sábado, 26 de dezembro de 2009

CENÁRIO IDEOLÓGICO EM TEMPOS DE LULA



(...) Eu vou pagar
A conta do analista
Prá nunca mais ter que saber quem eu sou
Ah! saber quem eu sou..
Pois aquele garoto q
ue ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro
Em cima do muro...


Ideologia! Eu quero uma prá viver.. Ideologia! Prá viver

(Cazuza - Ideologia)









A ideologia morreu?

É constante o apontamento de cientistas políticos e de comunicólogos (sobretudo do marketing político) de que a ideologia morreu e que não há mais mobilização social a partir dela.
No âmbito dos estudos do comportamento eleitoral isso não é bem claro, e a divergência é constante.
No Brasil, uma importante voz do tema e que considera a ideologia como importante mobilizador do voto é a do prof. André Singer, cientista político que leciona na USP. Singer afirma, baseado em uma série de estudos, que o voto no Brasil encontra-se lastreado direta ou indiretamente (há coerência entre voto e posicionamentos de valor político) à identificação ideológica do eleitor.
Aliás, a identificação ideológica, segundo Singer, trata-se de uma predisposição de longo prazo indicatória de uma autolocalização do eleitor no espectro direita-esquerda, ou seja, o eleitor define-se mais a esquerda ou mais a direita no campo político-partidário.
Essa postura coerente do voto, em função da variável ideologia, tem como ponto importante a noção:
a) de que a identificação ideológica pode ser determinada pela preferência partidária (mas nem todo o eleitorado tem um partido preferido), e também;
b) de que a identificação ideológica se dá na mescla entre referências racionais e simbólicas (psicológicas e do inconsciente).
Singer afere que no Brasil há um ponto comum entre os que se posicionam a direita e a esquerda (diferentemente do padrão eleitoral em boa parte do mundo), o eleitorado brasileiro, para o cientista político, espera mudanças igualitárias, seja por meio da repressão e da autoridade estatal como desejam os direitistas, seja pela mobilização social para os da margem esquerda. Essa leitura foi confirmada por estudos recentes do comportamento eleitoral brasileiro como o ESEB de 2002 e 2006.
Um destaque importante, porém, é que esse elemento de coesão ideológica atingiu força profunda no ideário nacional, nos últimos anos, vez que passou de um mero reflexo de desejo compartilhado pela maioria dos brasileiros e passou a encontrar reflexo material em uma política nacional que tinha como sustentáculo a distribuição econômico-social de oportunidades. A política de Lula.
Essa dimensão reforçada entre simbólico e concreto fazem de Lula ícone de aprovação entre conservadores e esquerdistas e não um mero depositório de simpatia, de identificação simbólica em relação a traços de sua personalidade.


Ideologia norte-americana

Slavoj Zizek, na obra Bem-vindo ao deserto do real!, ao comentar o incidente de 11 de setembro e seus reflexos no campo da economia e política diz que:
"O 11 de Setembro veio provar que somos felizes e que os outros invejam nossa felicidade. Seguindo essa lógica, deve-se então arriscar a tese de que, longe de arrancar os EUA de seu sono ideológico, o 11 de Setembro foi usado como o sedativo que permitiu à ideologia dominante "renormalizar-se": o período que se seguiu à Guerra do Vietnã foi um longo trauma para a ideologia hegemônica - que foi obrigada a se defender de dúvidas críticas, os vermes que a roíam continuamente não podiam ser eliminados, toda volta à inocência de sua missão" ( p. 13).

E continuando suas notas acerca da ideologia Bush, afirma:
"(...) "Agora nós somos vítimas, e é isso que legitima o fato de falarmos (e agirmos) de uma posição de autoridade". Assim, quando se ouve hoje o slogan de que terminou o sonho liberal da década de 1990, que, com os ataques ao WTC, fomos violentamente atirados de volta ao mundo real, que acabaram os tranquilos jogos intelectuais, devemos nos lembrar de que esse chamado ao enfrentamento da dura realidade é ideologia em estado puro." (p. 14).

Se para os americanos o último rompante ideológico veio para mascarar fragilidades de uma vida consumista desenfreada ( o ápice desse engodo foi a atual crise econômica) e o preço caro que esta exige da humanidade: uma política externa de domínio bélico e econômico imperilista; no caso brasileiro outro papel para a ideologia se evidencia.


A nova configuração ideológica no Brasil

Marx em vários de seus escritos destacava uma relação de influência mútua (de co-determinação) entre ideologia e infra-estrutura. As formas de dominância de um aspecto ou de situações em que um impulsionava o outro dependeria, para ele, do desenvolvimento histórico e da realidade social experimentada.
A noção, tanto para direitistas quanto para esquerdistas de que mundança com igualdade é importante, ressoa como um imperativo da cruel realidade histórica de divisão social, que constituiu-se como constante estrutural das instituições e na convivência social brasileira desde os tempos de nossas capitanias hereditárias.
Mas, quando um governo, mesmo atacado pelos principais meios de comunicação de massa no plano simbólico (no campo da moral, dos valores, da ideologia), ainda assim, acaba consolidado com altos índices de aprovação, deve-se ter em conta os motivos (obscuros para alguns) que levam a constituição de tal fenômeno social.
O governo Lula impõe, para o plano de referência da realidade, políticas públicas de alcance social com sustentabilidade material (econômica).
O trauma recalcado da divisão social, finalmente, foi enfrentado por um governo. É por isso que o crescimento econômico sustentável que Lula deixa como legado de seus governos, vem acompanhado de um ingrediente simbólico forte (superior ao mito getulista), o Brasil passa a incorporar ao seu imaginário um forte componente ideológico de otimismo e crença de que as condições sociais, de trabalho e renda podem melhorar. Esse prognóstico é percebido nas inúmeras pesquisas de opinião efetuadas nos últimos anos e também pela fala dos próprios adversários de Lula, como Aécio Neves (que não podem lutar contra evidências de realidade e do imaginário dominante).
Essa nova percepção ideológica acerca do Brasil traduz-se em um cenário prospectivo e positivo para o eleitorado nacional. Mas essa crença, essa percepção simbólica, é mais forte do que as tentativas fracassadas de marketing e denuncismo perpetradas por setores midiáticos e pelos adversários de Lula.
O grande problema da oposição lulista é a tentativa de construir um outro imaginário para o povo brasileiro, mas tendo em conta, apenas, recursos discursivos sem base de realidade.
Tanto mais o clima eleitoral se firmar, mais claro se evidenciará efeitos desse novo fator de longo prazo (o cenário ideológico), a vitória do Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais de 2010.

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