segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CUBA FREE


Escrevendo de orelhada
Muitas vezes tratamos com naturalidade certas situações de nossa vida ou de nosso entorno e não percebemos que existem formas de manifestação diferentes de nossa experiência. O olhar desatento a isso pode levar a um endurecimento de nossas práticas ou a incompreensão do próximo.
Tem quem diga que o olhar é a janela da alma. Por isso me parece importante relatar que escreverei algumas incursões sobre Cuba que não foram vivenciadas por mim, mas por um coração especial e profundo e bem melhor que o meu.

Detalhes cubanos
Cuba é um país de contrastes, isso é fato. Um local em que impera um sistema socialista, mas com o imperativo de controle rigoroso do fluxo das pessoas que saem e entram no país.
Em Cuba, porém, a solidariedade impera de forma espontânea entre seus habitantes. Se isso parece pouco, para a sobrevivência da população de Cuba, sob o embargo político capitaneado pelos EUA, representa a chave mestra da sobrevivência de sua população.
Mas outros temperos dão tom ao ethos cubano. Casas coloridas, simples e enfeitadas por rachaduras e varais com roupas expostas em janelas de prédios como bandeirolas representativas de uma vida simples.
Em Cuba não há publicidade em todo lugar que se passe. Também, não há crianças pobres pedindo esmolas nas ruas.
Se há uma população pobre é por que as condições de vida no país impelem a um estado geral de racionamento. Mas as condições são compartilhadas quase que uniformemente por toda a população. Em Cuba não há marcas de diferenciação do poder aquisitivo entre um médico ou um trabalhador braçal.
Caronas institucionalizadas. Sistema de saúde gratuito e com alto nível de desenvolvimento técnico. Habitação para todos. Ideário a ser conquistado por muitos países da democracia formal e capitalista.
Há, porém, em Cuba olhares, sorrisos e passos eruditos e desejosos de conhecer mais. Homens e mulheres simples que se alimentam mais do que por feijão e arroz (Além do Brasil, somente Cuba experimenta essa combinação no seu cardápio), mas pela vontade de aprender coisas.

Segurando a barra
Em Cuba o sorriso não custa o preço de uma gorjeta. Apesar de o país retirar do turismo boa parte de sua subsistência, não há um comportamento falseado de sua população na relação com o estrangeiro, justamente pelo desejo de se conhecer o olhar “do de fora” e por uma dimensão do ganho econômico vinculado muito restritamente a fruição e de sua manutenção fisiológica e cultural. É certo que a ilha não é habitada por homens puros e de índole ilibada, não se trata deste enfoque. A verdade é que mesmo sob condições de restrição econômica, há compreensão por boa parte da população acerca do jogo político travado com os EUA e também de que sua autonomia não está baseada no simples consumo de bens patrocinados pelo capital especulativo estrangeiro. Boa parte da população? No caso de Cuba sim. A escolarização nas terras do melhor charuto é exemplar.
O dimensionamento da necessidade pelo cidadão cubano dá-se em outras bases.
Para Baudrillard (1972) há uma mitificação entorno do termo:
“Vê-se que uma teoria das necessidades não têm sentido: só pode haver uma teoria do conceito ideológico de necessidade.
(...) É necessário, pois, ver como opera a ciência econômica e, por detrás dela, a ordem política, com o conceito de necessidade.
(...) A legitimidade deste conceito funda-se na existência de um mínimo vital antropológico que seria o de “necessidades primárias” (p.70).
“Na realidade, o “mínimo vital antropológico” não existe, em todas as sociedades; é determinado residualmente pela urgência fundamental de um excedente: a parte de Deus, a parte do sacrifício, o gasto sumptuário, o lucro econômico. É esta primeira extração de luxo que determina negativamente o nível de sobrevivência, e não o contrário (ficção idealista). Por toda a parte, há precedência do ganho, do lucro, do sacrifício, na determinação da riqueza social, precedência do gasto “inutil” sobre a economia funcional e a subsistência mínima.” (p. 71).
“De fato, o “rendimento discrecionário” é uma noção racionalizada “à discreção” dos empresários e analisas de mercado. Justifica-os para manipularem “as necessidades secundárias”, uma vez que “isso não toca no essencial”. Essa linha de demarcação entre o essencial e inessencial tem uma dupla função bem precisa:
1. Fundar e preservar uma esfera da essência do homem individual – pedra angular do sistema de valores ideológico.
2. Mascarar, por detrás do postulado antropológico, a verdadeira definição produtivista da “sobrevivência”: é “essencial”, em fase de acumulação, o que é estritamente necessário para a reprodução da força de trabalho – na fase de crescimento, o que é necessário para a manutenção da taxa de crescimento e de mais valia.” (p. 73).

A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia...
A condição de resiliência do cidadão cubano, em um contexto de embargo econômico internacional, sob bases de organização política socialista, tem bases em um poder de análise e leitura da realidade menos apegada a fatores de condicionamento simbólico-publicitários que à presente nos países capitalistas onde se impele aos cidadãos um “consumo democrático”, ou o “álibi democrático do consumo”.
Esta última forma de relação é a que se encontra difundida na ideologia do consumo; esta, contudo, tanto mais sólida, a medida em que absorve todas as demais formas, traduzindo toda relação objetiva, na comparação de um objeto pelo outro, sem dar transparência (a outras possíveis comparações) fazendo com que o sujeito, por exemplo, no caso de uma publicidade, seja levado a desconsiderar até o fator de utilidade de um bem, ou de um produto, ou por que não, de um candidato no momento eleitoral.

Color e dolor além do corte
Não há, mesmo na capital do país, em seus prédios, uma grande quantidade de imóveis para uso de empreendimentos comerciais. Os prédios de Cuba se prestam para o uso habitacional, quase que exclusivamente. Portanto, privilegia-se em Cuba as relações de uso e não as de consumo.

A ode à Cuba advém de sua comparação com a nossa sociedade. No Brasil, o conhecimento não é algo almejado por muitos. Mesmo entre os escolarizados, o ensino é meio para maior ganho econômico, voltado para o momento vestibular e em processo degenerativo. Ademais, é certo que a solidariedade existe também em nossas terras, mas concentra-se entre os mais pobres de nossa população. Isso aliás é um fator percebido pelo geógrafo Milton Santos e também pelo rapper paulistano Mano Brown (Vide a postagem de Domingo, 21 de Dezembro de 2008: ETHOS EM AMBIENTES PERIFÉRICOS – RAZÃO E REBELDIA NO DISCURSO DOS RACIONAIS MC`S).
O que Cuba parece ter a nos ensinar é que uma boa base educacional, baseada na concepção de conhecimento e não de mero ensino pode levar o indivíduo a compreender sua condição social, ainda que submetido a condições de restrição econômica e de pressão simbólica oportunizada pelos EUA.
Segundo, que o socialismo como qualquer regime político não é perfeito, todavia, revela-nos que a dimensão da taxa de lucro não é um fator meramente econômico, mas algo que é experimentado pelos indivíduos como uma necessidade internalizada de realização (sobretudo pela classe média) na obtenção de maior ganho e no sonho de tornar-se o novo rico. Em Cuba essa dimensão não é percebida. O sentido da vida toma rumos diversos ao do etiquetamento dos indivíduos e ao da competição profissional e simbólica, ou da violência de classes recorrente no Brasil.

Sem lero-lero
Portanto, parece claro que além de justo, é necessário tomar posição a favor do término do embargo econômico a Cuba. A não ser que não estejamos mais falando em humanidade.



BAUDRILLARD, Jean (1972). Para uma crítica da economia política do signo. Lisboa, Edições 70.

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