sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

AFORA LULA, O HOMEM, NÃO SOBRA MUITO EM "LULA", O FILME

Não dá mesmo pra imitar o original

por André G. de Paula Eduardo


“Lula, o filho do Brasil”, é uma obra sem outras finalidades que não a venda de ingressos. Feita para tal, anunciada como tal. Ok, de antemão muitos vão esbravejar que há interesses eleitorais no filme. Vamos lá então.

O que caracterizaria “Lula” como “eleitoreiro”? Para alguns, o fato de ter sido lançado durante o mandado de Lula e em ano eleitoral. Então confere a acusação? Ora, Luiz Carlos Barreto, produtor do filme, quer sanar suas dívidas, e haveria melhor momento que auge da popularidade do presidente-personagem para projetar o lançamento?

Uma estratégia inteligente e quase óbvia – pois um filme sobre Lula em tese é sucesso garantido, e tem sido desde o lançamento há uma semana, embora talvez fique aquém dos 5 milhões esperados em bilheteria.

Nada em Lula vende a pré-candidata do PT, Dilma. Ou alguém tentou associar a força de Dona Lindu à ministra-chefe da Casa Civil?

Para alguns, o filme seria “chapa branca”. Estamos diante de uma cinebiografia de um homem consagrado; para um propósito comercial, conta o mito e não o homem – e o homem em si, Lula, já é um mito, e se o é, é graças justamente aos aspectos marcantes e simbólicos de sua biografia. Como dizer que “Lula” é um filme “chapa branca”? Só não seria se fosse um apanhado de distorções, uma “antibiografia”, coisa que não é.

Ainda muitos irão evocar que certos eventos do filme não tem correspondência com a biografia de Lula – que ele teria apanhado do pai ao defender a mãe, diferentemente do filme.

Aí pergunto, sem cinismo algum: que diferença isso? Se Lula recebeu um afanão do pai ou teve medo de defender sua mãe, em que isso diminui sua figura?

Fábio Barreto, diretor de “Lula”, não faz nada além de pegar carona na identificação popular com o presidente. Muita gente se enxerga em Lula, isso é fato. Todo aquele que mora numa capital e cujos pais vieram do interior podem se ver em Lula.

Todo aquele que prosperou, vindo de famílias pobres e com pais analfabetos, pode se ver em Lula. Lula é importante no imaginário coletivo – o cinema não faz mais do que colocá-lo, num roteiro singelo, sem trato psicológico, esquemático, para que pudesse debutar na ficção.

"Lula" é um reflexo, até meio lívido, de Lula, o homem e político. Mas um trabalho de ficção sobre a realidade pétrea enfrentada pelo personagem tenderá sempre a sensibilizar todo aquele que passou por semelhante diáspora.

Temos então o caso de um filme que interessa menos pelo filme: perde de goleada pro seu personagem.

Lula real é muito mais interessante que “Lula, o filho do Brasil”. Para quem viu “Linha de montagem” de Renato Tapajós ou “Greve”, de João Batista de Andrade, isso tende a ficar evidente: a força expressiva dos discursos do metalúrgico de voz rouca é muito mais poderosa que o Lula dos Barretos.

Com um personagem tão interessante – e não faço aqui juízos de valor –, uma biografia convencional e esquemática tende a perder para o personagem - e o único canal que resta é o da geração de renda aos produtores. “Lula, o filme do Brasil”, é uma receita culinária. É uma daquelas obras com alicerces de madeira, paredes frágeis e pintura pálida, que nascem para o sucesso imediato e depois, se caem no esquecimento não faz a mínima diferença.

Um obra pálida que, assim, vai na contramão do seu personagem – que tinha tudo para dar errado e virou a personalidade política mais influente do Brasil.

"Lula", o filme, é um sucesso na rabeira da áurea do presidente. Para os que exigem um pouco de arte, ver “Lula, o filho do Brasil” é desanimador.

18hs50m

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