e construir o socialismo".

Quem descumprisse o cânone interno ficava sujeito a sanções de "censura, verbal ou escrita", "expulsão" e até "justiçamento" -essa pena de morte seria "aplicada por um tribunal revolucionário", e infrator poderia ou não "estar presente ou tomar conhecimento" da pena.


Treinamento militar

A associação entre Colina e VPR durou poucos meses. Lamarca queria aprofundar as ações armadas. Outros divergiam. Racharam antes do final de 1969. Mas ainda deu tempo para Dilma ir ao Uruguai clandestinamente ser treinada em técnicas militares -ela não precisa o momento exato.

Em março de 2009, à Folha, Dilma havia negado esse treinamento de forma categórica: "Nunca fiz nem treinamento no exterior nem ação armada". Confrontada com a contradição, alega que, à época, não queria falar de atos envolvendo outros países. Resolveu fazer a revelação depois da eleição de José Mujica, ex-guerrilheiro da organização Tupamaros, que lutou contra a ditadura militar uruguaia. "O presidente Mujica está ali e sabe como é que foram os anos 70", diz Dilma.

A seguir, seu relato, inédito, sobre o treinamento militar -e não de "guerrilha", diz ela.

"Era perto daqui, no Uruguai. Geralmente a gente fazia numa fazenda. Era mais seguro você fazer na fronteira. Eu estava no Rio e fui a Porto Alegre. Foi do lado de lá da fronteira. Ia pouca gente. Na minha vez foram cinco ou seis pessoas. Eu usava uns óculos com lentes bem grossas. Eu nunca tive pontaria, mas pegava bem. Era uma ótima limpadora. O meu treinamento foi muito simplório. Não se atirava muito. Montava-se e desmontava-se [armas]. Também [havia treinamento] de segurança. Você olha como é que faz para não ser seguido. Eles chamavam de treinamento de inteligência."

O esforço e o treinamento não foram suficientes. Alguns meses depois Dilma foi presa em São Paulo, pois havia saído do Rio no final de 1969. Morava em uma pensão na avenida Celso Garcia, no bairro do Brás (região central da capital paulista).

Era um quarto precário, compartilhado com Maria Celeste Martins, hoje sua assessora na Casa Civil. Não tinha banheiro. A pré-candidata do PT a presidente lembra-se de um hábito de higiene curioso: "Você tem de comprar um tamanco para poder tomar banho. Todo mundo toma banho de tamanco, para não pisar no chão". Os banheiros eram imundos.

Qual era a função de Dilma naquela pensão? "As pessoas iam sendo presas e a gente ia limpando tudo que tinha nas casas das pessoas e trazendo. Não tinha lugar de guardar. Todos estavam sendo presos. Debaixo da cama era uma espécie de depósito. Tinha tudo o que você imaginar. Roupa, calça jeans, camiseta, carta, armas. A pessoa ia presa e tinha um revólver na casa dela".

Em 16 de janeiro de 1970, segundo Dilma, "às 16h10, mais ou menos", ela foi presa. Tinha ido ao encontro de um companheiro clandestino, no centro de São Paulo. Não sabia que ele tinha sido capturado e obrigado a contar sobre o encontro. Detida, foi enviada para a sede da Operação Bandeirantes, a Oban -um centro de investigações e interrogatórios dos militantes da esquerda armada.

Não há registro sobre quanto tempo Dilma permaneceu na Oban antes de ser levada para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Nas contas da ministra, ela saiu da Oban "depois do Carnaval", que em 1970 caiu na primeira semana de março. Foram cerca de 45 dias sendo interrogada, com várias sessões de tortura.

Em abril de 2009, a ministra relatou assim as sessões de tortura à Folha: "Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana".

Foram quase três anos de prisão, condenada pela Justiça Militar em três Estados: Rio, São Paulo e Minas Gerais. A ministra nega ter participado de ações armadas de maneira direta. Entrevistas realizadas pela Folha Dilma atuando na linha de frente, dando tiros em alguma operação de guerrilha. nas últimas semanas com ex-combatentes de esquerda na década de 60 não foram conclusivas. Ninguém relatou, entretanto, ter presenciado

Ao negar sua participação em ações armadas, a ministra sempre aumenta um pouco o tom de seu discurso: "Santo não há. Eu não passaria incólume se tivesse uma ação armada. Você acha que eles não me julgariam? Você acha que eles não me manteriam presa? Eu nunca participei de uma ação armada e nunca fui julgada, condenada e interrogada por eles [sobre isso]".


Rio Grande do Sul

Libertada no final de 1972, passou o Natal com a mãe, em Belo Horizonte. Antes de ser liberada, foi levada à Oban para ouvir um sermão. "Eles faziam a ameaça clássica: "Se você voltar vai morrer com a boca cheia de formiga". Gente, eu pensei, nessa altura do campeonato?".

Em 1973, começou vida nova no Rio Grande do Sul. Mudou-se para Porto Alegre e foi viver na casa dos sogros. O marido Carlos Araújo continuava preso na cidade. Ele só foi libertado em junho de 1974. Dilma então já havia prestado vestibular e cursava economia na UFRGS.

A primeira e única filha, Paula Rousseff Araújo, nasceu em março de 1976. "Ela teve de nascer de cesariana. Eu fiz tudo para ela nascer de parto normal. Mas o pessoal dizia que eu era velha. Naquela época era velho você ter filhos aos 28 anos. O pessoal tinha mais cedo, né?". Em 1977, formou-se em economia pela UFRGS. Em 1978, mãe e filha se mudaram para a Campinas, pois Dilma se matriculou num mestrado em economia na Unicamp. Concluiu os créditos, mas nunca apresentou a dissertação.

De volta ao Rio Grande do Sul, atuou na criação do PDT, sob comando de Leonel Brizola (1922-2004). "A coisa mais forte politicamente no Rio Grande do Sul naquele momento era o PTB [depois, PDT]. Tem uma tradição que passa de pai para filho. E é por isso que eu vou lá para o Brizola." Para ela, Brizola ajudou "na reconstrução da noção de nação", embora não se desse conta "da modernidade do que é a nação hoje".

Araújo foi eleito três vezes seguidas deputado estadual pelo PDT. Dilma ocupou cargos nas burocracias da cidade e do governo local, sempre nas áreas de influência do partido. Em 1985, Alceu Collares (PDT) foi eleito prefeito de Porto Alegre. Dilma participou da campanha e foi convidada para ser secretária da Indústria e Comércio do município. Araújo foi o portador da notícia. "Ela me disse: "Dá aqui o telefone que eu vou falar com ele [Collares]". No final da conversa ela era a secretária da Fazenda de Porto Alegre".

Dilma também trabalhou na FEE (Fundação de Economia e Estatística), órgão do governo estadual do Rio Grande do Sul, como assessora da bancada do PDT na Assembleia Legislativa e diretora-geral da Câmara de Porto Alegre. Seu cargo mais vistoso na sua encarnação gaúcha foi como secretária de Minas, Energia e Comunicações do governo Collares (1993-1994) e no governo do petista de Olívio Dutra (1999-2002).

Foi nessa última ocupação que sua vida teve duas grandes novidades. Em 2000, terminou seu segundo casamento.
Em 2001, entrou para o PT. Houve um racha na coalizão PDT-PT. Ela preferiu ficar onde estava (no cargo de secretária de Minas, Energia e Comunicações) e deixou o mundo pedetista-brizolista. No ato de filiação, Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Porto Alegre para abonar as fichas de vários ex-pedetistas.


Ministério

Quando Lula preparava seu programa de governo em 2002, Dilma participou. Vencida a eleição, ela foi chamada a Brasília e fez parte da equipe de transição. Virou ministra de Minas e Energia. Em 2005, como diz seu colega do PT gaúcho Tarso Genro, o vácuo produzido no partido por causa do mensalão acabou catapultando Dilma para a Casa Civil e para a posição de pré-candidata ao Planalto.

A trajetória ascendente teve uma interrupção em abril de 2009. Descobriu ter câncer no sistema linfático. Logo ela, que parara de fumar dois maços de Hollywood por dia em 1989. Passou a praticar esportes, chegando a mergulhar algumas vezes no mar, com cilindro de oxigênio. No final de 2008, fez uma operação plástica na região dos olhos. "Eu fiz isso aqui ó", diz ela, passando os dedos em torno dos dois olhos e escorregando até as têmporas.

Descoberto o câncer em 2009, fez tratamento quimioterápico e radioterápico. Perdeu os cabelos. No final de setembro passado, seus médicos anunciaram que ela estava "livre de qualquer evidência de linfoma". Passou a colecionar apoios políticos, até entre antigos críticos. "Ela foi uma traidora em 2001 quando saiu do PDT. Eu disse isso. Mas minha mulher, Neusa, na época me falou: "Eles estão certos. Nosso partido não tem futuro". Acho que a Neusa estava certa. A Dilma nunca teria sido candidata a presidente pelo PDT", pondera Alceu Collares sentado em uma cadeira reclinável em sua casa.

Aos 82 anos, Collares se reconciliou com a ministra. Votará nela para presidente. O PDT o indicou, e DilmaRousseff o abençoou, para uma vaga no Conselho de Administração da Itaipu Binacional - salário de aproximadamente R$ 15 mil mensais para participar de uma reunião apenas a cada 60 dias.

Dilma não aprecia discorrer sobre sua vida pessoal. Dá a entender não estar namorando no momento. Sobre solidão, aos 62 anos, tem uma teoria: "É impossível uma pessoa de 60 anos ter a mesma solidão de uma de 30. Só tem uma hipótese de ela ter: ela não viveu. Eu vivi o suficiente para estar cercada de vida".

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30000

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

ANA MARIA BRAGA X PETKOVIC

Ana Maria Braga, apresentadora da Globo, foi uma dos intelectuais do antigo movimento Cansei.
Semana passada, ao entrevistar o craque flamenguista PET, acabou por cometer mais uma das suas gafes, baseada em sua ignorância acerca da especificidade da realidade concreta e também, na em preconceitos de classe e ideológicos.

A seguir o trecho da entrevista em que Ana Maria indagou, ao se referir a Sérvia: Como foi nascer num país com tanta dificuldade? E também, a resposta que a deixou sem rebolado: “Quando nasci não tinha dificuldade nenhuma. Era um país maravilhoso, vivíamos um regime socialista, todo mundo bem, todos tinham salário, todos tinham emprego. Os problemas aconteceram depois dos anos 80”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A CLASSE C VAI AO PARAÍSO, POR FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA DA SILVA




A Fundação Getúlio Vargas (Rio), através do seu Centro de Políticas Sociais, publicou uma recente pesquisa na qual vemos a chamada classe “C” – aquelas pessoas cujos lares recebem entre R$ 1.115 e R$ 4.807 por mês – tornarem-se 49.22% do total da população brasileira. Houve, na verdade, um salto fantástico: em 2003 eram 37.56% da população, passando em 2008, para 49.22% do total de brasileiros. Podemos acreditar que não fosse a crise econômica mundial de 2008/09 este coeficiente seria bem mais alto.


A luta contra as desigualdades

Qual o verdadeiro significado destes números? Simples e direto: a desigualdade social foi, em cinco anos, reduzida drasticamente. Mesmo com um crescimento baixo, mesmo sofrendo os efeitos da crise (nem ”marolinha”, nem tsumani!) o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. Para tornar mais claro o impacto podemos citar um jornal que não pode ser, de forma alguma, considerado “chapa-branca”, O GLOBO: “... essa migração em massas alterou o rumo da divisão historicamente desigual do bolo no Brasil...”.

Desde os anos '30, do século XX, quando a Questão Social deixou de ser caso de polícia e virou desafio do Estado, a discussão sobre os métodos de sanar as justiças sociais tem sido o centro do debate político no país. Durante os anos '30, de 1930 até 1945, Getúlio Vargas acreditou que o autoritarismo político, a repressão, e um jogo dual entre patrões e trabalhadores seriam o suficiente para alterar a injusta divisão social do país. Foram dados, então, passos enormes, se comparamos com o imobilismo e a repressão vigente na República Velha (1889-1930). Justiça do Trabalho, sindicalismo oficial, CLT forma passos de refundação da Questão Social no Brasil. Porém, o autoritarismo político, a perseguição da esquerda não varguista e o atrelamento ao Estado constituíam o lado quase oculto da “dádiva” varguista.


Após a estagnação de Dutra – de quem Pablo Neruda disse ter “ojos de cerdo” – voltou-se, ainda com Vargas, agora entre 1951-1954, para um modelo mais descomprimido de distribuição social. Ainda aí o Estado foi o agente básico da justiça social, estabelecendo o salário mínimo como referência de justiça (o então ministro do trabalho, Joao Goulart, dará um aumento de 100% do mínimo, despertando a ira da classe patronal. No Primeiro de Maio daquele fatídico ano de 1954 o salário mínimo era descongelado, para horror das associações patronais. Abriu-se aí a crise cujo desfecho será um tiro solitário num dos salões do Palácio do Catete, em agosto de 1954.


1954 contra 1964

Com um tiro no peito, Getulio adiou em 10 anos o golpe da UDN: os políticos de direita do país, cansados de perder as eleições e a escolha popular, e com calos nos dedos de tanto bater à porta dos quartéis (expressão do amigo, Marco Aurélio Garcia!) foram enfim atendidos. Deu-se, então, o Estado Novo da UDN. Uma “santa aliança”, quer dizer bendita pela Igreja organizada nas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade ( ou seria pela Propriedade?)”, entre empresários, mídia, classe média (assustada, com a maré montante de um jovem proletariado urbano).

Desde 1964, todos se reuniram em torno da ditadura civil-militar (não podemos esquecer a participação, o apoio civil – os governadores eleitos do Rio, São Paulo e Minas Gerais eram as lideranças do Golpe - e das entidades ditas “de classe”, quer dizer patronais) ao regime que durou de 1964 até 1985.

Mesmo aí, as classes patronais ficaram insatisfeitas com os rumos da Questão Social: os sindicatos dos trabalhadores estavam amordaçados, suas direções presas, exiladas ou ainda pior... Arrocho salarial, reforma regressiva da CLT, fim da liberdade de expressão, etc... eram as marcas do novo regime. Mas, após o surto liberal – Roberto Campos, ex-embaixador nos EUA, assumiu o ministério do Planejamento e em nome do combate à inflação reduziu drasticamente os direitos dos trabalhadores! – os próprios militares foram tomados de uma febre nacionalista e desenvolvimentista.

Malgrado a repressão, brutal entre 1969 e 1978, anos de chumbo, anos de terror (onde mais uma vez os civis tiveram um papel central, como na Operação Oban), vários setores da ação do Estado foram fortalecidos e alguns programas sociais foram montados, tais como o Estatuto da Terra (1964 ) e o Funrural (1967). Trata-se, é claro, de medidas preventivas, visando esvaziar o movimento social, e não a fim de atendê-lo. Contudo, mesmo isso, migalhas da mesa do “Milagre Brasileiro”, era demais para as “classes patronais”.


Democratização e Imobilismo

Pegando carona, de forma imoral, posto que só elas lucrassem com a ditadura, estes mesmos setores embarcaram na luta pela democratização. Inscreveram, aí, ao lado das exigências básicas da população, uma enorme lista de ações que deveriam reduzir o Estado, transformá-lo em Estado Mínimo. Acusavam os militares de “estatismo”. Eram dados os exemplos de Thatcher ou Reagan, os teóricos da chamada Escola de Chicago, the chicago's boys, para “consertar” o país. Um país que nunca dera escola às suas crianças, onde a fome batia à porta de milhões (salve, salve, Betinho!), onde faltava água limpa e esgoto corrente, deveria ter seu Estado reduzido ao mínimo.

As exigências (neo)liberais, em tal contexto, assemelham-se, nos países pobres, ao genocídio puro e simples. O Consenso de Washington seria, em verdade, economizar em escolas, em merenda escolar, em estradas, em hospitais para, em fim, pagarmos a dívida sem risco para os fundos de pensões norte-americanos e europeus. Nossa elite aplaudiu. Aplaudiu a maior transferência de renda regressiva da história, canalizando o fruto do trabalho dos povos do hemisfério sul para as economias centrais do capitalismo.

Contudo o projeto de modernização autoritária e regressiva faliu. Deu-se a crise do petróleo. A crise da dívida externa. A crise dos preços das commodities – da re-inteiração da condição colonial. O movimento social, autônomo desde as greves do ABC, em 1980, fortemente ancorado numa opinião pública exigente e crítica baniu, em um final melancólico, o regime autoritário.


Esperanças e Frustrações

A redemocratização trouxe grandes esperanças. Principalmente a idéia generosa que os direitos cívicos não mais se resumiam em votar e ser votado, em poder exprimir sua crítica presa na garganta, em gritar o grito daqueles desde sempre sem voz. A redemocratização do Brasil, no início dos anos '80 do século XX – bem como de toda a América do Sul – exigia os direitos cívicos básicos e muito mais. Cidadania era, então, um conceito expandido, alargado para abranger educação, saúde, moradia, transporte e, mais além, igualdade social, racial, de gênero e de opção sexual.

Contudo, desde a reunião da Assembléia Nacional Constituinte, a direita tradicional e a nova direita liberal uniram-se, no chamado “Centrão”, para paralisar as reformas necessárias. E aí vivemos anos seguidos de incompetência – governos Sarney, Collor e Itamar – somados aos anos de reformas regressivas, na Era FHC. Esta se inicia, no próprio discurso de posse do Presidente FHC, prometendo encerrar a “Era Vargas”. Ora, o que seria a “Era Vargas”? Tratava-se, em verdade, de impor o Estado Mínimo, aceitar a captura do Estado pelos interesses privados, acobertados pela instituição de agências reguladoras, a ameaça de um Banco Central dito “independente” (mas, constituído de personagens saídos e chegados da grande banca) e a total ausência de qualquer política pública de desenvolvimento, emprego ou trabalho. O fundamentalismo monetário, o medo pânico de destruir uma arquitetura de controle da inflação tão frágil que qualquer solavanco de crescimento do PIB poderia derrubar o Plano Real. Era como o médico que para extinguir a febre mata o paciente. Acreditava-se que o país, para controlar a inflação, não poderia crescer. Inflação ou crescimento: este era o falso dilema do liberalismo.


Rompendo com o passado

A vitória do Partido dos Trabalhadores veio exatamente romper, como no caso do nó górdio, o dilema. A questão é: como crescer, como erradicar a desigualdade social, sem inflação? O papel do Estado como condutor do processo, a criação de políticas corretivas das desigualdades sociais e regionais, bem como olhar o povo como cidadão, e não como mão de obra fácil e disponível, eis a resposta proposta desde 2003. Tudo isso recusando o autoritarismo e o paternalismo. Não se tratava de “encerrar a Era Vargas”. Tratava-se de ir mais além!

Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. São novos consumidores, que exigem seus direitos sociais expandidos: “... os anos 2000 permitiram ao [novo] consumidor não só comprar, mas escolher o produto com que mais se idêntica” (O GLOBO, 7/02/2010). Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos: segundo Marcelo Néri, o Nordeste – aquele mesmo Nordeste de personagens como Baleia, de Graciliano Ramos ou do “lobisomem amarelo” (o homem atingido pelas doenças) de José Lins do Rego – cresceu a um ritmo “chinês” atingindo 7.7% ao ano.

Em suma: vivemos num país melhor, mais justo e menos desigual.

Publicado no portal Carta Maior em 09/02/2010

sábado, 6 de fevereiro de 2010

CRESCIMENTO ECONÔMICO E REDUÇÃO DE DESIGUALDADES - ENTREVISTA DE LULA AO JORNAL DO COMÉRCIO


Entrevista exclusiva concedida por escrito pelo Presidente da República, Luiz Inácio da Silva, ao Jornal do Comércio, de Porto Alegre

Publicada em 05 de fevereiro de 2010



Jornalista: A dívida pública da União atingiu R$ 1,5 trilhão, em números redondos, no ano de 2009. Mesmo descontando que foi um ano atípico, com o ápice da crise financeira cujo epicentro foram os Estados Unidos, não é um valor alto demais para a economia brasileira? Não daria para baixar um pouco mais os juros e diminuir, assim, o valor da dívida atrelada à Selic?

Presidente: O melhor jeito de analisar o tamanho da dívida pública é em relação ao PIB, que reflete a geração de riqueza na economia e, portanto, a capacidade de pagar essa dívida. Além disso, não se deve olhar apenas para a dívida bruta porque, por outro lado, o País tem ativos relevantes que precisam ser considerados. Por exemplo, as reservas internacionais brasileiras ultrapassam US$ 240 bilhões, ou seja, apenas em reservas o Brasil tem hoje cerca de R$ 440 bilhões. Nesse contexto, a trajetória da dívida pública brasileira tem sido extremamente benigna. A dívida líquida, que chegou a praticamente 57% do PIB em 2002, foi reduzida para apenas cerca de 37% do PIB ao final de 2008. E mesmo com toda a crise internacional ela aumentou ligeiramente para 43% do PIB em 2009 e já voltará à sua trajetória de queda neste ano. Reduzir a dívida de 57% do PIB para 37% (uma queda de 20 pontos percentuais) em 6 anos foi uma coisa excepcional e mostra o comprometimento do Brasil com uma política fiscal séria e responsável. Voltando ao ponto inicial, para comparar e constatar que nos encontramos em uma situação confortável, países como Inglaterra, França e Alemanha têm dívidas em relação ao PIB da ordem de 70%, os Estados Unidos, superior a 55%, Japão, em torno de 100%, e Itália, acima de 110%. Finalmente, segundo dados do FMI, a maior parte dos países sofrerá aumentos consideráveis na sua dívida bruta em relação ao PIB no ano de 2010, enquanto o Brasil terá sua dívida reduzida. De modo mais simples, de acordo com as previsões do Fundo, países como Estados Unidos, Japão, França e Inglaterra deverão experimentar aumentos de 7 a 13 pontos percentuais em suas dívidas, enquanto o Brasil terá redução de mais de 2,5 pontos.


Jornalista: O ano é de eleições e, como tradicional, vão ocorrer críticas sobre a condução da política econômico-financeira do País. O senhor manteve as diretrizes básicas do governo anterior em quesitos importantes, como câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Seria esse um bom conselho - manutenção dessas diretrizes - a ser dado ao seu sucessor, seja ele quem for, mesmo que o senhor julgue que ex-presidente não deva falar?

Presidente: Eu prefiro, em vez de ficar aconselhando, de ficar dando palpites, deixar o acerto das nossas diretrizes como exemplo. E eu acho que apenas com essas definições de política econômico-financeira, nós jamais teríamos os índices de desenvolvimento que conseguimos e não teríamos nos saído tão bem no enfrentamento da crise financeira internacional. Aliás, anteriormente, mesmo exercitando esse tripé, diante das crises o Brasil quebrava e tinha que recorrer ao FMI. Posso dizer que o tripé foi bem sucedido, mas dentro do mesmo arcabouço institucional aconteceram melhorias fundamentais. O câmbio flutuante foi combinado à acumulação de reservas, que permitiram a redução da vulnerabilidade externa e uma pronta resposta à crise financeira. As metas de inflação adotadas foram críveis e adequadas, e combinadas com metas de crescimento do PAC, permitiram a redução dos juros e a expansão da economia. Do lado fiscal, desde o início do governo, os superávits foram combinados com transferências de renda às famílias mais pobres, que levaram à constituição de um mercado de consumo de massas, incluindo também metas para os investimentos públicos.


Jornalista: Um dos seus grandes trunfos no governo foi a inserção de milhões de brasileiros no mercado consumidor, principalmente das classes D e E, com programas como o Bolsa Família. Isso alavancou a economia interna e serviu como um amortecedor contra a crise. Hoje, o senhor manteria tudo o que fez no final de 2008 e durante 2009 para enfrentar a crise que veio do Exterior, mudaria ou acrescentaria algo?

Presidente: Eu penso que o resultado do enfrentamento da crise mostra que tomamos as decisões corretas. No ano mais agudo da crise, 2009, tivemos a criação de quase 1 milhão de novos empregos com carteira assinada, enquanto vários outros países perderam postos de trabalho. Aliás, quando a crise chegou, nós já estávamos mais bem preparados, com um sistema bancário sólido, um excelente volume de reservas e um mercado interno forte, proporcionado pelas nossas políticas sociais. Mesmo nessa situação confortável, tomamos várias medidas adicionais, centradas em três linhas. Em primeiro lugar, trabalhamos para reduzir o impacto da retração do crédito, com várias medidas: aumentamos em R$ 100 bilhões o volume de recursos do BNDES para empréstimos, diminuímos os compulsórios dos bancos, reduzimos os juros dos bancos públicos, promovemos a redução da alíquota do Imposto de Renda e do IPI de vários setores da economia. Em segundo lugar, em vez de reduzir os investimentos nas obras do PAC, nós ampliamos o volume de recursos de R$ 504 bilhões para R$ 646 bilhões até 2010. Além do volume inédito de recursos que estamos injetando na economia, ainda estamos eliminando os gargalos de infraestrutura que atravancavam o desenvolvimento. Em terceiro lugar, procuramos aprimorar as políticas sociais, mantendo e ampliando o Bolsa Família que hoje beneficia 12,4 milhões de famílias brasileiras, além de continuar com a política de valorização do salário mínimo, que já cresceu mais de 60% acima da inflação, desde 2003. E, por sabermos que num cenário de crise, o fator psicológico tem um grande peso, nós trabalhamos para evitar o pânico, injetando confiança nos atores econômicos e estimulando a população a continuar consumindo. E o povo brasileiro reagiu de forma espetacular. Não se deixou levar pelos alarmistas e manteve a roda da economia girando. Como os resultados foram mais do que satisfatórios, tanto para as empresas quanto para os trabalhadores, temos aí um roteiro pronto do que fazer diante de uma crise.


Jornalista: Sem dúvida, o Brasil é hoje um protagonista no cenário internacional para o qual os demais países se voltam nas grandes questões. A par disso, o senhor conseguiu uma proeza, a de se manter com uma política socialmente correta de inclusão dos mais pobres sem alimentar viés ideológico pelo lado socialista. Tanto é que os Estados Unidos - Barack Obama - o reconhecem como esse ponto de equilíbrio – "o cara" – entre o modelo capitalista tradicional e os legítimos anseios por um mundo melhor e possível, sem a adoção de velhos, surrados e superados slogans do comunismo. Dá para manter o Brasil como um país capitalista na essência mas onde os menos afortunados terão mais e mais chances e melhorarão de vida?

Presidente: Os êxitos que o Brasil vem colecionando nesse campo são a maior demonstração de que estabilidade macroeconômica, crescimento e combate à pobreza são mais do que compatíveis. Na verdade, elas se reforçam mutuamente. Em nosso governo, passamos a cuidar dos dois terços da população que nunca eram levados em conta na hora de se formular as políticas públicas. Governos anteriores estavam voltados apenas para um terço dos brasileiros, os da faixa superior de renda, e se lixavam para o restante. Ao ampliar a renda e, portanto, o poder aquisitivo dos segmentos mais pobres da sociedade, não estamos apenas fazendo justiça social e estendendo os direitos básicos de cidadania a todos os brasileiros. Estamos também simultaneamente ampliando o mercado consumidor para a produção nacional. A demanda resultante do maior poder aquisitivo da população movimentou o comércio de bens e serviços no País. Estamos trabalhando nos marcos do sistema dentro do qual fomos eleitos e comprovando, pela primeira vez, que é perfeitamente possível combinar crescimento econômico com distribuição de renda, ou seja, com a redução das desigualdades sociais.


Jornalista: O Brasil optou por uma parceria militar estratégica com a França. Tivemos aqui a Missão Francesa, na segunda década do século XX, que reformou o nosso Exército e lançou novas teorias castrenses. Depois da II Guerra Mundial, a influência pendeu para a superpotência vencedora chamada EUA. No caso dos caças supersônicos da Força Aérea Brasileira (FAB), tendo a França ganho contratos para helicópteros, submarinos e a construção de uma necessária base naval, não seria uma boa política externa agora adquirir os F-18 Super Hornet dos EUA, caças mais do que testados e que também podem operar no porta-aviões São Paulo, também comprado da França, ao contrário dos outros dois modelos, e deixando abertas as portas da diplomacia e dos negócios para o maior mercado comprador do mundo, mesmo que, hoje, o Brasil venda mais para a China?

Presidente: Quero reafirmar que, até o momento, não há qualquer decisão tomada em relação à compra dos caças. Trata-se de uma escolha muito importante para o governo e para o Brasil, considerando a nossa determinação de fazer da política nacional de defesa um eixo de desenvolvimento econômico e de autonomia tecnológica. No momento, o Ministério da Defesa está examinando as propostas apresentadas. Vou decidir somente depois de tomar conhecimento dessa análise, depois de ouvir o Conselho de Defesa Nacional e tendo em conta as diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa. Um dos pontos dos quais não vamos abrir mão é o compromisso da empresa de promover a transferência irrestrita de toda a tecnologia de ponta.

Fonte: Blog do Planalto

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MARINA NA TV - UM PROGRAMA PARA SONHAR

Kurozawa e o seu sonhos.


Ontem, Marina Silva foi ao ar, apresentada pelo PV como sua provável aposta presidencial.
Fernando Rodrigues disse, hoje, em pequena nota acerca do programa, que ainda falta achar o tom.

Respeito a fala do jornalista da UOL, mas vejo nela pouca especificidade, parecendo mais confundir do que explicar. Aliás, tão sugestiva quanto o que o PV apresentou na televisão.

O programa de Marina foi uma carta de apresentação à população. Em suma, mostrou sua história e sua vinculação recente ao PV.

Ao falar de sua tragetória, o programa construiu uma narrativa em que Marina foi apresentada como alguém de origem simples (tal com Lula) mas que teria se escolarizado e portanto, vencido! Alcançando ao fim, prestígio e reconhecimento internacional. Seria portanto, uma pessoa tal como Lula, mas com algum ingrediente a mais.

Mas em seu programa não confrontou Lula. Enviesou para o tema da educação, afirmando que faltava ao Brasil desenvolver qualitativamente este setor, para dar um salto de desenvolvimento. Sua figura, da forma como foi apresentada, ajudou a afirmar isso como meta.


Marcas do discurso

Abaixo, destaca-se o que parece mais importante como marca do discurso e suas intenções:
a) Marina foi apresentada, por que o público em geral não conhece sua vida, sendo que esta possui traços que talvez possam chamar atenção do eleitorado, e fazê-la subir nas intensões de voto em pesquisas futuras (desde que este eleitorado seja estimulado pelo fator imagem do candidato e não por outros como políticas públicas). Dilma deveria fazer o mesmo e apresentar sua tragetória de vida, para humanizar sua figura e para fazer liame com a gestão do governo Lula e sobretudo, para explicar, a confiança preferencial de Lula a sua pessoa;

b) Marina foi apresentada como uma figura que defende algo que é inerente a sua plataforma. Parece ser também esta a aposta de Serra ao explorar a temática da saúde. Mas quando Serra se posiciona como bom gestor, então estará em campo minado, e as críticas eclodirão;

c) A candidata verde aposta neste momento da campanha na subida de seus indicativos eleitorais. Tem que ultrapassar Ciro, que estagnou. Isso implicará em apoio político e financeiro, necessários para a decolagem de sua campanha.

d) Essa aposta de Marina foca, agora, o tema da educação para que ela seja percebida como a candidata com sensibilidade social (tal como Lula), mas que foi além no plano da educação formal. No entanto, não explica como faria isso. Ao contrário, apenas apela para um tom de esperança, e afirma ter um novo modelo (coisas do discurso do PV, já presentes na última campanha de Gabeira).

O fato é que o programa de Marina apostou, num tom simbólico: da sua pessoa, dos seus temas (não deu especificidade, não explicou o faria), do futuro (por que as pesquisas indicam um cenário prospectivo otimista), e da idéia de um modelo de gestão (que deve ser apresentado futuramente). Mas uma coisa é certa, e os verdes já provaram isso em outras campanhas, quando eles apresentam seu plano de governo, são exageradamente generalistas, com uma fala que pauta mais, os esquemas sistêmicos e menos, as ações específicas. Isso faz do seu discurso mais uma plataforma simbólica de idéias do que um projeto de governo efetivo e imediato.
Eduardo Paes apostou detectou isso na campanha de Gabeira e virou no segundo turno carioca.

A consequência dessa postura é que somente a parte da população menos interessada em alguma política pública efetiva (o contrário disso são os mais pobres, ou os submetidos a um estado de crise - cidade violenta, por exemplo), ou ainda, aquela que ainda sofre com a questão da generalização negativa dos partidos politicos (que declara as falas: são todos corruptos, ou são sempre os mesmos!) pode embarcar numa onda de Marina, estimulados por uma fala como esta.

Como o programa dela mesmo disse, para entender o Brasil que ela propõe, mais do que o concreto, é preciso imaginar. Marina termina seu programa com a palavra de ordem: Imagine!


A política como um sopro palatável. Símbolo abstrato, do onírico, do profundo, do agradável. Soft.
O programa de Marina.



BLOG DO PLANALTO: PAC MUDOU A CONDIÇÃO DE SE INVESTIR NO BRASIL

Um dos pontos fortes do PAC, que teve seu balanço de três anos divulgado nesta quinta-feira (4/2), foi o envolvimento dos funcionários do governo na montagem dos projetos. Com isso o governo teve que readequar a máquina administrativa para atender as demandas, mudando assim as condições para se investir no País. A avaliação foi feita pela ministra Dilma Roussef (Casa Civil) em entrevista coletiva concedida após a cerimônia realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília.

“O desmonte do Estado brasileiro nos últimos anos fez com que o País perdesse um pouco a capacidade de executar”, afirmou. Dilma Rousseff lembrou as diferenças salariais entre servidores públicos e empregados da iniciativa privada, justificando a realização de concursos como forma de fortalecer o Estado.

Ao ser questionada sobre o aumento do volume de restos a pagar, que chegou a R$ 25 bilhões nos últimos três anos, e se isso pode atrapalhar a execução orçamentária do ano e a próxima administração de governo, Dilma afirmou que é preciso trabalhar para se ter uma forma de execução de investimento diferenciada em relação à forma de execução de custeio. Já o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) disse que não há problema algum em se ter restos a pagar e que a questão ter que ser avaliada mais de uma forma jurídica do que política, como alguns vem fazendo.

Dilma Rousseff explicou também que a execução das obras e a fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) se dará com muito diálogo e entendimento. Embora reconheça divergências entre o agente fiscalizador e o governo, as obras propostas no âmbito do PAC serão realizadas. A ministra admitiu que não foi possível incluir a construção de metrôs em cidades que sediarão os jogos da Copa 2014 por questão de prazo de conclusão, mas deixou acertada que elas serão colocadas no PAC 2, para os anos 2011/2015, que vem sendo preparado pelo governo.

Fonte: Blog do Planalto

LULA, O FILME - INÁCIO ARAÚJO COMENTA

Ao contrário do que dizem, com uma bonita camisa.


Já que a mídia, mal o sujeito faz alguma coisa, desce a lenha, deixo aqui um texto sincero (agora que passou o rebuliço) que diz o que alguém pensa, sem segundas intenções.



Lula, o filme

“Lula, o Filho do Brasil” pode não ser um filme que vai entusiasmar os cinéfilos, nem tem muito por quê.

Cumpre as convenções que tem de cumprir um filme acadêmico, um filme feito para o sucesso. Ponto.

Mas é um produto complexo, desses de que se poderá falar por anos. Se der certo, em especial.

Há muitos aspectos a destrinchar. Vou apenas nomeá-los. Depois, conversa-se a respeito.

1) A mãe. O presidente tem razão: não é um filme sobre ele, é sobre a mãe dele.
Ou antes, é um filme sobre “a mãe”, a maternidade, os milhões de mães pobres que criam os filhos depois que os maridos ou parceiros desaparecem do mapa sem dar explicação. O filme investe sobre isso. Faz do pai um vilão que, lendo o livro, não percebi muito bem. O fator de identificação com as mulheres é muito forte.

2) O filho. É um sobrevivente. O brasileiro é um sobrevivente (sempre que sobrevive, claro). Fator de identificação com os homens.

3) Um homem pobre, não muito alfabetizado, chega à presidência da República. É o triunfo do “homem qualquer” (não no mau sentido, claro). É o fulano com quem qualquer pessoa pode se identificar e que triunfa, chega à presidência.

4) É um filme do culto da personalidade? Se eu fosse presidente nunca deixaria ninguém fazer um filme sobre a minha vida eu estando na presidência.
Me parece imprudente. Pode-se cair no ridículo ou no culto da personalidade. Talvez por isso minhas chances de chegar à presidência, ou mesmo à vereança, sejam praticamente nulas. Agora, também não dá para engolir essa de “pensamento único”, como se houvesse uma ditadura lulista em andamento. Não é isso. O presidente consentiu no filme, me parece, como outros consentem em que se escreva um livro sobre eles. Acho que é sensibilidade. Não acredito em cálculo político.

5) Será uma peça de campanha? Me parece que não, a menos que os publicitários decidam trabalhar a imagem de Dilma Rousseff como a mãe protetora do Brasil. Se isso acontecer, o filme pode entrar na roda. Caso contrário, acho que está perfeitamente isolado: é a história de uma mãe.

6) Qual a semelhança com “2 Filhos de Francisco”? Bem, há dois tutores fortes, no primeiro caso, um pai. No segundo, a mãe. Mas Francisco tem um quê de novo rico (digo isso: no filme, tal como é representado, não quer dizer que ele seja isso): seu horizonte é o êxito, a fama como maneira dos filhos saírem da pobreza. (Acho que isso não é verdade, na vida real: se não fossem sucesso, os filhos de Francisco seriam bons cidadãos, então tenho a impressão de que ele fez mais do que o filme diz). Já a mãe de Lula cria os filhos, um bando, porque cria, para que sobrevivam. Ela não visa o sucesso. Nisso, acho que identificação de “2 Fihos” é com os “vencedores”, os que são ricos ou acham que ser é indispensável. A identificação que “Lula” propõe é de outra natureza: somos brasileiros, nordestinos sobretudo, que lutam para sobreviver, para quem sobreviver é o heroísmo (ei, isso é quase Samuel Fuller).

7) “2 Filhos” não tem história. É filho do country. É recente. É novo-rico no sentido cinematográfico também. “Lula”, ao contrário, descende de “Vidas Secas”. Não acredito que o cachorro largado ali esteja por acaso. Em “Vidas Secas”, Baleia vinha junto. Aqui, o cachorro fica. É uma perda a mais. Mas “Vidas Secas” abria um ciclo no cinema novo, na vida de Luiz Carlos Barreto.

“Lula” encerra. Pode-se pensar que o Brasil melhorou nesses 45 anos. Me parece que sim, aos trancos e barrancos, com e sem ditadura, mas caminhou. Mas se os dois filmes servem para aferir o caminho cinematográfico, ficcional da nação, então demos para trás. As coisas não caminham necessariamente juntas, ao mesmo tempo. “Lula” é acadêmico, como um monte de outros filmes brasileiros. Ou mundiais, vamos ser francos. O cinema é algo a ser repensado em vários sentidos. Para falar com as massas agora será assim: dramaturgia evidente. Será difícil escapar disso. Bem, nesse sentido “Lula”, me parece, é eficaz. Se a publicidade caminhar bem, pode funcionar, sim. As decorrências políticas, na verdade, veremos depois. Não é um filme de campanha, isso é verdade. Mas pode, sim, produzir um clima capaz de favorecer a candidata do presidente.

Por Inácio Araujo às 10h58

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

CAMARADAS, EU VI!



"Não pode haver controle social de forma alguma”, declarou o vice-presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra) durante os debates da 1a Confecom, impregnados pelo aroma da luta de classes

Pedro Pomar*

Camaradas, eu vi a ex-prefeita Luiza Erundina chorando — não por causa da multa em dinheiro que lhe foi imposta por uma sentença judicial absurda, mas por pura felicidade, por legítima emoção, por testemunhar a aprovação de tantas medidas de democratização da mídia que há anos vinha defendendo ao lado de tanta gente.

Vi jovens de vinte e poucos anos de idade, moças e rapazes, abordando e destrinchando complexos temas da comunicação social com enorme sem-cerimônia, com enorme facilidade, com enorme coragem; e nesse passo destruindo falácias, desmontando discursos ignóbeis, ajudando a abrir, a seu modo, “as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor” (Allende).

Vi Jerry Oliveira, coordenador da Abraço-São Paulo, dando cabriolas no auditório, qual criança, ao comemorar a anistia (isso mesmo, anistia!) concedida, sem votos contrários, às rádios comunitárias — “em espírito”, é claro, ainda sem força de lei, mas com todo o simbolismo e a legitimidade possíveis, numa Conferência, afinal de contas, comandada pelo Ministério das Comunicações...

Vi o vice-presidente da TV Bandeirantes, Walter Ceneviva, “reger” qual maestro de orquestra a bancada de delegados empresariais, mandando votar contra, a favor e se abster, e o vi correr de um lado para outro, a fazer articulações e conchavos...

Camaradas, eu vi Frederico Nogueira, vice-presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (ABRA), inscrever-se para falar contra a proposta 193 (“Garantia de mecanismo de fiscalização, com controle social e participação popular, em todos os processos como financiamento, acompanhamento das obrigações fiscais e trabalhistas das emissoras”) e declarar o seguinte: “Sou totalmente contra. A radiodifusão no Brasil é altamente fiscalizada”. E acrescentou: “Não pode haver controle social de forma alguma”. E fiquei estupefato diante de tamanha franqueza... (felizmente, a proposta foi aprovada por 51% a 46% dos votos).

(Re)vi no aeroporto de Brasília, pouco antes de retornar a São Paulo, um delegado do segmento empresarial, na verdade funcionário de uma empresa de telecomunicações, com quem conversara em Cuiabá, na Conferência Estadual de Mato Grosso. Após cumprimentos, dele ouvi mais ou menos o seguinte: “Vim para cá representando os empresários, você sabe, mas gostei muito do debate e votei várias vezes nas propostas de vocês”.

Vi um veterano da luta pela democracia no Pará, o jornalista Paulo Roberto Ferreira, indignar-se no seu grupo de trabalho (GT 4) e esbravejar com um delegado malandro que, embora portador de um crachá da sociedade civil, pronunciava-se e votava como representante patronal tosco e reacionário...

"Otimismo da ação”

Camaradas, tudo isso eu vi, e mais ainda, e decorridos mais de 30 dias de sua realização, ao rememorar fatos, gestos e imagens marcantes, dentro do esforço de avaliar a 1a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), só resta concluir que essa experiência foi bastante positiva e, de modo geral, favoreceu a população brasileira, os movimentos sociais que a representam e todos os que lutam pela democratização da comunicação social em nosso país. Obviamente, as etapas preparatórias foram parte indissociável da conferência, moldando sua configuração e seu desfecho.

Como negar, diante do teor da imensa maioria das 672 propostas aprovadas, que a 1a Confecom contrariou as expectativas iniciais pessimistas de um ponderável setor dos movimentos sociais, no qual este autor se incluía? A maior parte das principais propostas da “sociedade civil” foi aprovada, o que constitui importante vitória simbólica (política, ideológica) e referência fundamental para os embates futuros. No entanto, foi precisamente a combatividade dos movimentos populares organizados, grupos e entidades comprometidos com transformações, que garantiu esse resultado. Todos, mesmo os mais céticos, pautaram-se por Gramsci: “pessimismo da inteligência, otimismo da ação”.

Porém, igualmente, as medidas recomendadas pela Confecom não sairão do papel sem enorme e conseqüente pressão do movimento social. Basta ver como reagiu a mídia hegemônica diante do PNDH 3 (que inclui algumas diretrizes de democratização da comunicação social). Embora diversas avaliações tenham destacado o papel progressista dos segmentos do grande empresariado que toparam participar da Confecom (as teles, representadas pela Telebrasil, e a dissidência dos conglomerados de TV, representada pela ABRA), vale lembrar que também com esses segmentos persistem agudos antagonismos. (O pesquisador Venício Lima, em artigo recente, apontou para esta direção ao “nadar contra a corrente”, chamando atenção não para itens aprovados, mas precisamente para as propostas do movimento social derrotadas na Confecom por obra do setor do capital ali presente.)

A participação destes segmentos deu-se a um custo apreciável. A cada passo do processo de organização da Confecom o governo cedeu a sucessivas chantagens dos conglomerados “progressistas” (e a maioria das entidades da sociedade civil com assento na Comissão Organizadora Nacional-CON sucumbiu à pressão), fazendo diversas concessões. Assim, achatou a representação dos movimentos sociais, limitando-a a 40% dos delegados, e superdimensionou a delegação da chamada “sociedade civil empresarial”, dando-lhe idêntica proporção (fatos inéditos em conferências nacionais). Adotou o chamado “tema sensível”, dispositivo exorbitante mediante o qual um determinado segmento (adivinhe qual) poderia exigir, imediatamente antes da votação de uma proposta, maioria qualificada (60%) para sua aprovação. Depois, impediu as conferências estaduais de votarem propostas (!!!), atitude indefensável cujo subproduto foi entupir de propostas a Confecom (6 mil).

"Tema sensível”

O último capítulo desse jogo de pressões empresariais deu-se na plenária inicial da Confecom, que votou o regimento. A CON havia decidido, dias antes, que o “tema sensível” seria aplicável apenas à plenária final, mas não aos grupos de trabalho, caso contrário praticamente nada seria aprovado nestes. Então, ABRA e Telebrasil decidiram praticar a derradeira chantagem: sem “tema sensível” nos GTs, abandonariam a conferência, pois não tinham segurança de ver aprovadas as propostas que defendiam. Pressionaram diretamente o governo, que, por sua vez, passou a pressionar fortemente a CUT e outras entidades com assento na CON para que recuassem, o que ocorreu. Desta vez, contudo, as bases estavam por perto. E protestaram com veemência.

O impasse foi superado por iniciativa de Renato Rovai, diretor da revista Fórum: apoiado por Altamiro Borges, do portal Vermelho, ele costurou inteligentemente na plenária uma proposta de acordo que, aceito pela liderança empresarial, e depois ratificado pelo voto de ampla maioria dos delegados de todos os segmentos, salvou os GTs da morte precoce. O famigerado mecanismo do “tema sensível” foi substituído no regimento por um outro dispositivo, que permitiria à bancada empresarial enviar à plenária final pelo menos quatro propostas por GT, à sociedade civil enviar outras quatro, e ao poder público duas, desde que obtivessem entre 30% e 79% dos votos. (Propostas com 80% ou mais dos votos num GT seriam aprovadas diretamente, sem ir à plenária, e isso não mudou.)

Deletado dos GTs, o “tema sensível” foi mantido para a plenária final, onde permitiu às teles e radiodifusores vetar várias propostas importantes dos movimentos sociais, caso da 425 (“Promover a separação estrutural de redes, determinando o desmembramento das empresas de telecomunicações em empresas detentoras de redes e outras prestadoras de serviços”), rejeitada embora tenha conseguido 51% dos votos; da 427 (“Fortalecer a Telebrás utilizando, entre outros, recursos do FUST” — que vem a ser o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações — “para fornecer serviços de telecomunicações e coordenar a criação de infra-estrutura pública a partir de redes ociosas das empresas estatais, privilegiando o investimento em áreas de baixo IDH” etc.), rejeitada apesar de obter 54% dos votos; da inofensiva 440 (“Aprovar legislação que determine cotas crescentes nas emissoras de televisão de sinal aberto e fechado para a veiculação de animação produzida nacionalmente, garantindo participação majoritária de produções independentes” etc.), apesar de receber 53% dos votos...

A indignação dos movimentos sociais diante do uso, pelo empresariado, do “tema sensível” acabou provocando uma retaliação nos mesmos moldes. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro, quando os delegados dos movimentos passaram a pedir “tema sensível” para propostas de interesse da ABRA e da Telebrasil! É notável que, embora nenhuma das propostas do empresariado para as quais os movimentos exigiram “tema sensível” tenha obtido sequer maioria simples, em várias votações os números foram preocupantes, na medida em que revelaram, pontualmente, maior adesão dos delegados do setor público (o fiel da balança) às teses empresariais. Assim, por exemplo, a proposta 192 ― “não bi-tributação nos serviços de telecomunicações, enquadramento no SIMPLES pela capacidade econômica e não mais pela natureza do serviço” ― foi rejeitada, tendo o “não” recebido 49% dos votos e o “sim” outros 49%!

Também a proposta 430, sobre um Plano Nacional de Banda Larga que contemplasse “a desoneração tributária dos serviços e investimentos”, foi rejeitada por 409 votos (51%) a 399 (49%). Outras propostas de desoneração tributária foram rejeitadas, como a 15, que reduzia as taxas do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações, o Fistel (50% a 49%).

Apesar desses reveses, os conglomerados presentes na Confecom viram aprovadas algumas propostas de seu interesse, como a 718, que garante “a distribuição dos conteúdos brasileiros, locais e regionais, com a proibição de controle por determinado grupo de programadores de conteúdo com mais de 25% da grade de programação em qualquer plataforma fechada de distribuição (MMDS, DTH, Tv a cabo, celular etc.)”. Essa medida tem endereço certo, pois ataca o monopólio que a Globo exerce atualmente na distribuição de conteúdos da TV por assinatura (microondas, satélite e cabo). Outras propostas mais avançadas do que esta foram aprovadas por unanimidade, com a cumplicidade da ABRA e Telebrasil, pois claramente criam mais dificuldades para a Globo do que para elas.

Conquistas

Para encerrar este balanço, apontamos algumas das medidas conquistadas na Confecom e cuja implantação concreta certamente pautará as próximas lutas:

*712: “Criação de Conselhos de Comunicação nos âmbitos federal, estaduais e municipais, de caráter paritário, com membros eleitos”. Entre suas atribuições deverão constar “a regulação de conteúdos, política de concessões, mecanismos de distribuição”.

*79: Nos processos de outorga de emissoras de rádio e TV, estabelecer como quesitos a “preferência aos que ainda não têm meios de comunicação, o fortalecimento da produção cultural local e a ampliação de empregos diretos”, bem como “a maior oferta de tempo gratuito disponibilizado para organizações sociais e produções independentes”. Na renovação das outorgas, “deve ser observado a) o respeito à diversidade e o tratamento dado à imagem da mulher, da população negra e indígena e da população LGBT; b) a regularidade trabalhista, fiscal e previdenciária; e c) o cumprimento do disposto no artigo 221 da Constituição Federal” (“preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente; regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”).

* 199: “Criar mecanismos de fiscalização, inclusive com ações punitivas, para emissoras de rádio e TV que veiculem conteúdos que desvalorizem, depreciem ou estigmatizem crianças e minorias historicamente discriminadas e marginalizadas (negros, LGBTs, comunidades de terreiro, mulheres, pessoas com deficiência, idosos, indígenas)”.

* 788: “Reparação e anistia para os comunicadores processados e ou punidos por operarem rádios comunitárias sem outorga”.

*Lei de Imprensa, diploma de jornalista, “cláusula de consciência” para comunicadores profissionais (jornalistas e radialistas).

* 28: “Que a EBCT (Correios) ofereça tarifas diferenciadas de serviço para as pequenas empresas de comunicação e que crie uma operação para romper o atual monopólio existente no setor de distribuição de periódicos (jornais, revistas, livros e produtos culturais em geral)”.

*417: “Criação do serviço de banda larga a ser prestado em regime público, por meio de diversas tecnologias, com metas de universalização do acesso, metas de qualidade, controle de tarifa e garantia de continuidade”. 421: “O acesso à Internet banda larga é um direito fundamental e deve ser garantido pelo Estado”, “garantindo a gratuidade do serviço sempre que necessário”.

* 745: “Desenvolver políticas para a criação de núcleos comunitários de comunicação com a perspectiva de fornecer os aparatos técnicos e instrumentais permitindo que a sociedade construa, socialize e discuta suas próprias pautas e produções”.

* 716: “Que os meios de comunicação veiculem conteúdos de caráter educativo, cultural, informativo e ambiental de países latino-americanos, estabelecendo a política de integração da América Latina”.


*Pedro Estevam da Rocha Pomar, jornalista e doutor em ciências da comunicação, foi delegado à Confecom pela sociedade civil de São Paulo. O presente artigo é uma versão revisada de texto originalmente publicado no jornal Página 13 edição eletrônica, n. 6, 1/2/2010.

O ESTADÃO BLEFA – SERRA NÃO É O FAVORITO. ENTENDA AS RAZÕES

Ao PIG restará dizer: Foi sem querer querendo!


Entramos em mais um período de publicações de pesquisas eleitorais. Mais uma vez, os fatores de realidade mediadoras da avaliação política confirmaram o prognóstico que o Adicional Contradicción tem apontado desde o ano passado: Serra estagnado, Dilma subindo, tanto nas indicações de voto estimulado (supostamente consolidados) e espontâneo (que indicam a tendência pela qual o eleitorado tende a fixar-se).

Acerca desses dias de pesquisa alguns elementos devem ser considerados. O Estadão falou e disse, agora é minha vez:


A mídia esconde o jogo

Nos últimos dias duas pesquisas foram realizadas e publicadas, A pesquisa Sensus/Confederação Nacional dos Transportes e a Vox Populi de janeiro de 2010. Esta última encomendada pela Rede Bandeirantes de Televisão era por todos aguardada, mas a rede de televisão demorou dias, mesmo sendo de conhecimento pela internet que a mesma já tinha sido encerrada. Mas então, por que tanta reserva? A resposta estava nos números: a pesquisa revelava que Dilma Roussef (PT) teria avançado 9 pontos percentuais em relação a última pesquisa realizada pela Vox Populi, no mês de dezembro.

A candidata do PT apareceria com 27% das intenções de voto, e José Serra com 34% .

Na pesquisa anterior da Vox Populi, publicada em dezembro, apontava um cenário no qual Serra obteria 39% dos votos contra 18% de Dilma.

Apesar disso a mídia-PIG, pró-Serra tem abusado dos recursos retóricos, tais como os estampados pelo Estadão, quando publicou o resultado desta pesquisa: “Serra é o favorito na corrida presidencial”.



A mídia não convence

Um fator que deve ser observado é que mesmo a mídia dando excessiva prioridade a Serra em suas veiculações e escondendo seus pontos fracos, em franca marcha publicitária, campanha antecipada em uma lógica hipócrita de imparcialidade midiática, o fato é que Serra diminuiu seu percentual de preferência eleitoral nos indicativos de pesquisa.

Se o alto investimento em campanha publicitária via Sabesp e publicidade do Metrô não tem dado resultado, a radicalização da mídia vai repetir o efeito de 2006 de repúdio do eleitorado em relação ao estímulo midiático.

A questão que está por trás disso não é o quanto o sujeito que assiste televisão pode ser “convencido” por ela, mas que em relação às questões eleitorais, muitas vezes, fatores de realidade extra-midiáticas pesam mais que os midiáticos, sobretudo quando estes não confirmam a realidade percebida “fora da tela”.

Esse foi o cenário experimentado pelo Brasil em 2005 e 2006; imagine agora que Lula consolidou sua administração e estão em alta fatores de ordem externa, como políticas públicas e melhoria do quadro de empregabilidade, estabilidade econômica e poder de compra salarial. E mais, que a classe média também passa a usufruir desses diferenciais.

Não adianta ser dono da bola se há mais de uma bola à disposição!

Esse fator por vezes é desconsiderado pelo profissional de marketing e mídia, que inundado em seus afazeres percebe que a população recebe suas informações e por vezes faz dela ponto de discussão de temas. Mas o que não percebem, por vezes é que a mídia concorre com o convencimento do mundo (e isso não vale somente para o ambiente de publicidade política). O convencimento político vai além do sintoma de marca muito trabalhado pelo sensacionalismo midiático, que toma como base estruturante do seu discurso privilegiar fatores positivos do objeto a ser vendido.


César Bolaño, importante estudioso de Economia Política da Comunicação, explica tal questão ao tratar do conceito habermasiano de Lebenswelt (reprodução simbólica no espaço da vida). Ele aponta que a Indústria cultural só é capaz de “colonizar” o mundo da vida para o capital e para o Estado quando consegue substituir os mecanismos internos de reprodução simbólica do mundo da vida.

A pesquisa Sensus confirma isso. Acerca dos meios que o eleitor indica como influenciador de sua escolha: opinião própria 55,5%; amigos e familiares 14,2%; propaganda eleitoral 6,3%; os meios de comunicação: televisão 13,8% (já foi maior o seu poder de influência: 24% em jul. 98); jornais 3,9% (outrora 10% em jul. de 1998).


O problema é que os meios de comunicação no Brasil torcem para um time e a maior parte da população brasileira torce para outro.

Não adianta a mídia tentar esconder os alagões por todo o estado e o caos do transporte suburbano na capital paulista (ônibus e trens). As pessoas nas ruas têm comentado o que tem sentido na pele.

E também não adianta tentar explicar que não tem responsabilidade. Aliás, ontem, o Canal Livre, claramente direcionado a livrar a barra do Serra acerca dos alagões, não deu conta disso.

Quem não desiste também é o governador Serra, segundo informou o blog do Zé: José Serra quer passar a imagem de tocador de obras. Já inaugurou obra inexistente (linha de metrô que não foi sequer licitada); obra que só fica pronta daqui a um ano (piscinão entre Osasco e SP); e agora quer inaugurar obra inacabada - entregar o rodoanel antes de abril, mesmo que não esteja pronto. Já o prefeito Gilberto Kassab (DEM-PSDB) telefonou ao presidente Lula pedindo que o PT não explore enchentes esse ano.

Essa conduta é indicativo forte de que o fator políticas públicas está pesando para a decisão eleitoral.



E a pesquisa Sensus?

Essa vem confirmar elementos que também o Adicional Contradición tem apontado em análises do comportamento eleitoral e que destoam do que tem dito os meios de comunicação em geral: Estado, Folha e analistas “oficiais” de institutos como Montenegro em relação ao IBOPE:

1. De imediato a pesquisa claramente indica um cenário prospectivo otimista, ou seja, as pessoas tem a percepção de continuidade e que é possível esperar melhoras na sua condição de vida em virtude de um processo contínuo de políticas públicas. No pano de fundo, mesmo que no inconsciente da maioria, está a percepção de que as coisas demoram para se sedimentar, mas que o governo Lula permite esperar melhoras.



O governo Lula pode ser o governo do PT?

1.1. Os estudos tem demonstrado um aumento substancial da preferência partidária em relação ao PT e a estagnação dos demais partidos.

1.2. Outro fator que confirma este prognóstico é que, ao contrário dos analistas da imprensa oficial, Lula e seu governo tem demonstrado clara capacidade de transferência de voto. É importante salientar que especialistas como Lavareda, mesmo tendo trabalhado tradicionalmente com o PSDB e DEM, indica em seu último livro “Emoções Ocultas e estratégias eleitorais”, que o convencimento eleitoral nem sempre pode ser modulado por uma estratégia midiática e deve considerar fatores subjetivos e da realidade social.

Portanto, parece claro que o cenário é amplamente favorável a uma percepção positiva do candidato de Lula e sua aceitação pela maioria. Observa-se, na pesquisa Sensus, a confirmação deste indicativo no denominado índice de avaliação (54,86) e índice de expectativa (74,10). Ambos, altamente positivos, indicam que os fatores: emprego, renda mensal, saúde, educação e segurança pública gozam de uma avaliação positiva segundo a percepção do brasileiro. Os fatores saúde e segurança pública são os de menor avaliação positiva, no entanto mesmo eles gozam de alto índice de expectativa positiva. O que confirma um cenário prospectivo positivo em virtude da condução de Lula e do governo petista (a aprovação de Lula supera o índice de 80% do eleitorado).



Mas se é assim por que Dilma ainda não virou?

2. Por que Dilma não conta com a mídia para fazê-la conhecida; e tampouco para passar uma imagem positiva dela. Mas ainda assim, não tendo sido ativado o fator de sua imagem, conseguiu empatar tecnicamente com Serra logo no início do ano.

Parece certo que quando as pessoas conhecerem a história de vida de Dilma e seu papel no governo Lula, sendo alguns desses elementos contados pela pessoa de Lula, então o fator de sedimentação da candidata do PT fará com que ela consolide sua virada; embora não seja ainda possível apresentá-la como candidata, posto que isto caracterizaria campanha antecipada.



Dando uma de Eliane

Imitando um pouquinho o Fernando Rodrigues, o Josias de Souza e a Eliane Cantanhede, que estão sempre a aconselhar o candidato tucano, seja para escolher melhor as palavras, seja no nó de sua gravata, aí vai uma pequenina dica para aqueles que querem contribuir positivamente com a campanha de Dilma: é interessante que nos meses de janeiro, fevereiro e março a internet seja inundada com o histórico da candidata petista. Contar sobre sua estória política e sua vida particular, família, local de nascimento, onde fez sua vida, como passou a ter a confiança de Lula.

Porém é importante pensar que a maior parte do eleitorado não é leitora de blogs e sítios políticos na internet e por isso o boca a boca deve começar. Começar entre os seus simpatizantes e não entre aqueles que indicam alguma indisposição psicológica, ainda que não entendam bem a causa. Começar contando entre os simpatizantes que não a conhecem, pois estes farão o embate com os resistentes de forma mais natural que militantes e eleitores orgânicos.

A virada, em verdade, está ocorrendo processualmente. A demorada pesquisa Vox Populi indica a mesma diferença de 5% percentuais que a pesquisa Sensus, mas com um detalhe: na pesquisa do mês anterior, a diferença entre Serra era de 21%!



E o que podemos esperar nas próximas pesquisas?

Uma maior definição do eleitorado. Tanto mais baterem em Dilma e em Lula (mais ativarão o eleitorado favorável a votar no candidato do PT), por isso a mídia está tentando atacar pelas beiradas. E deixam o discurso violento para a imprensa escrita que é lida por uma parte pequena do eleitorado.

A pesquisa Sensus indica que 53,1% do eleitorado ainda não decidiu. E indica também que:

1. Dilma é a primeira colocada no voto espontâneo – 9,5% (que indica a tendência da decisão do eleitorado) – ou melhor: é a segunda, pois perde para Lula (18,7%) que não é candidato. Marina, Ciro e Aécio não indicam tendência de crescimento;

2. O cenário como vimos é prospectivo e otimista em relação à condução do governo petista; para a maior parte do eleitorado, as coisas vão melhorar;

3. A diferença entre Serra e Dilma é de menos de 5%, na pesquisa anterior substancialmente maior;

4. Os índices de rejeição de Dilma já são menores do que os de Serra e os demais candidatos. Significa que quanto mais ela está sendo conhecida, melhor tem sido sua aceitação;

5. Dilma é a mais desconhecida entre os candidatos, só perde para Marina (ainda tem muito para crescer, ops, estou falando da Dilma). Serra já é conhecido e corre mais riscos com desgastes sedimentados em longo e médio prazo;

6. Por falar em desgastes de longo prazo, lembremos do fator FHC (Serra, afoga logo o FHC!), agregado à figura do candidato tucano, de seu partido (PSDB), do presidente a quem serviu e da polarização temática do desempenho entre FHC e Lula, que será inevitável. Como conseqüência drástica Serra tende a ser mais rejeitado. Isso aconteceu com Alckmin, no segundo turno de 2006, quando este fator foi trabalhado na campanha eleitoral.

A tendência robusta é do crescimento de Dilma. Isto por que conta com fatores constituídos a longo e médio prazo que ainda não foram expostos para a maior parte do eleitorado. Serra já está trabalhando diretamente com tais fatores, midiática e extra-midiaticamente, tentando fazer transparecer realizações de governo – os quais podem mui bem ser ofuscados por deslizes de gestão que tem, literalmente, emergido das águas da administração tucana em São Paulo.