segunda-feira, 31 de agosto de 2009

FALANDO DO IBOPE


Montenegro diz que Lula não fará sucessora: tucanos e conservadores comemoram
Em 26 de agosto de 2009 foi publicado no site da Veja.com (http://veja.abril.com.br/260809/lula-nao-fara-sucessor-p-072.shtml) uma entrevista com Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, na qual este faz um prognóstico acerca da eleição de 2010, afirmando categoricamente que Lula não fará sua sucessora. As razões apontadas por Montenegro são as seguintes:
a) O PT estaria em processo de decomposição: com o mensalão, o PT teria perdido a marca de partido que impunha o estandarte da moral;
b) Não teria surgido novas lideranças no PT e a apresentação de Dilma, como candidata, seria muito artificial: ela não teria carisma, jogo de cintura, nem simpatia. Ademais, as pessoas não entenderiam o significado do que é ser “mãe do PAC”, não seria uma boa sacada;
c) Dilma, “talvez”, teria atingido o seu teto eleitoral, 20%. A transferência de votos de Lula para Dilma não seria suficiente para fazê-la vencedora, sendo certo que esta estaria ocorrendo somente entre os mais pobres.
d) Serra seria o provável vencedor em 2010, por que estaria contando ao fim do ano com 40% das intenções eleitorais o que já ocorrera com FHC e Lula no passado, confirmando a vitória de ambos;
e) Marina Silva poderia ter grande votação, em razão de ter uma trajetória pessoal parecida com a de Lula: humilde, agricultora, empregada doméstica, carismática, e por já ter enfrentado as urnas.

Contestação
Apesar do prestígio do entrevistado, parece que quanto a suas posições há algumas impropriedades passíveis de crítica que apontamos a seguir:
A análise de Montenegro tem como foco o fator de imagem de Dilma a quem considera pouco prestigiada e com baixo carisma.
Também, aponta o PT como um partido em ruínas, sem quadros de expressão, o que nesse caso toma como equivalente a quadros com projeção nacional.
Aposta que Dilma, que mal começou a ativar o eleitorado nacional, já teria atingido seu ápice eleitoral e que não sairia do índice dos 20% de intenções.
E como contra ponto, talvez sugerido pelo entrevistador, apresenta Marina como aquela que detém o que Dilma não teria: prestígio, carisma e trajetória de vida simples.

Reflexos ainda de 2006
A leitura do presidente do Ibope parece desprezar alguns fatores que se fizeram evidentes com Lula em 2006 e que parecem sugerir uma tomada de postura diferenciada de leitura eleitoral do brasileiro.
Lula em 2005 e 2006 foi atacado pelos meios de comunicação e com a ampla divulgação do incidente midiático do mensalão pensava-se improvável sua reeleição. Ocorre que já em meados de novembro e dezembro de 2005, segundo institutos de pesquisa como o DataFolha, Lula já ostentava uma média que se confirmaria durante todo o ano de 2006, e que se converteria em vitória nas urnas.
Esse eleitorado, conforme confirmaram pesquisas acerca da compreensão do que teria sido o “mensalão” demonstrou que não havia alienação por parte do eleitorado, mas uma interpretação diversa daquela sugerida pela imprensa.
Esse padrão comportamental, contra as mídias foi sustentado, majoritariamente, por eleitores na faixa salarial de até 5 salários mínimos. Negros e mulatos. E com maior concentração eleitoral no Norte e Nordeste do país.
A questão que deve ser observada é que Lula ativou o eleitorado a revelia de uma ampla influência midiática negativa, isso ocorreu por que o eleitorado brasileiro em sua maioria votou em políticas públicas de fruição direta, portanto percebida com forte base de realidade. Quer dizer Lula promoveu políticas públicas que saíram do papel e que não se materializaram somente em discursos de publicidade governamental.
A par disso, as pesquisas acerca da preferência partidária no Brasil demonstraram, ao contrário do que sugeriu Montenegro, a superação dos maiores índices por parte do PT, depois de 2006. O PT continua sendo o partido com maior preferência partidária segundo as pesquisas.
Se por um lado ocorreram dissidências que levaram a alguns membros e apoiadores a deixarem o partido ou então a não indicarem preferência partidária para o PT, também, em contra-partida, o partido dos trabalhadores recebeu apoio e adesão de novos contingentes sociais, o que demonstra um fortalecimento partidário a partir de novas bases e de uma leitura mais realista e madura do contexto nacional por parte desses apoiadores.

O fator imagem do candidato
Montenegro ao apontar como base negativa de Dilma, sua imagem de pessoa inflexível e sem carisma, não o faz com rigor científico.
O fator de imagem, que normalmente é ativado pela publicidade ou pela ampla veiculação pelos meios de comunicação, trata-se de um fator cujo efeito possível de produzir no eleitorado é de curto prazo, ou seja, efêmero, e cujo resultado duradouro, em longo tempo, necessita de reiteração nos meios de comunicação.
Não é por acaso que ainda Dilma não ficou conhecida totalmente pelo eleitorado, sobretudo, no que diz respeito a sua ligação direta com o perfil do governo Lula. Mas isso estará ocorrendo processualmente, a medida que for mais percebida nos meios de comunicação.
Tanto mais isso vem ocorrendo, o impacto imediato tem sido o seu crescimento nas intenções de voto. Dilma não vencerá pelo fator de imagem, este também irá contar, mas sua vitória será o resultado do reconhecimento dos mais pobres e da classe média brasileira de que Lula iniciou um processo sólido de estabilização econômica somado à materialização de políticas públicas que favorecem diretamente milhões de pessoas.
Ademais, não é verdade que Dilma não seja carismática. Ao contrário do que afirma Montenegro, Dilma tem se mostrado conciliadora, simpática, muito prática e realista. Basta observar as entrevistas que a ministra tem oferecido aos veículos de comunicação que se dispõe a entrevistá-la.
Contudo, a fala de Montenegro revela um sintoma - que por vezes tem contaminado os indivíduos que fazem parte da faixa mais privilegiada economicamente da sociedade – do entendimento de que os mais pobres não têm capacidade de análise acerca de seus interesses, ou ainda, da realidade política nacional. Essa leitura elitista tanto é verdade que quando os mais pobres se afirmaram favoráveis à Lula, no passado, foram e continuaram sendo tratados como sujeitos alienados que se submetem a um processo de assistencialismo e populismo.
Esse tipo de leitura, porém, poderá facilitar mais ainda a vitória de Dilma. Se Montenegro entende que o eleitorado não reconhecerá Dilma como sucessora de Lula, por que não detém bom slogan e carisma, está tomando bases de análise equivocadas. O eleitorado, em sua maioria, está subordinado ao reconhecimento de um projeto em andamento. Mas isso parece algo que não se pode esperar de um povo “pobre e intelectualmente limitado”.

Sobre Serra e Marina
A superioridade de Serra nas indicações eleitorais é que, em verdade, tem se mostrado limitadas a um teto. Serra tem ao seu favor a lembrança no eleitorado – já que foi candidato em 2002 – que tomam o mesmo como uma referência possível de votos. Mas esse fator de imagem poderá se mostrar frágil diante de condições estruturais (políticas públicas) do governo Lula. Isso, não por que se trata da opinião pessoal de quem escreve o presente texto, mas em razão do que a tradição dos estudos eleitorais em todo o mundo tem demonstrado como fator superior para a definição eleitoral.
É por essa mesma razão que a figura de Marina não produzirá grande impacto. Esta deverá ser muito menos votada do que fora Luiza Helena, no passado. A razão para isso é que a candidata do PSOL (que não disputará novamente a presidência) obteve grande votação tomando o apoio de uma parte do eleitorado que não se dispunha a votar no PT – dada a publicidade negativa do “mensalão” – mas ainda assim não votaria em opções de direita. Ainda assim, esse eleitorado votou em Lula no segundo turno.

Sobre o fator 40%
Se, é verdade que Lula no final do ano de 2005 contava com índices superiores a 40%, também é verdade que FHC obteve sua reeleição, mesmo sendo mal avaliado pela maior parte da população. Isso ocorreu por causa do fator de maior peso naquela eleição, que foi uma questão estrutural de primeira ordem e constituída em longo prazo, a questão da estabilidade econômica e o combate à inflação.
Mas, mesmo naquele período histórico, as medidas privatizantes e o arrocho social tucano já não eram bem quistos. Lula provou ser possível submeter à estabilidade econômica, um regime governamental de ampla ação social. Por isso atinge hoje índices nunca antes obtidos por nenhum presidente. E esta leitura que leva a sua boa avaliação é uma leitura do eleitorado em geral acerca da realidade nacional e não acerca da imagem de Lula - carismático, de origem humilde - tão somente.
Não devemos analisar a conjuntura somente por números, mas entender a conjuntura da mesma. Se por um lado Lula venceu em 2006, mesmo sob forte cobertura midiática desfavorável, George Bush (o pai) era muito bem avaliado (por mais de 80% do eleitorado) e mesmo assim perdeu de Clinton (um candidato que desde sua campanha já era acusado de escândalos sexuais).
Dilma continuará crescendo nas indicações eleitorais. Devemos ficar atentos ao trabalho de pesquisa dos diferentes institutos.
Por isso diferentemente de Montenegro afirmo, Lula fará seu sucessor, que será uma mulher, Dilma Roussef.

publicado também no dia 01 de setembro em http://dilma13.blogspot.com/

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

LULA E GETÚLIO - APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS


Lula e Getúlio
Luiz Werneck Vianna tem defendido que Lula, tal como Getúlio Vargas, concentrou os movimentos sociais ao redor do poder estatal. Essa opinião tem sido defendida pelo cientista político em diferentes momentos. Um deles foi o da entrevista concedida a Wilson Tosta e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em 15-02-2009.
Para ele, enquanto Getúlio teria criado, por meio da estrutura estatal, espaços de articulação social da sociedade civil, através da institucionalização generalizada dos sindicatos e da concessão de direitos trabalhistas, Lula teria atraído para o centro do poder, movimentos articulados, que outrora agiam em contraposição ao poder estatal.
Essa crítica de Werneck guarda similaridade com a análise arrojada de grupos de extrema-esquerda que repudiam comportamentos de cooptação do militante e ativista de esquerda, considerando o conseqüente arrefecimento político que o aparelhamento de sua conduta, até então autônoma, possa vir a ser submetida.
Tal preocupação quanto ao aparelhamento de conduta mostra-se, também, procedente para aqueles que vislumbram projetos de longo prazo, tais como os partidos de ideário marxista-revolucionário. Mas não significa uma correta leitura de todos os comportamentos de grupos que apoiem o governo Lula.

O Neo-UDNismo e o caso Sarney
Mas um fator deve ser observado - tendo em vista essa aproximação analítica entre Lula e Getúlio - Rodrigo Vianna em recente postagem publicada em seu blog (vide o endereço: http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/udn-psd-e-ptb-com-outros-nomes-eles-ainda-mandam) produziu uma análise de conjuntura do governo Lula traduzida em uma aproximação com o contexto passado em que Getúlio ainda se fazia presente.
Rodrigo Vianna propôs a observância do imperativo estratégico do governo Lula em preservar a aliança com o PMDB para evitar o domínio hegemônico da direita no Brasil. Para ele, no país, ainda existiriam três linhas partidárias no centro da disputa do poder: UDN, PSD e PTB. E explica que:
“No pré-64, PTB e PSD jogavam juntos. A UDN, isolada (mas dominante nos grandes jornais, como hoje), só chegou ao poder em 61 - quando capturou Janio Quadros e pensou que governaria com ele. Janio tinha outros planos. Numa noite de agosto, tomou um porre maior do que o habitual, e renunciou.
O poder voltou ao eixo PSD-PTB com Jango (lembremos que o eleitor, naquela época, podia votar no presidente de uma chapa, e no vice de outra; na eleição, Jango não era vice de Janio, mas teve mais votos, e virou o vice-presidente eleito).
Pois bem. Parte do sucesso do golpe de 64, como resume bem o Fernando Trindade, explica-se pelo fato de a UDN ter conseguido atrair parte do PSD para o barco do golpismo”.
Para o jornalista, o atual momento nacional teria como atores uma neo-UDN formada pelo PSDB e DEM, um PSB agora sob novas vestes PMDBistas e finalmente o equivalente ao antigo PTB na figura do PT e de outros partidos de esquerda.
Assim como no passado, a UDN contava com a imprensa como aliada no processo de radicalização discursiva para obtenção do poder. Se o ícone que era Getúlio não foi possível uma vitória UDNista, com Jânio parecia que não correriam mais riscos. Mas Jânio renunciou e Jango assumiu. O resultado disso foi a radicalidade dos UDNistas com a tomada do poder pelo golpe militar.
Esse fator, explica por que Lula insiste em defender sua posição estratégica de aliança ao grupo PMDBista de Sarney, evitando a perda de seu apoio partidário. É importante para a continuidade produtiva do governo Lula, garantia da continuidade de seu projeto de governo e de suas políticas públicas e para a garantia de apoio político para a campanha de sua sucessora. Contudo, isso não deve ser confundido como fator direto de influência no comportamento eleitoral, ou seja, não deve ser considerado como fator determinante da postura do eleitorado no que diz respeito ao pleito do ano que vem. E também, não deve ser confundido como necessária equivalência entre a conduta de Sarney e a do governo Lula.
Rodrigo Vianna considera que a simples leitura moralista da aliança de Lula poderia ocasionar uma percepção de constrangimento: “Outros, com estômago frágil, sentem-se enjoados por ver o PT perto de Sarney. O Brasil exige estômago forte!”.

Autonomia da sociedade civil
Se for verdade que o sintoma de afrouxamento político como resultante de um aparelhamento comportamental possa ocorrer, também, é necessário observar que os grupos organizados e movimentos sociais podem também estar agindo com clareza estratégica, quando apóiam ou se aproximam de alguma forma do governo. Muitos grupos que atuam em apoio a determinadas políticas e posturas do governo de Lula, não deixam de ser críticos ao mesmo, o que demonstra sua autonomia e não uma estrita subordinação. Lula nunca contou com a ausência de diálogo e de negociação, ao contrário, esta é uma das marcas mais fortes de seu perfil político e de sua ação governamental.
Lula, diferentemente de Getúlio, tem favorecido a constituição e legitimação por parte do Estado de ambientes de elaboração de indicativos para políticas públicas e para propostas de normatização, através de instrumentos como as Conferências Nacionais que tem apoiado. O número destas em seu governo é drasticamente superior ao número total das realizadas fora do período de seus governos durante toda a história nacional.
Esse comportamento do governo tem sido percebido por muitos como uma atitude de cooptação. Contudo, para qualquer participante destes espaços de discussão a realidade que se evidencia é completamente diferente. A autonomia dos indivíduos e grupos que se apresentam demonstra que essa iniciativa governamental estimula a criação de novos espaços públicos de opinião e que estes acabam legitimados pelo governo, na medida em que toma as resoluções desses espaços de discussão como diretriz de atuação e não como mero expediente simbólico de propaganda política.
O caráter democrático, de difícil condução, mas que corresponde à aposta constitucional do Brasil, tem sido favorecido por atitudes como esta do governo Lula. Os participantes de discussões políticas, que correspondem também a um eleitorado orgânico e ativista, sabem que não há necessário consenso e acomodação. Quem de fato tem crença na democracia deveria considerar este fator. E não tomar um ambiente de silenciamento de contradições e disputas de interesses, como um mundo justo e moralmente digno. Essa versão da realidade é mais fácil de ser aceita, é também a difundida pela imprensa no que diz respeito ao desempenho de Serra no governo do estado de São Paulo. Mas, nem sempre corresponde à realidade.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, DEPOIS DE 1984, O SONHO ACABOU


Sobre o programa A Fazenda, o BBBrasil e o Higienópolis... Como diria Renato Russo: vivemos num mundo doente!
O futebol é vídeo-game.
A poesia coisa caduca, rimas plásticas. Repetições de uma estética repetida.
As maçãs nascem mortas e não apodrecem nas geladeiras, mesmo depois de tanto tempo!
A violência social é cruel, presente e generalizada, o tapa na cara doi de verdade. Os moradores de rua são desprezados e há quem os queira longe dos olhos.
O discurso é de constrangimento, mas a ação é o desprezo.
A "razão" da Academia descobre o difuso, a imprecisão.
A política flerta com o vídeo e ambos vivem um jogo de blefes sob os olhos da grande platéia.
Brito Júnior sonha em ser Pedro Bial. Dado Dolabella bate em mulheres e vira herói. Netinho de Paula, talvez, senador.
Globo e Record gritam meias verdades capitais.
Os homens, por sua vez, se dividem: uns estão nas ruas, outros (poucos) na mídia. E tem quem queira, talvez desesperado, estar na moda! Viva Gilmar Mendes, o déspota do Brasil.

Obs. sobre um pouco de dignidade futebolística e da apropriação midiatizada de um personagem socialmente fragilizado advindo das ruas (que explica a tríade Gilmarbarbozakaliliana: rua-mídia-moda) indico os textos: Meninas eu vi (1/08) e O fenômeno Zina e a tragédia humana (28/08), no endereço http://apuntesyescenas.blogspot.com/, de autoria de Pedro Leonardo: o analista esportivo mais batuta do Brasil!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CUBA FREE


Escrevendo de orelhada
Muitas vezes tratamos com naturalidade certas situações de nossa vida ou de nosso entorno e não percebemos que existem formas de manifestação diferentes de nossa experiência. O olhar desatento a isso pode levar a um endurecimento de nossas práticas ou a incompreensão do próximo.
Tem quem diga que o olhar é a janela da alma. Por isso me parece importante relatar que escreverei algumas incursões sobre Cuba que não foram vivenciadas por mim, mas por um coração especial e profundo e bem melhor que o meu.

Detalhes cubanos
Cuba é um país de contrastes, isso é fato. Um local em que impera um sistema socialista, mas com o imperativo de controle rigoroso do fluxo das pessoas que saem e entram no país.
Em Cuba, porém, a solidariedade impera de forma espontânea entre seus habitantes. Se isso parece pouco, para a sobrevivência da população de Cuba, sob o embargo político capitaneado pelos EUA, representa a chave mestra da sobrevivência de sua população.
Mas outros temperos dão tom ao ethos cubano. Casas coloridas, simples e enfeitadas por rachaduras e varais com roupas expostas em janelas de prédios como bandeirolas representativas de uma vida simples.
Em Cuba não há publicidade em todo lugar que se passe. Também, não há crianças pobres pedindo esmolas nas ruas.
Se há uma população pobre é por que as condições de vida no país impelem a um estado geral de racionamento. Mas as condições são compartilhadas quase que uniformemente por toda a população. Em Cuba não há marcas de diferenciação do poder aquisitivo entre um médico ou um trabalhador braçal.
Caronas institucionalizadas. Sistema de saúde gratuito e com alto nível de desenvolvimento técnico. Habitação para todos. Ideário a ser conquistado por muitos países da democracia formal e capitalista.
Há, porém, em Cuba olhares, sorrisos e passos eruditos e desejosos de conhecer mais. Homens e mulheres simples que se alimentam mais do que por feijão e arroz (Além do Brasil, somente Cuba experimenta essa combinação no seu cardápio), mas pela vontade de aprender coisas.

Segurando a barra
Em Cuba o sorriso não custa o preço de uma gorjeta. Apesar de o país retirar do turismo boa parte de sua subsistência, não há um comportamento falseado de sua população na relação com o estrangeiro, justamente pelo desejo de se conhecer o olhar “do de fora” e por uma dimensão do ganho econômico vinculado muito restritamente a fruição e de sua manutenção fisiológica e cultural. É certo que a ilha não é habitada por homens puros e de índole ilibada, não se trata deste enfoque. A verdade é que mesmo sob condições de restrição econômica, há compreensão por boa parte da população acerca do jogo político travado com os EUA e também de que sua autonomia não está baseada no simples consumo de bens patrocinados pelo capital especulativo estrangeiro. Boa parte da população? No caso de Cuba sim. A escolarização nas terras do melhor charuto é exemplar.
O dimensionamento da necessidade pelo cidadão cubano dá-se em outras bases.
Para Baudrillard (1972) há uma mitificação entorno do termo:
“Vê-se que uma teoria das necessidades não têm sentido: só pode haver uma teoria do conceito ideológico de necessidade.
(...) É necessário, pois, ver como opera a ciência econômica e, por detrás dela, a ordem política, com o conceito de necessidade.
(...) A legitimidade deste conceito funda-se na existência de um mínimo vital antropológico que seria o de “necessidades primárias” (p.70).
“Na realidade, o “mínimo vital antropológico” não existe, em todas as sociedades; é determinado residualmente pela urgência fundamental de um excedente: a parte de Deus, a parte do sacrifício, o gasto sumptuário, o lucro econômico. É esta primeira extração de luxo que determina negativamente o nível de sobrevivência, e não o contrário (ficção idealista). Por toda a parte, há precedência do ganho, do lucro, do sacrifício, na determinação da riqueza social, precedência do gasto “inutil” sobre a economia funcional e a subsistência mínima.” (p. 71).
“De fato, o “rendimento discrecionário” é uma noção racionalizada “à discreção” dos empresários e analisas de mercado. Justifica-os para manipularem “as necessidades secundárias”, uma vez que “isso não toca no essencial”. Essa linha de demarcação entre o essencial e inessencial tem uma dupla função bem precisa:
1. Fundar e preservar uma esfera da essência do homem individual – pedra angular do sistema de valores ideológico.
2. Mascarar, por detrás do postulado antropológico, a verdadeira definição produtivista da “sobrevivência”: é “essencial”, em fase de acumulação, o que é estritamente necessário para a reprodução da força de trabalho – na fase de crescimento, o que é necessário para a manutenção da taxa de crescimento e de mais valia.” (p. 73).

A minha felicidade é um crediário nas Casas Bahia...
A condição de resiliência do cidadão cubano, em um contexto de embargo econômico internacional, sob bases de organização política socialista, tem bases em um poder de análise e leitura da realidade menos apegada a fatores de condicionamento simbólico-publicitários que à presente nos países capitalistas onde se impele aos cidadãos um “consumo democrático”, ou o “álibi democrático do consumo”.
Esta última forma de relação é a que se encontra difundida na ideologia do consumo; esta, contudo, tanto mais sólida, a medida em que absorve todas as demais formas, traduzindo toda relação objetiva, na comparação de um objeto pelo outro, sem dar transparência (a outras possíveis comparações) fazendo com que o sujeito, por exemplo, no caso de uma publicidade, seja levado a desconsiderar até o fator de utilidade de um bem, ou de um produto, ou por que não, de um candidato no momento eleitoral.

Color e dolor além do corte
Não há, mesmo na capital do país, em seus prédios, uma grande quantidade de imóveis para uso de empreendimentos comerciais. Os prédios de Cuba se prestam para o uso habitacional, quase que exclusivamente. Portanto, privilegia-se em Cuba as relações de uso e não as de consumo.

A ode à Cuba advém de sua comparação com a nossa sociedade. No Brasil, o conhecimento não é algo almejado por muitos. Mesmo entre os escolarizados, o ensino é meio para maior ganho econômico, voltado para o momento vestibular e em processo degenerativo. Ademais, é certo que a solidariedade existe também em nossas terras, mas concentra-se entre os mais pobres de nossa população. Isso aliás é um fator percebido pelo geógrafo Milton Santos e também pelo rapper paulistano Mano Brown (Vide a postagem de Domingo, 21 de Dezembro de 2008: ETHOS EM AMBIENTES PERIFÉRICOS – RAZÃO E REBELDIA NO DISCURSO DOS RACIONAIS MC`S).
O que Cuba parece ter a nos ensinar é que uma boa base educacional, baseada na concepção de conhecimento e não de mero ensino pode levar o indivíduo a compreender sua condição social, ainda que submetido a condições de restrição econômica e de pressão simbólica oportunizada pelos EUA.
Segundo, que o socialismo como qualquer regime político não é perfeito, todavia, revela-nos que a dimensão da taxa de lucro não é um fator meramente econômico, mas algo que é experimentado pelos indivíduos como uma necessidade internalizada de realização (sobretudo pela classe média) na obtenção de maior ganho e no sonho de tornar-se o novo rico. Em Cuba essa dimensão não é percebida. O sentido da vida toma rumos diversos ao do etiquetamento dos indivíduos e ao da competição profissional e simbólica, ou da violência de classes recorrente no Brasil.

Sem lero-lero
Portanto, parece claro que além de justo, é necessário tomar posição a favor do término do embargo econômico a Cuba. A não ser que não estejamos mais falando em humanidade.



BAUDRILLARD, Jean (1972). Para uma crítica da economia política do signo. Lisboa, Edições 70.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O PRIMEIRO PROGRAMA ELEITORAL DE SERRA - A ENTREVISTA DE JÔ SOARES NA MADRUGADA



“Tem que ir até o final. Se quiser vencer!”
Paulo Ricardo



José Serra, provavelmente, não terá chances de vencer Dilma. E o cenário de ataques ao governo federal deve piorar.
Alguma coisa está acontecendo nos bastidores tucanos. Por vezes quando o sujeito está em situação de risco, de extrema fragilidade é que demonstra maior força e reação, esta aliás é a lógica do chilique.
A evidência de que José Serra, provavelmente, não terá chances de vencer Dilma está tomando forma concreta de aparência. E o cenário de ataques ao governo federal deve piorar.



Amigos são para estas coisas, mesmo...
Na noite do dia 04 de agosto, José Serra foi entrevistado por Jô Soares. Normalmente, para grandes figuras, que tem muito a dizer, o programa resguarda dois de três blocos para o entrevistado, no caso de Serra foram três. Um programa para Serra, em verdade.
O teor da mesma, contudo, surpreende pelo tom de propaganda eleitoral disfarçada.
O programa buscou suavizar a figura e os feitos negativos de Serra, tanto quanto valorizar aspectos positivos de seu governo.
O tema mais reportado foi o da lei anti-fumo implementada pelo tucano. Para a defesa da lei, Serra contou com o depoimento gravado do Dráuzio Varella, que falou dos males do cigarro e mostrou-se favorável a medida. Jô Soares deixou escapar, que a gravação do depoimento foi feita às pressas, sinal de que a entrevista não estava agendada e que os motivos para que a mesma se desse tivesse sido a necessidade de defender um candidato que não decola e que começa a ser criticado e desacreditado dentro de seu próprio grupo de apoiadores.
O interessante é que esse tema foi utilizado para que Serra se mostrasse um homem suave, não agressivo e flexível. O ponto alto da estimulação desse fator, foi quando ao ser criticada a lei, por um entrevistado filmado sentado na mesa no lado de fora de um bar na calçada, ter José Serra apontado que naquela condição não seria proibida, ao contrário do que tem sido apontado na interpretação da lei pelos juristas que já fizeram leitura da mesma.
Serra tem de parecer mais leve. As elites, mesmo paulistanas estão temendo seu comportamento agressivo. A forma marketinizada com que foi implementada a lei (pesquisa de opinião preliminar, implantação da lei e posterior propaganda favorável ao governo) em verdade revelam um chefe de executivo incapaz de dialogar com a esfera pública formada pelos movimentos sociais e pela própria população politicamente não-orgânica, por meio do debate, antes da implementação de uma lei que poderia ser concebida como fruto de uma discussão aberta.
O uso dos spots de Dráuzio Varella, mediando a conversa de Jô Soares com José Serra, em diferentes momentos, também, a abertura de comentários anti-tabagismo e de perguntas estritamente vinculadas ao tema pela platéia deram ares de sustentação a “boa ação” do eterno ministro da saúde Serra.
Os temas de segurança e de educação, pedra no sapato dos governos tucanos paulistas, foram reduzidamente tratados no final do programa. A abordagem foi direcionada. Em um único caso Jô Soares insistiu naquilo que poderia ser vislumbrado como uma crítica ao governo. O apresentador teria dito que os dados de investimento e redução de crimes apontados pelo governador não eram perceptíveis na prática pelo cidadão comum.

Nordestinos
Em um momento da extensa entrevista fora apresentada uma imagem de Dominguinhos dividindo o palco com o tucano e cantando a canção de Luiz Gonzaga: Baião.
Nesse ponto, o tucano disse que era conhecedor dos nordestinos por que viveu junto a muitos deles na sua vida de jovem na Mooca. Aliás, a Mooca é o eterno paraíso simbólico de Serra, mas ele mora no Alto de Pinheiros. Disse também que o rei do baião teria forjado sua carreira de início na paulicéia. Até ai, nada de novo.
De qualquer forma, Jô no afã de elogiar Serra, suavizando sua imagem ao ligar o mesmo à figura de Gonzaga, exagerou ao dizer que o governador sabia a música integralmente; no vídeo vê-se claramente que Serra só canta o primeiro estribilho mais conhecido de todos.
Serra não tem efetiva intimidade com a cultura nordestina. Mas o programa do Jô insistiu na pauta, por que o mesmo está em franca derrocada no nordeste e entre os nordestinos do sudeste em geral muito identificados simbolicamente com Lula e beneficiados diretamente e materialmente por suas políticas públicas. Os ganhos das políticas públicas de Lula, diferentemente das tucanas são percebidas pelo cidadão.

A saideira
Os temas “menos importantes” como educação e segurança foram deixados para o fim. Mas o enfoque das perguntas foi cuidadosamente direcionado.
No final do programa, com o tempo reduzido, Jô Soares então falou de segurança, mas permitiu a defesa do tucano que insistiu em dizer que as medidas de implementação de gestão de inteligência e de uso de tecnologias como câmeras de vigília em locais públicos estariam sendo efetivadas aos poucos e resultariam em benefícios a serem percebidos em longo prazo.
Jô Soares, aliás, tomou às dores e explicou o tucano. Repetiu que, por vezes, o cidadão não percebe a “melhora” num cenário de grande índice de violência, mas isso não significa dizer que não está ocorrendo melhora. Problemas como o baixo salário e más condições de trabalho dos funcionários da segurança pública nem de longe foram abordados.
Quanto à educação, todos os que vivem em São Paulo sabem do baixo índice de aproveitamento escolar na educação pública de primeiro e segundo grau fornecida pelo Estado de São Paulo. Um dos temas de maior descontentamento, a aprovação automática - e que foi uma das bases da vitória de Eduardo Paes (contra o candidato tucano-verde Gabeira) ao defender sua extinção - de forma alguma foi tratada. Nem sequer a redução quase que completa do programa alckmista “Escola da família”. Serra não continua plataformas nem de seu “colega” de partido, quem irá crer que continuará os ganhos implementados pelo governo Lula?
O cenário apresentado por Serra é o de investimento de 30% do orçamento na educação. A própria pergunta do Jô foi direcionada. Já que o problema crônico da má remuneração dos professores e por vezes apontado como principal problema da educação é sentido no Brasil inteiro, o apresentador perguntou acerca dos baixos salários dos professores. O tucano em seguida respondeu que problemas como salário, merenda, prédios, material escolar estavam razoavelmente superados, mas que o problema estaria na melhoria da dinâmica da sala de aula, então, falou da implementação de programas de leitura, de recuperação e da inclusão de estagiários junto a professores nas salas de aula.
O investimento em bolsas de apoio ao pesquisador de ciência pela FAPESP foi apontado como exemplo que rendeu prêmio internacional.
O que Serra não contou é que os programas de recuperação em São Paulo, tem se prestado a atividade de alfabetização de alunos que cursam segunda, terceira séries e que continuam a escolaridade formal sem conhecimento efetivo e competente qualquer.

Lugar de vampiro é na madrugada
Para suavizar sua imagem de vampiro, ao fim, Jô Soares brincou que nem sempre quem acorda cedo é quem trabalha. Serra dorme durante o dia e trabalha na madrugada. Nada demais se não fosse o reforço irônico que esse fator dá a imagem de vampiro que sua fisiologia recorda, segundo os humoristas de plantão.
Esse fato foi gancho para outra propaganda; Serra usa o twitter para trabalhar e por isso posta na madrugada.
Ironicamente, o número musical apresentado ao fim do programa foi o de Paulo Ricardo, ex-RPM, cantando o tema de abertura do Big Brother Brasil.


PSDB: Se você pudesse escolher, até onde vai a sua fé ...
Um palpite para tal comportamento da Rede Globo, do parceiro Jô que em pouco tempo produziram o encontro repentino, decerto, muito além da implementação da lei anti-tabagismo, pode ser o de crescimento de Dilma, percebido nas sondagens internas de partido.
Dilma deve ser eleita, em razão de representar um projeto político em que ganhos com políticas públicas são percebidos diretamente pelos mais pobres e pela classe média. Os estudos do comportamento eleitoral indicam que esse tipo de ganho de dimensão econômica, utilitária e educacional, somado ao quadro (de superação-sustentação econômica) de efeito reduzido da crise econômica internacional no país, deverá fazer de Dilma próxima de Serra ou superando seus índices de intenção de voto até o final de ano.
A imprensa ao atacar a má administração da crise econômica por Lula, o que não se confirmou e acabou contribuindo para a consolidação de sua boa avaliação; depois ao agredir a ministra Dilma, quando do início ocorrência de seu tratamento médico, dando a entender que ela não detinha condições de saúde para governar o Brasil; e agora Sarney (o efeito colateral pode ser um maior afastamento do PMDB dos tucanos); corre o risco de acabar efetuando o mesmo efeito ocorrido em 2005 para 2006: o de antecipação do clima eleitoral. Com um detalhe a ser recordado, independente de uma cobertura da imprensa contra o governo, a maioria da população acabou optando por Lula em 2006, imagine agora em que goza de índices de popularidade nunca antes visto na história deste país. A tendência cada vez mais se confirma, quanto mais Dilma tornar-se conhecida, mais crescerá.
Por fim, amanhã tem meninas do Jô. A campanha pró-Serra continua.