segunda-feira, 24 de agosto de 2009

LULA E GETÚLIO - APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS


Lula e Getúlio
Luiz Werneck Vianna tem defendido que Lula, tal como Getúlio Vargas, concentrou os movimentos sociais ao redor do poder estatal. Essa opinião tem sido defendida pelo cientista político em diferentes momentos. Um deles foi o da entrevista concedida a Wilson Tosta e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 15-02-2009.
Para ele, enquanto Getúlio teria criado, por meio da estrutura estatal, espaços de articulação social da sociedade civil, através da institucionalização generalizada dos sindicatos e da concessão de direitos trabalhistas, Lula teria atraído para o centro do poder, movimentos articulados, que outrora agiam em contraposição ao poder estatal.
Essa crítica de Werneck guarda similaridade com a análise arrojada de grupos de extrema-esquerda que repudiam comportamentos de cooptação do militante e ativista de esquerda, considerando o conseqüente arrefecimento político que o aparelhamento de sua conduta, até então autônoma, possa vir a ser submetida.
Tal preocupação quanto ao aparelhamento de conduta mostra-se, também, procedente para aqueles que vislumbram projetos de longo prazo, tais como os partidos de ideário marxista-revolucionário. Mas não significa uma correta leitura de todos os comportamentos de grupos que apoiem o governo Lula.

O Neo-UDNismo e o caso Sarney
Mas um fator deve ser observado - tendo em vista essa aproximação analítica entre Lula e Getúlio - Rodrigo Vianna em recente postagem publicada em seu blog (vide o endereço: http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/udn-psd-e-ptb-com-outros-nomes-eles-ainda-mandam) produziu uma análise de conjuntura do governo Lula traduzida em uma aproximação com o contexto passado em que Getúlio ainda se fazia presente.
Rodrigo Vianna propôs a observância do imperativo estratégico do governo Lula em preservar a aliança com o PMDB para evitar o domínio hegemônico da direita no Brasil. Para ele, no país, ainda existiriam três linhas partidárias no centro da disputa do poder: UDN, PSD e PTB. E explica que:
“No pré-64, PTB e PSD jogavam juntos. A UDN, isolada (mas dominante nos grandes jornais, como hoje), só chegou ao poder em 61 - quando capturou Janio Quadros e pensou que governaria com ele. Janio tinha outros planos. Numa noite de agosto, tomou um porre maior do que o habitual, e renunciou.
O poder voltou ao eixo PSD-PTB com Jango (lembremos que o eleitor, naquela época, podia votar no presidente de uma chapa, e no vice de outra; na eleição, Jango não era vice de Janio, mas teve mais votos, e virou o vice-presidente eleito).
Pois bem. Parte do sucesso do golpe de 64, como resume bem o Fernando Trindade, explica-se pelo fato de a UDN ter conseguido atrair parte do PSD para o barco do golpismo”.
Para o jornalista, o atual momento nacional teria como atores uma neo-UDN formada pelo PSDB e DEM, um PSB agora sob novas vestes PMDBistas e finalmente o equivalente ao antigo PTB na figura do PT e de outros partidos de esquerda.
Assim como no passado, a UDN contava com a imprensa como aliada no processo de radicalização discursiva para obtenção do poder. Se o ícone que era Getúlio não foi possível uma vitória UDNista, com Jânio parecia que não correriam mais riscos. Mas Jânio renunciou e Jango assumiu. O resultado disso foi a radicalidade dos UDNistas com a tomada do poder pelo golpe militar.
Esse fator, explica por que Lula insiste em defender sua posição estratégica de aliança ao grupo PMDBista de Sarney, evitando a perda de seu apoio partidário. É importante para a continuidade produtiva do governo Lula, garantia da continuidade de seu projeto de governo e de suas políticas públicas e para a garantia de apoio político para a campanha de sua sucessora. Contudo, isso não deve ser confundido como fator direto de influência no comportamento eleitoral, ou seja, não deve ser considerado como fator determinante da postura do eleitorado no que diz respeito ao pleito do ano que vem. E também, não deve ser confundido como necessária equivalência entre a conduta de Sarney e a do governo Lula.
Rodrigo Vianna considera que a simples leitura moralista da aliança de Lula poderia ocasionar uma percepção de constrangimento: “Outros, com estômago frágil, sentem-se enjoados por ver o PT perto de Sarney. O Brasil exige estômago forte!”.

Autonomia da sociedade civil
Se for verdade que o sintoma de afrouxamento político como resultante de um aparelhamento comportamental possa ocorrer, também, é necessário observar que os grupos organizados e movimentos sociais podem também estar agindo com clareza estratégica, quando apóiam ou se aproximam de alguma forma do governo. Muitos grupos que atuam em apoio a determinadas políticas e posturas do governo de Lula, não deixam de ser críticos ao mesmo, o que demonstra sua autonomia e não uma estrita subordinação. Lula nunca contou com a ausência de diálogo e de negociação, ao contrário, esta é uma das marcas mais fortes de seu perfil político e de sua ação governamental.
Lula, diferentemente de Getúlio, tem favorecido a constituição e legitimação por parte do Estado de ambientes de elaboração de indicativos para políticas públicas e para propostas de normatização, através de instrumentos como as Conferências Nacionais que tem apoiado. O número destas em seu governo é drasticamente superior ao número total das realizadas fora do período de seus governos durante toda a história nacional.
Esse comportamento do governo tem sido percebido por muitos como uma atitude de cooptação. Contudo, para qualquer participante destes espaços de discussão a realidade que se evidencia é completamente diferente. A autonomia dos indivíduos e grupos que se apresentam demonstra que essa iniciativa governamental estimula a criação de novos espaços públicos de opinião e que estes acabam legitimados pelo governo, na medida em que toma as resoluções desses espaços de discussão como diretriz de atuação e não como mero expediente simbólico de propaganda política.
O caráter democrático, de difícil condução, mas que corresponde à aposta constitucional do Brasil, tem sido favorecido por atitudes como esta do governo Lula. Os participantes de discussões políticas, que correspondem também a um eleitorado orgânico e ativista, sabem que não há necessário consenso e acomodação. Quem de fato tem crença na democracia deveria considerar este fator. E não tomar um ambiente de silenciamento de contradições e disputas de interesses, como um mundo justo e moralmente digno. Essa versão da realidade é mais fácil de ser aceita, é também a difundida pela imprensa no que diz respeito ao desempenho de Serra no governo do estado de São Paulo. Mas, nem sempre corresponde à realidade.

Um comentário:

  1. Que a UDN permaneça enterrada por um bom tempo...esquecida, pelo menos no âmbito federal.

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