sexta-feira, 10 de julho de 2009

INTIMIDADES ENTRE JEAN BAUDRILLARD E HUMBERTO GESSINGER





“Exaltação de microdesejos, de pequenas diferenças, de práticas cegas, de marginalidades anônimas. Último sobressalto dos intelectuais para exaltar a insignificância, para promover o não-sentido na ordem do sentido. E revertê-lo à razão política. A banalidade, a inércia, o apoliticismo eram fascistas, agora se tornam revolucionários - sem mudar de sentido, isto é, sem deixar de ter sentido. Micro-revolução da banalidade, transpolítica do desejo - mais um truque dos “libertadores”. A negação do sentido não tem sentido”.


Muitos poderiam pensar que este texto era de autoria de Humberto Gessinger, vocalista e compositor da banda Engeheiros do Hawaii, mas isso não seria verdadeiro. Essa é uma parte da obra “À sombra das maiorias silenciosas” de Jean Baudrillard, autor que, entre outros, influenciou os irmãos Wachowski a conceberem a trilogia de Matrix. Apesar do próprio Baudrillard preferir outros filmes como Truman Show.

Reminiscências juvenis
Ouvindo o CD “O Papa é pop”, álbum de 1990 dos Engenheiros do Hawaii, novamente recordei dos momentos em que ouvi pela primeira vez este álbum. Era ainda pequeno, nem sequer adolescente. Mas, já com tenra tessitura óssea eu percebi algo que me chamou atenção, de cara, e que foi além do tratamento dos arranjos muito diferentes - não haviam bandas que tocassem daquela maneira, se bem que eu não conhecia muita coisa, obviamente! Na verdade o que havia de particular era a adoção por aquela banda de uma influência do rock europeu e em particular o inglês dos anos 1970 e 1980 e um tanto de um esmero com o tratamento instrumental (coisas que Pink Floyd ensina), além de letras muito diferentes.
O que sempre parece engraçado é que as letras dos Engenheiros do Hawaii, muitas delas escritas unicamente por seu eterno vocalista Humberto Gessinger, sempre foram por muitos consideradas como de escrita vazia ou enganadora, um fetiche de linguagem, cheia de jargões de efeito e de pouco sentido, ou seja compostas por um discurso pseudo-intelectual.
Contudo, já tinha notado que não se tratava exatamente disso. A sina dos Engenheiros foi a de conceber letras de músicas com referenciais da literatura, artes e do espaço acadêmico mais contemporâneo, que em um país como o nosso, certamente causaria estranhezas.
Em O Papa é pop, os gaúchos estão a flertar com autores europeus que tratam da nova configuração do tempo, espaço, da cidade na contemporaneidade, ou seja autores que tratam do tempo de uma nova modernidade ou Pós-modernidade, tais como o Guy Debort e Baudrillard.

Gessinger e Baudrillard
Gessinger é provavelmente um dos primeiros no Brasil que vai explorar o pensamento de autores como Baudrillard. Neste álbum isso fica evidente e uma canção é emblemática: “A violência travestida faz seu trottoir”, em que frases como: ... a maioria silenciosa orgulhosa de não ter, vontade de gritar e nada pra dizer ... (que anuncia declaradamente as especulações de Baudrillard ao afirmar a força das massas estaria em seu subversivo desinteresse pelo mais “importante”, pela lei instituída ou pelas ideologias); ou a frase: “no ar que se respira, nos gestos mais banais ... na vitória dos iguais, a violência travestida faz seu trottoir (em que se observa sofisticado apontamento que confronta o axioma aristotélico de adequação em se tratar os desiguais à medida de sua desigualdade para se encontrar verdadeira igualdade).
E não pára por ai, também em “... na hora de dormir, na sala de estar a violência travestida faz seu trottoir” (em que recorda o mesmo autor na sua teoria sobre as lógicas sociais presentes na organização estética e do espaço do lar); ou em “uma bala perdida encontra alguém perdido ... enterra todos na vala comum de um discurso liberal (em que se vê um anúncio da regra política em vigor efetivo por traz de tantos rugidos), Gessinger afirma diferentes maneiras de opressão simbólica, econômica, do marketing, da moral e da falta de moral ou parâmetros. Descreve um panorama de um mundo em que a violência travestida de outras formas, prepara o flerte, à moda do comércio do sexo (Baudrillard teria dito, do desejo), em que por estar travestida, não é por vezes percebida.
Eis portanto um ensaio semiológico de Gessinger sob o acompanhamento dos grunhidos de uma simpática guitarra elétrica.
Esse é o clima do álbum como um todo, outras faixas denunciarão marcas de referenciais desse novo momento da literatura, artes e ciências sociais que em 1990, muita gente não tinha ouvido falar no Brasil.

Para quem tiver paciência, eis a letra a seguir:

"no ar que se respira, nos gestos mais banais
em regras, mandamentos, julgamentos, tribunais
na vitória do mais forte, na derrota dos iguais

a violência travestida faz seu trottoir

Na procura doentia de qualquer prazer
Na arquitetura metafisica das catedrais
Nas arquibancadas, nas cadeiras, nas gerais

a violencia travestida faz seu trottoir

na maioria silenciosa, orgulhosa de não ter
vontade de gritar, nada pra dizer
a violência travestida faz seu trottoir
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

no vídeo, idiotice intergaláctica
na mídia, na moda, nas farmácias
no quarto de dormir, na sala de jantar
a morte anda tão viva, a vida anda pra trás
é a livre iniciativa, igualdade aos desiguais
na hora de dormir, na sala de estar

a violência travestida faz seu trottoir

uma bala perdida encontra alguém perdido
encontra abrigo num corpo que passa por ali
e estraga tudo, enterra tudo, pá de cal
enterra todos na vala comum de um discurso liberal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir...

não se renda às evidências
não se prenda à primeira impressão

eles dizem com ternura:
"o que vale é a intenção"
e te dão um cheque sem fundos
do fundo do coração

no ar que se respira
nessa total falta de ar
a violência travestida
faz seu trottoir

em armas de brinquedo, medo de brincar
em anúncios luminosos, lâminas de barbear
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

a violência travestida faz seu trottoir
a violência travestida faz seu trottoir"

3 comentários:

  1. Mas a melhor canção ainda é 'Infinita Highway', com versos como 'minha vida é tão confusa quanto a América Central...'

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  2. Lu, tenho minhs duvidas que Gessinger tenha lido Baudrillard, mas sem duvida ambos estavam no mesmo espirito. isto é, os duvidosos anos 80. Gessinger compartilha da mesma ideologia que kundera: é por meio da metáfora que se inscreve algo no coração de um homem. Neruda também pensava isso. Acho que isso seja próprio dos poetas, que pouco sabem falar objetivamente. afinal, pobre é aquele que só se comunica por palavras. O que é intimamente ligado a baudrillard. A grande discussão ironica do frances era: o que é realidade, o que é fantasia. Eis que surge o simulacro, aquilo de realidade apropriada, fantasiada, METAFORIZADA. tudo aquilo que nos aproxima e nos afasta dos Engenheiros do Hawaii. Volto a duvida de que Gessinger saiba algo de semiologia, mas com certeza ele a aplica quando faz a brincadeira entre o Papa é Pop e Perfeita Simetria. qual é o significante? Qual é o significado? Afinal, o que nos alimenta: a crise da sociedade ou a crise não resolvida de um amor que vira calendário do ano passado??? Pontuo que vc não explorou um aspecto incrivelmente interessante entre esta conexão inusitada, que é: a ironia. A ironia é o aspecto mais interessante dos dois. Será que sabemos por onde vamos nesta infinita highway??? Ou seremos perfeita simetria????

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  3. Muito interessante esse tema, e também aponto para outra curiosidade, as músicas dos Engenheiros muitas vezes tem na letra trechos de títulos ou frases de outras músicas do mesmo autor (GESSINGER), como na música: Quanto vale a vida?, em que surge na letra o título de outra música deles ( no OLHO DO FURAÇÃO, na ilha da fantasia, quanto vale a vida?), seria isso um tipo de brincadeira, ou uma mensagem?
    Outra curiosidade, Gessinger canta em 3 ou mais tons diferentes, as vezes grave demais, as vezes agudo demais, as vezes natural...

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