terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VOTO ESPONTÂNEO E CENÁRIO DE OTIMISMO: FATORES QUE DEFINEM UMA CAMPANHA, MAS O JORNAL NACIONAL E O IBOPE NÃO FALAM DISSO.





Gostaria de comentar alguns pontos presentes nas últimas pesquisas quantitativas acerca do comportamento eleitoral, tendo em vista as eleições de 2010.
Se é verdade que José Serra aparece na primeira colocação nos indicativos de pesquisa, por outro lado, também, deve-se considerar alguns fatores:
a) primeiramente, que a maior parte do eleitorado, ainda, não ingressou no clima decisório, o denominado clima de campanha ainda não foi instaurado;
b) parece claro que a maior parte do eleitorado não tem se posicionado até agora, provavelmente, somente, um eleitorado orgânico e residente em sua maioria em grandes centros. Todas as recentes pesquisas indicam um universo superior a 50% do eleitorado para votos de indecisos além de brancos, nulos (estes dois últimos detém uma média constante de 5% para Presidente da República) .
Contudo, o eleitorado que tem preferência partidária pelo PT e também aquele que referenda Lula com aceitação sem precedentes históricos, não parece completamente percebido nas pesquisas, no entanto, as pesquisas de dezembro apontam que:
- 20 % (Data Folha) e 15% (Vox Populi) votarão em Lula (então neste universo teremos ampla transferência para Dilma) – Dilma conta com 8% tal como Serra segundo do Data Folha, para o Vox Populi Serra tem uma pequena vantagem 11% a 7%;
- Ciro e Marina dividem 2 % (o que indica estabilidade e pouca condição de crescimento, além de transferência para Dilma), além de 1% para candidato do PT o que deixa claro a predisposição da maioria pela candidatura petista (tomando em conta fatores de motivação do voto, tanto quanto indicativos de tendência).
Importante salientar é que tomando em conta as respostas diretas sem o indicativo de nomes, 8% representa o percentual de eleitores que apontam espontaneamente o nome de Dilma (este já é igual ao de Serra). O indicativo do voto espontâneo é importante por que dá um panorama da tendência pela qual caminha um eleitorado que ainda não decidiu ou não conta com os recursos e clima para tomar decisão.

Os números nesse cenário são o de crescimento para Dilma e estagnação de Serra. Ao fim 13% de prováveis votos espontâneos para Serra (contando Aécio, Alckimin e Marina de lambuja) e 38% para Dilma (contando Lula, candidato do PT e Ciro).


O CASO DE GABEIRA E SUA IMPROVÁVEL IDA AO SEGUNDO TURNO – O INDICATIVO DA PESQUISA ESPONTÂNEA



Esse fator é tão importante que a força de um exemplo em que havia diferença entre os dados de pesquisa estimulada e espontânea, ajuda a entender essa dinâmica.
O caso de Gabeira em 2008 é elucidativo.
No início da colheita de dados de pesquisa, pode-se notar que, entre 26 e 27 de março de 2008, ainda sem um quadro definido de candidatos, em pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, Gabeira contava com 3% dos consultados em pesquisa espontânea de opinião eleitoral.
O eleitor de Gabeira, neste momento, na sua maioria, já sinalizava um repúdio a figura de Lula, que se demonstrou importante fator no segundo turno: 66,7% de seus eleitores avaliavam Lula como ruim e péssimo. Ao passo que 50% dos eleitores de Eduardo Paes consideravam Lula ótimo e bom, regular 25%.
Até então, o quadro eleitoral só se prestava para salientar uma boa parte do eleitorado tem em César Maia, até então prefeito da cidade, como referência para o cargo, tanto quanto, alguns traços da tendência opinativa do eleitorado de Gabeira e Paes.
No que tange as opiniões estimuladas, em que o nome de César Maia não podia ser computado, Marcelo Crivella, apesar de figurar em primeiro lugar, com 19% da intenção do eleitorado carioca, já demonstrava altos índices de rejeição eleitoral, 28% das opiniões.
César Maia tinha bons índices de referência do eleitorado por que até uma determinada fase, o eleitorado tende a rememorar o ocupante do cargo como possível candidato. Mas César Maia, diferentemente de Lula não representa para este caso, um fator decisivo do eleitorado, vez que não se posicionou em favor de uma determinada candidatura e também não era tão bem avaliado como Lula é, ao contrário.
Em 03 de julho de 2008, o instituto Datafolha realizou nova pesquisa, nessa Gabeira mantém a mesma tendência eleitoral e não há alteração no quadro de intenções.
Nos dias 21 e 22 de agosto de 2008 fora realizada nova pesquisa eleitoral pelo Datafolha. Nesse momento já podiam ser observadas alterações do comportamento dos eleitores uma vez que já se havia iniciado o período de propaganda política no horário eleitoral gratuito. Em 19 de agosto de 2008 deu-se o início da propaganda eleitoral gratuita, do primeiro turno, em televisão e rádio, que teria seu término em 02 de outubro do mesmo ano.
Pela primeira vez Eduardo Paes passa Jandira. A razão para tanto teria sido o desenvolvimento em relação a esta candidata de uma tendência de repulsa do eleitorado frente ao seu discurso na propaganda eleitoral, que fora percebido como exageradamente tendencioso à posturas de extrema esquerda, conforme aponta Nicolau (2008).
Com o desenvolvimento de uma campanha muito bem produzida e que aos poucos começava a ser percebida como fenômeno de recepção em televisão e internet, em 04 e 05 de setembro de 2008, no questionário de respostas espontâneas, o Datafolha percebe uma tendência de crescimento na adesão do eleitorado a Gabeira e a Eduardo Paes e uma forte queda de Jandira. Gabeira passa para a terceira colocação (nas intenções espontâneas) e Eduardo Paes assume a liderança, portanto, fica claro que o clima da campanha eleitoral ativada pelo horário eleitoral gratuito e pela campanha de rua favorecem o crescimento destes dois últimos candidatos citados.
Em setembro as pesquisas indicavam pela primeira vez a tomada do posto de primeiro colocado por Eduardo Paes, veja-se que em 17 e 18 de setembro, Gabeira, na contagem de interações espontâneas, com 7% encontrava-se empatado com Jandira, Eduardo Paes aparecia em primeiro com 15% e Crivella em segundo com 12%. Definitivamente, Gabeira, em setembro, mantém uma maioria esmagadora entre os mais ricos, o que vai caracterizar uma percepção por parte do eleitorado em geral que Gabeira representa os mais ricos, isto é, aqueles que dominantemente residem na zona sul carioca. Essa impressão se confirma por todo o certame, e marca simbolicamente, uma clivagem de classe que vai se sedimentando no segundo turno, tendo como elemento indiciário desta na ordem objetiva, como referência mediadora de significado para o eleitorado em geral, o bairro em que residiam.
Em 29 e 30 de setembro, poucos dias antes do término do primeiro turno eleitoral Gabeira desponta em segundo lugar, com 13% das intenções de voto espontâneas, tendo Eduardo Paes em primeiro com 20%; somado a isso 8% de votos brancos e nulos, 30% de indecisos. Crivella aparece empatado tecnicamente em segundo com 12% (mas com clara tendência de queda; marca do clima dessa campanha). Nas respostas estimuladas há uma inversão, Crivella aparece em segundo e Gabeira em terceiro. Nesse momento, Eduardo consolida sua vitória de primeiro turno, distanciando-se do segundo colocado, percebendo-se, também, empate entre Crivella e Gabeira. Estava-se diante de um empate técnico e de uma indefinição do quadro do segundo turno.

Gabeira terminaria o primeiro turno, em segundo lugar, com 25,61% dos votos válidos, efeito de uma tendência de conquista do eleitorado que se deu com o decorrer da campanha.
Se observarmos o começo até, pelo menos, o meio do período de pesquisas realizadas sobre o certame carioca, o que se percebe é a improvável possibilidade de ida de Gabeira ao segundo turno e sua quase vitória.
O resultado do primeiro turno: Eduardo Paes venceu com 1.049.019 votos que correspondiam a 31,98% dos votos válidos e 27,91% do eleitorado que compareceu. Fernando Gabeira ficou em segundo lugar com 839.994 votos, 25,61% dos válidos e 22,35 dos eleitores que compareceram. A abstenção foi de 17,91% do eleitorado, segundo dados do TRE/RJ.


VOLTANDO A DILMA – O CENÁRIO PROSPECTIVO

Além do fator do voto espontâneo percebido em pesquisas não estimuladas, soma-se a questão do cenário prospectivo positivo, a revelar fatores que as pesquisas atuais e o enfoque da grande mídia (favorável à candidatura psdebista, em particular à de Serra) não tem apontado.
Esse cenário em que se percebe um eleitorado antes da eleição pensando um futuro de forma otimista (dada as boas condições que foram instaladas no Brasil com o governo Lula) pode ser visto como decorrente de duas tendências:
- uma ideológica (as pesquisas vem indicando, a aprovação de Lula somada ao crescimento de preferência partidária do PT e o já mencionado otimismo em relação ao futuro do país) e;
- uma de base materialista (políticas públicas realizadas pelo governo federal e a estabilidade econômica percebida diretamente pelo eleitorado por múltiplos efeitos, a mídia não tem conseguido negar esse fator de realidade, o que tem insistido em fazer é dar a impressão de que este bem estar é transitório, por que assim o clima de otimismo prospectivo é rompido – prestem atenção nos telejornais e programas de auditório).
Tais fatores ideológicos e materialistas levam a uma composição dialética de influências que mais uma vez corroboram um impulso do eleitorado pela candidatura petista à medida:
a) que o clima decisório avance (lembre-se do caso de Gabeira e como o clima eleitoral mudou as coisas, mas a partir do que já se percebia em outros fatores ainda não ativados na decisão);
b) que Dilma passe a ser conhecida como candidata de Lula e que também seja exposta sua estória de vida para fidelizar fatores emocionais de confiança (defendo que as pessoas que apóiem a candidata se preocupem em buscar um histórico da candidata e expor na internet e nos seus círculos de relacionamento já neste momento, por que não é adequado esperar mais);
c) que os supostos candidatos como Ciro e Marina definam suas posturas eleitorais.


Para saber a opinião do presidente do IBOPE e de quais fatores leva em consideração para apontar Serra como candidato eleito antecipadamente, leia:
http://lcacoman.blogspot.com/2009/08/falando-do-ibope.html

Para complementar a leitura com comentário de outros fatores de influência eleitoral leia:
http://lcacoman.blogspot.com/2009/05/dilma-rousseff-efetivamente-no-pareo.html

2 comentários:

  1. Luizinho, meu caro

    Você não vai postar nada sobre o falecimento do ilmo. coronel Erasmo Dias, implacável defensor da moralidade e linha dura com a bandidagem.

    Abraços de Sobral

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  2. É por isso que muitas análises da grande mídia vão fazer água nas eleições de 2010, e muitas análises da blogosfera - como a sua - se confirmarão.

    De fato, a população ainda não reconhece a candidatura Dilma (podem conhecer, superficialmente, o nome da Ministra, mas não a candidatura). O segmento da população orgânico ou que acompanha o noticiário político com maior interesse é claramente minoritário. Portanto, mais importante do que constatar os números das pesquisas é perceber a tendência que eles indicam. O Horário Eleitoral será determinante, especialmente para proporcionar à população uma imagem de Dilma que contraste com esta que vem sendo disseminada pela mídia: sem carisma, grossa, ríspida etc. Escrevi no meu blog sobre um jornalista que afirmou que a trajetória da Dilma é muito mais de "gerentona" do que humana. A cobertura cria um ambiente eleitoral, em que este tipo de afirmação é totalmente pertinente.

    Só o programa eleitoral da candidatura petista poderá reverter este enquadramento utilizado até agora para pensar a Dilma, e fazer com que o contingente populacional que conhece a Dilma possa efetivamente optar pela candidatura - superando uma ligeira rejeição inicial criada pela mídia. As condições são amplamente favoráveis para isso. A população aprova o governo, demanda continuidade das atuais políticas públicas e só precisa de informações para identificar uma candidatura com este perfil. A percepção da pessoa da candidata também será essencial para o crescimento da chapa governista, e também entendo como imprescindível tornar a figura de Dilma mais humanizada. Só tenho dúvidas sobre a viabilidade desta tarefa, sem o espaço na TV. Acho que a militância - seja on ou offline - têm ferramentas e alcance reduzidos: fala principalmente pra ela própria, e não tem a expertise, nem a afinação no discurso necessárias.

    Abraços

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