segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

ALUCINAÇÃO




“A história, com suas intensidades, seus desfalecimentos, seus furores secretos,
suas grandes agitações febris, com suas síncopes, é o próprio corpo do devir.
É preciso ser metafísico para lhe procurar
uma alma na idealidade longínqua da origem” (Michel Foucault).


A lógica da liberdade, quase sempre, é vinculada ao que o desejo pode mover. Posso desejar dias melhores, mais dignos; mas, posso desejar omitir fatos e minar a verdade. Os “doces venenos” engolidos feito ácidos e ervas libertadores dos anos 1960/1970 talvez desembocassem em firulas de um mundo cosmopolita e pop. Afinal de contas, Vietnã e Coréias se fundamentariam nas quebradas de um arco de “sossego e paz” para o discurso em praça pública (Martin Luther King, Black Panthers, mulheres com soutiens em brasa etc). Milton Nascimento antevia a liberdade (o artista deve estar na praça como preconizara o poeta Castro Alves), nas canções empreendidas com os irmãos Borges, com o paraíso “montanhal” de Minas como resenha (longe do estupro, da tortura, da repressão dos centros mais urbanos de Rio, São Paulo e Porto Alegre e, até mesmo, de BH); assim, a pílula contrarrevolucionária da maré mineira era o que Lennon e McCartney consumiriam por terras daqui, se tupiniquim o fossem. As Minas (agora sem ouro, expulsando seus puros – também os bastardos – para o choque) sem mar. De Juiz de Fora para mundo, para o Rio de Janeiro, para Paris ou Santiago, no exílio. Luis Carlos Maciel (baiano, creio) foi o jornalista que melhor sintetizou os anos de chumbo pela óptica moleca do underground, como se houvesse em suas análises um invólucro instalado sobre as casernas (José Genoíno diria tempo depois que os presos entoavam “Apesar de você” e outros cânticos do samba-iêiêiê, embasando Maciel). De fato, havia compaixão culposa e perversidade, por parte dos torturadores. A compaixão muda ante o sermão do “padreco da teologia libertação” no domingo com a esposa e os filhos. Perversidade na incômoda hora de trabalho. “Homens trabalhando. Parem. Contramão”: Caetano cantaria, já nos anos 1980, citando a “Construção”, de Chico Buarque de Holanda. Impossível não se recordar dos contos de João Antônio, nessa mesma rota, em que a muleta de qualquer sargento era instaurada pelo coturno pré-1964 (“Natal na cafua”, “Retalhos de fome de um tarde de G.C.”). Sujo, pesado e autoritário. Na face do recruta suburbano. É evidente que João Antônio contrastava com Maciel a partir dos “valores” que se estabeleciam: o escritor jornalista de São Paulo se confrontava com a aura “elegante, gente fina e sincera”, tópico vociferado tempos depois na voz do hedonismo carioca pós-anistia. A “gente fina” (eufemismo para a “elite branca”, lembrada pelo ex-governador Cláudio Lembo) atualmente talvez dialogue com o jurista Ives Gandra, com o movimento “Cansei”, com o protesto da imprensa contra o Plano Nacional de Direitos Humanos, do governo Lula: não o do José Gregori (um “terrorista intelectual”); o do Vanucchi, sim (um “terrorista” orgânico), asseveram os defensores da ordem, da moral e dos bons costumes. É um exercício démodé a recriação de uma “marcha da família pela liberdade”, sem marcha, apenas o trote lento e pesado da truculência verbal intolerante.


O regime de exceção que perdurou no Brasil entre 1964-1984 foi contra-moeda da liberdade. Renato Lessa pontua que “tratou-se de uma ilegitimidade como forte componente alucinatório [em oposição às alucinações do LSD], devotada a extrair de dentro de si mesmas crenças e rituais de legitimação”. Ora, sabemos nós que o processo de legitimação se instala pela auréola da sedimentação cultural, em que grupos se assumem propagadores de uma ‘leitura solapada’ de questões ditas emergenciais e saneadoras para a “nação incauta”, cujas problemáticas são evidenciadas pelas agruras do dia-a-dia. Todos sabem, também, que a “alucinação do regime” não permitia interpretações mais alvissareiras da população civil. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Meu pai, minha mãe. Seu pai, sua mãe. No entanto, filhos e sobrinhos da classe média foram “passear”. “O preço da liberdade é a eterna vigilância” emplacada nos quartéis era o grito mudo de uma absurda idéia que representasse os propósitos de um governo altamente interferente nas querelas banais. O Estado armado dominava uma ordem pública sem lastro. Paralelamente, o milagre econômico “desenvolvimentista” de Simonsen e asseclas paralisava os auspícios de um contradiscurso. Fosse ele liberal ou “progressista”. Assim, os poemas saltavam do lar mineiro de Milton e Beto Guedes e alcançavam outros ares. Não estou falando dos baianos e seus “novos gritos” (tropicalismo, cinema novo). Não estou falando dos cariocas e suas prosas (Sérgio Porto, Francis, o pessoal do Pasquim). Não estou falando dos paulistanos e seus achaques “malditos” (Roberto Piva, Arena, Walter Franco). Estou falando dos mineiros, aqueles os quais Gabeira dizia fazer parte do “planeta Minas”. Todos cosmopolitas. Menos cosmopolitas que os irmãos provincianos de Sampa e Rio. Fru-fru. Todos fakes, estes.


A luta pela anistia era a batalha pelo retorno de seres fantasmagóricos que se foram. Não havia o entendimento, talvez, do rompante da perseguição seguida do gozo da vingança. Ou como amolam os jornalões em 2009/2010: o gozo do “revanchismo”. Arraes, Brizola, Gabeira (outros menos mediáticos) eram figuras distintas que voltavam em 1979/1980. Todos eles, de certo modo, porém, coadunados pela superação da ordem ancestral de concentração de terras, de repressão sexual das mulheres, de velhos costumes etc. PT e PSDB (esse bem menos, na cisão com o PMDB em 1988) são frutos desse retorno dos “irmãos do Henfil”. Causa estranhamento, portanto, a verificação por alguns veículos de comunicação, tidos como equilibrados, de que o PNDH3 sedimenta-se o aparelhamento decisório, por parte do governo federal, a respeito das falas públicas em torno da expressão (de setores civis organizados, de modo fundamental). Quando Demétrio Magnoli avaliza que a “oficialização de um grupo vitimizado dá privilégios a seus representantes” não leva em conta as questões que se fundamentam em torno da decretação da verdade como prerrogativa – pacífica e ordeira, diga-se de passagem – da radiografia de um país que se não verifica (e parece não querer se verificar – olhar o próprio umbigo), e que se faz diversificado, por ser complexo. A diversidade é um contra censo do direito humano, para o cientista político. Magnoli parece não querer ver os “bárbaros diferentes”. E visualiza “mais humanidade no feto do que no marginal”. O grito da contrarrevolução, lá atrás, talvez não tenha muito sentido, nos dias de hoje, dentro de uma lógica mercadológica que prima pela sustentação do uso incomedido das terras (a questão ruralista), do corpo (a questão comportamental), da política pluralista e participativa (a questão decisória de outros setores, que não os hegemônicos). O militarismo de outrora segue como uma mácula insossa e mal diagramada, mas duvida-se que os arroubos bélicos de 1968 (pós AI-5) pudessem se alinhar com o interesse humano (que é universal), e com a troca de zelos e arrelias na media nossa de cada dia. Não há espaço para sentimentos quando a liberdade – e a verdade com suas dores – é solapada. Negar o “acerto de contas com o passado” é assassinar os deuses alucinados de Leary (e todos os avanços da revolução mental daqueles anos emblemáticos) e ovacionar os incrédulos alucinados dos Dops da vida (os covardes “funcionários” e os generais graúdos). De maneira inquestionável, não se julga o controle de quaisquer meios por medidas autoritárias. Não é disso que se trata. A liberdade plena exige responsabilidades e penalizações. O filho da puta de ontem é o filho de puta de amanhã. Raul já gritava em 1973: “hoje a gente já não sabe de que lado estão certos cabeludos. Tipo estereotipado. Se é da direita ou da traseira, já não se sabe mais lá de que lado”. De que lado você está, meu caro!? Setores graúdos e numerosos da imprensa, dos ruralistas, da igreja e do exército já deram sua opinião “alucinatória”, cuja formulação lógica está a milhas de distância da “Travessia”, dos mineiros - esses sim bonitos, elegantes e sinceros – do Clube da Esquina.

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