sexta-feira, 24 de julho de 2009

O APOIO DE LULA - DILMA PARA PRESIDENTE E CIRO EM SÃO PAULO



Lula tem manifestado posição de apoio a candidatura de Ciro ao governo do Estado de São Paulo. Algumas resistências tem sido observadas dentro do PT de São Paulo e dentro do próprio PSB local. Dilma até algum tempo atrás era tomada como dúvida por alguns, mas quando o PT reuniu-se entorno de seu nome, notou-se que a aposta do presidente não era incorreta. Penso que o presidente Lula acerta ao apoiar Ciro como candidato a governador. As razões para tanto seguem abaixo.

Sobre o panorama paulista
Em alguns momentos da vida, temos condições de escolher. Estes momentos não nos perdoam, as conseqüências vem por meio de imposições de ordem material e nos oprimem mesmo que não nos recordemos que tivemos o poder de escolha.
A candidatura de Ciro pode representar para os coligados do PT em São Paulo, e para o próprio povo paulista, um momento de tamanha importância.
São Paulo vive mais de 20 anos sob o imperium de um único grupo político, sob uma forma única de condução política das coisas, acomodada nas práticas das elites regionais e no comodismo por parte das classes médias e pobres sob a falsa percepção de que o horizonte não pode se sobrepor a isso. São Paulo para muitos passou a ser uma terra mais difícil de se viver, a não ser pelos favorecidos por conchavos, terra de estagnação social e sobretudo de poucas oportunidades para aquele que detém somente o puro esforço pessoal.
São Paulo goza da eterna imagem de coração econômico do Brasil. Mas na ordem econômica, pose e misticismos não se sustentam por muito tempo. A atual crise econômica mundial está ai para provar que a base de realidade das coisas sempre volta para cobrar as contas. São Paulo há muito perde o protagonismo em muitos aspectos, apesar de contar com a vantagem de possuir, ainda, a maior parte dos negócios no país, tem visto isso diluir-se, a medida em que não tem demonstrado uma condução política e de integração entre a iniciativa privada e pública que digam respeito ao imperativo das novas condições de realidade nacional e internacional.
Isso pode parecer desimportante, ou um processo pouco robusto, mas somente para quem não tem o panorama do futuro como fator de realidade. Marx, entre tantas coisas, acertou na percepção de que os Estados Unidos da América se tornariam a locomotiva política e econômica do mundo, quase dois séculos antes disso acontecer, tendo por mira as atitudes e posturas que eram experimentadas naquele território. Algo “impensável” diante das condições materializadas no tempo de um império Inglês, dominante e inventor de um mundo de tecnologias, em que vivia.
A universidade pública em São Paulo há tempos tem sido desprestigiada pelos governos PSDBistas. As políticas públicas para os mais pobres, impulsionadas pelo governos Lula são blindadas e não conseguem pousar em solo bandeirante. A escola de primeiro e segundo grau, sobretudo a pública tem vivenciando problemas estruturais absurdos e os jovens não tem apreendido com a aprovação automática efetivada.

A esquerda em São Paulo
Durante antigos certames eleitorais ao governo do Estado, em que por vezes a ameaça era Maluf, o PT – principal força de resistência ao poderio PSDBista no estado - chegou a apoiar o PSDB contra Maluf. A questão que levou a tomada desta decisão fora a percepção que Maluf seria muito nocivo no governo estadual.
No contexto atual, o PT não conta com uma figura de peso para tentar vencer a ameaça de re-governo tucano. Diante de um domínio de corrupção e de consumo do erário público em obras faraônicas que representou os governos de Quércia e Fleury, o PSDB pode ter significado uma mudança de panorama para a sociedade paulista, mas o PSDB fez estagnar o estado, sobretudo para o que diz respeito a oportunidades de mudança social por esforço próprio ou de políticas aos mais pobres, até por que São Paulo tem uma vasta classe média. Ademais, continuou o modelo de política quercista.
Serra pretende ser candidato a presidência. Um espaço sobra. Pode ser, que diante da imposição de Alckmin e seu favoritismo, o PSDB acabe acatando ele como candidato, novamente. Mas o próprio Serra, pouco preocupado com a hegemonia de um pensamento e mais preocupado com a manutenção de seu grupo político que não é o mesmo que de Alckmin, insiste em lançar o seu chefe de Casa Civil como candidato do PSDB. Mesmo que seja Alckmin o candidato é necessário recordar que este foi derrotado na última eleição que concorreu, por Marta e Kassab e isso não é gratuito. Deve-se ter em mente que o peso de uma candidatura não está centrada só na imagem de um candidato, como para muitos pode parecer. Mas sobretudo na percepção de ganho e de realização política que o eleitorado perceba. Para quem aposta em Dilma, esse fator não deve ser desconsiderado. Nem sempre a maior parte da população foi favorável ao PT, nem ao menos a Lula, mas o imperativo de um governo realizador e sem precedentes na história tocam profundamente na leitura eleitoral daqueles que não são eleitores orgânicos.
Se este fator faz com que Dilma represente a continuidade de um projeto político de condução nacional, também estes mesmos pressupostos devem ser pesados, sobretudo pelo PT estadual na escolha da candidatura para enfrentar os tucanos em São Paulo.

Por que Ciro?
Ciro corresponde à melhor opção ao PT - e a esquerda paulista - no presente contexto para dar a possibilidade a São Paulo de um governo não tucano. Digo isso considerando alguns entraves:
a) que a maioria do eleitorado em São Paulo está propensa a votar em um candidato tucano, por isso é que Serra também insiste em seu candidato, já que vê possibilidade de que mesmo não conhecido, possa ao ser reconhecido como o novo tucano, vir a ser eleito. e Serra não está de todo incorreto neste raciocínio;
b) que o PT não possui um nome de peso para enfrentar os tucanos. Cogita-se Emídio de Souza, prefeito de Osasco. No caso da esquerda, parece necessário considerar que a virada do jogo depende da acomodação de dois fatores fundamentais: um nome forte, de ampla visibilidade e um liame com as realizações nacionais para que se confronte o modelo de governo nacional com o governo estadual. É nessa perspectiva estratégica que Ciro aaprece como nome que permitiria o ressoar do nome de Lula e Dilma numa unidade discursiva, já que esta representaria sua chance de vitória e também, por outro lado permitiria ganhos eleitorais de Dilma em São Paulo. Lembremos que Lula não venceu em São Paulo nas eleições de 2006; também, não foi mal votado, mas é certo que os tucanos tem forte influência sobre o eleitorado neste estado;
c) assim como o PSDB está rachado, entre serristas e alckmistas, os partidos aliados ao governo Lula podem rachar em São Paulo. A alternativa para que isso não ocorra e evite-se que os tucanos tenham apoio maior é a percepção estratégica que poderia sedimentar-se no PT da composição de uma aliança com o PSB, fechando com Ciro como candidato.
Ainda assim não significa que a vitória se viabilizará, mas as chances aumentam. Devemos recordar que estando tanto tempo no poder, os tucanos ressoam para o eleitorado não-orgânico como o sinônimo de realização possível no estado. Mas se este mesmo eleitor tem em Lula a dimensão de um bom governo no contexto nacional, com Ciro esta toma um dinamismo gigantesco. Ciro já há tempos foi reconhecido como apoiador nacional de Lula. Também Ciro, foi ministro de Lula. Ciro é muito articulado e seu discurso tem sido fortemente contrário ao modo psdbista de governar.
Deve-se ter em conta, também, para um projeto político, na democracia representativa, a noção que a maior parte do eleitorado tenha da política, ainda que esta ainda seja passível de ver-se aprimorada. No contexto atual, nenhum quadro petista, parece capaz de ingressar no referencial e na noção que o eleitorado tem da política estadual.

Mas Ciro não é de fora?
Ciro nasceu em Pindamonhangaba/SP, é paulista - sua esposa reside no estado - e já fez politica no Brasil todo. São Paulo é um celeiro de brasileiros de diferentes procedências. E muitas das questões tomadas neste estado tem dimensão nacional.Eu mesmo, não nasci em São Paulo, sou carioca, mas vivi aqui durante grande parte de minha vida e tenho aqui laços familiares e pessoais, quero o melhor para esta terra, e vejo em Ciro a oportunidade de uma mudança efetiva que o eleitorado não-orgânico possa entender e apoiar.
Nesse contexto tomar posição por Ciro é também, tomar posição clara por Dilma, reforçando sua candidatura em São Paulo, principal colégio eleitoral brasileiro, mas também, tomar posição por São Paulo e pelo Brasil. Por isso surge o clamor para que o PT regional pese a possibilidade de mudança e tome posição pela união com os demais partidos aliados do governo Lula no apoio de um nome no estado. Uma tomada de posição desta magnitude representará maturidade e leitura política e também maior disposição pelo interesse público que pelo particular.
Ademais, José Dirceu tem defendido a candidatura de Ciro como uma boa alternativa dentro de um contexto de leitura de coalizão partidária nacional. Vou reproduzir abaixo parte do texto que escrevi, em outra postagem, sobre a fala de Dirceu quando esteve em Bauru no dia 21 de junho, em um encontro regional do Partido dos Trabalhadores. No próximo tópico alguns apontamentos de Dirceu:

Defesa de alianças e concessões partidárias
Por isso a construção de um palanque nacional demandaria ao PT abrir-se para discutir nomes de outros partidos em coligações para cargos executivos. Sobretudo, diante do grande esforço em firmar uma aliança nacional com o PMDB e a mais ampla possível nos espaços regionais constituindo palanques e contextos de boa receptividade para Dilma. No Pará, Bahia e Rio Grande do Sul as coisas estão difíceis com o PMDB.
Por isso, também, Zé Dirceu defendeu que o partido estivesse aberto a discutir nomes como Dr. Hélio ou Ciro Gomes para a candidatura ao governo de Estado de São Paulo e tem feito essa reivindicação em seu blog – esse tema foi ponto de dissidência na reunião – apontando que não se trata de aceitar de imediato esses nomes, mas de colocá-los, ao menos como possibilidade de discussão partidária.
A importância dessa postura tem liame com o contexto de alianças e da conjuntura do PSDB no plano nacional e regional. O PSDB está rachado em três agrupamentos. A chapa única entorno de Orestes Quércia para o senado corre risco de naufragar e complicar o acordo local em PSDB e PMDB já que o grupo de Kassab reivindica candidatura ao senado.
Por outro lado Dr. Hélio tem grande penetração no PMDB. Já Ciro Gomes representa a consolidação de alianças no nordeste em Pernambuco e Ceará, tanto quanto a de Coutinho na Paraíba que precisam do PT e vice-versa para o fortalecimento de seus projetos, o que combinado levaria ao fortalecimento da candidatura Dilma na região.

A questão do tempo
Essa tomada de posição deveria ser a mais rápida possível. A união do PT e dos demais partidos, se possível, entorno de uma proposta de candidatura, o mais rápido possível fortaleceria a longo prazo esta perspetiva para além dos limites do campo de atuação do eleitorado orgânico, ou seja do coligado político ou daquele que se envolve com questões políticas fora do momento eleitoral. Colocaria esta notícia no seio da sociedade paulista e aproveitando-se do crescimento tendencial de Dilma, dimensionaria a candidatura Ciro como real condição de enfrentamento ao domínio tucano em São Paulo.

publicado também no dia 31 de agosto em http://desabafopais.blogspot.com/

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vazio político e o cansaço


Um dos termos muito utilizados na internet, é o de PIG - Partido da imprensa golpista. No presente artigo, tratei do movimento cancei de 2007, o que para muitos tratou-se de um movimento composto de pessoas desse núcleo de expressão

RESUMO
Deflagrado no final do mês de julho de 2007, o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, denominado Cansei, liderado pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo e com a participação de diversas entidades e personalidades da sociedade civil.
O movimento surge num momento de crise em que política goza de desprestígio e desinteresse popular. Apresenta-se como um movimento de estimulação da cidadania, paradoxalmente, sem demonstrar esforço em esclarecer e debater idéias.
Sendo, contudo, um movimento compilado por meio e a moda dos mídias, o movimento Cansei, mostrou-se até então um fenômeno midiático que não conquistou êxito e popularidade. Analisar o contexto de sua sedimentação, elementos imbricados da política contemporânea e a sua não popularidade e o comportamento de nossas elites é propósito deste trabalho.

Palavras-chave: Mídia, cultura política, marketing político, elites, movimento Cancei.

INTRODUÇÃO
Qual é a razão para que um movimento estruturado numa plataforma estratégica de marketing com ampla extensão no território nacional e com difusão em instrumentos midiáticos de amplo alcance de público, contando com apoio de diversas personalidades midiáticas ou de campos institucionais e da produção publicitária, tenha sido derrotado pelas “circunstâncias” de uma recusa ou mesmo por um certo desdém da sociedade brasileira em relação a suas intenções?
Deflagrado no final do mês de julho de 2007, o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, denominado Cansei, liderado pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo e com a participação de diversas entidades e personalidades da sociedade civil, foi criado aproveitando-se de incidente amplamente divulgado pelos mídias, o acidente aéreo ocorrido em 17 de julho de 2007, no qual faleceram mais de cem pessoas.
O movimento surge num momento de crise em que o “espaço da política” goza de desprestígio e desinteresse popular. Apresenta-se como um movimento de estimulação da cidadania, paradoxalmente, sem demonstrar esforço em esclarecer e debater idéias estruturais.
Contudo, parece importante investigar um “desinteressante” movimento organizado como esse, justamente, em virtude de seu caráter “desinteressante”, ou melhor explicando, buscar o entendimento das causas de sua derrocada, dada sua pouca aceitação pela população brasileira, que mais que esboçar uma negação aos estímulos de “sensibilização” da campanha, o que ainda assim teria sido um tipo de reação, acabaram por apresentar, de forma geral, um comportamento de não reação em absoluto, de irrelevância frente aos estímulos do movimento Cancei.
E por que seria importante investigar? A razão justificadora consiste em buscar nesse objeto de análise marcas de comportamento de elites nacionais. Tanto quanto, identificar algumas matrizes limitadoras de produção de sentido de um produto publicitário, que estão vinculadas a formação da identidade do povo brasileiro.

ESFERA PÚBLICA E SUA TRANSFORMAÇÃO
Habermas (1984) fala da configuração em nossas sociedades contemporâneas de uma esfera Pública, isso é a composição de um campo público, formado por elementos privados, que no estabelecimento de relações discursivas racionais compõem um núcleo de referência e influência (ou seja, a opinião pública) social e política frente ao Estado.
Esse conceito: esfera pública tem a pretensão de ser o resultado inferido da observação de diferentes ambientes nacionais, portanto universalista.
É certo que no caso brasileiro, dada a ausência de uma revolução burguesa, e da presença em realidade de adaptações das elites nacionais a mecanismos de adequação às mudanças estruturais que se impunham (no plano internacional, ou das contingências que poderiam levar a perda de influência e poder), tanto no plano político quanto no campo econômico-social, a constituição de uma esfera pública se fez a apartar grande parte de sua população face ao gritante desequilíbrio na distribuição econômica e educacional, bem como as arraigadas relações de exploração próprias da constituição do estado brasileiro.
Em verdade, tal autor acerta ao perceber que a transposição do poder burguês só foi possível pela constituição de um, então, novo fator de pressão, que viesse a possibilitar o apoio das camadas médias e baixas desses países, tanto quanto seu engajamento frente uma nova organização sócio-econômica que implicaria numa “natural” remodelação do poder político.
É evidente que fora da aparência discursivo-ideológica, tal espaço público de opiniões, acabou que subordinado a referências e a um modelo discursivo (forjada pela mecânica industrial da notícia jornalística e pela formalidade institucional estatal) que maquiava formas de dominação e de processos de esvaziamento de conteúdos e de ações, que visavam evitar a dissonância comportamental de grupos.
Habermas (1984) aponta como elemento crucial da constituição de tal esfera pública, o apogeu de uma sociedade burguesa européia. Para tanto inicialmente afirma que no período feudal não havia uma esfera política comunicacional pública, mas sim se fazia necessária a sustentação do poder, mediante a representação simbólica do mesmo, baseado no conceito e na presença ostentatória de superioridade que se atribuía a nobreza.
Tal ocorrência se identifica com o que Pross (1974) denominou como processo de totemização dos signos, isto é o desprendimento dos signos de peculiaridade subjetiva para constituir-se em um referencial de caráter coletivo, o que exigia um ato de desprendimento ou aceitação dos indivíduos, tendo por benefício a garantia da presença de algo (signo e texto cultural) que afrontaria a falta de referencialidade, a evitar o caos na compreensão, a morte na determinação e o medo do vazio.
Habermas (1984) nos recorda do movimento de realidade histórica, no qual assistiu-se o desenvolvimento do mercantilismo europeu, junto a sofisticação dos modos produtivos e a conseqüente disputa por poder político antes ocupado exclusivamente pela nobreza medieval, que passou a exigir proteção “institucional”. Nesse contexto, a idéia de Estado nacional passa a ser defendida e difundida, o que implica, por conseguinte no fortalecimento do mesmo tendo por escopo atribuições de “ordem pública” (ou seja, de um campo de ações mais largo do que o da atuação estamental da nobreza), emerge a idéia de poder público, que começa a se afastar da noção privada de poder dos nobres.
Nesse intercâmbio entre mercantilismo e poder público nacional, o Estado vinculado a nobreza e o modelo econômico forjado pela burguesia se fortalecem.
Um embate de interesses se impõem. Percebendo-se do poder da nobreza, como entrave, e buscando evitá-lo, a burguesia acaba por patrocinar a difusão do ideário do liberalismo econômico e também de um poder político baseado num princípio racional e não dogmático, que ora permitia arranjos com a “tradição” que preservava parte dos interesses da nobreza (como no caso inglês), outrora, rompiam bruscamente com estes últimos, passando então a atacar a ideologia do poder justificado pela superioridade sanguínea da nobreza. Por isso, então, surge o que Habermas define como esfera pública.
Tal espaço de forja de opiniões, em razão das condições do período e visando transformar as linhas de força sociais tinha por características básicas, além da independência face ao poder do Estado, a reunião de elementos privados num ambiente ou espaço público que racionalmente produziriam uma opinião pública, por meio do debate, deflagrando assim o surgimento de uma sociedade onde o argumento se sobrepõe a idéia de hierarquia ordenadora da sociedade (claro que restrito a um seleto grupo de classes médias), fortalecendo conceitos como de cidadão, ou de direitos individuais com status de importância superior a idéia de aristocracia ou nobreza. Forjava-se assim uma instância coletiva da concepção de textos culturais de caráter público, e que punha o Estado a mercê dessa influência.
Não obstante essa nova configuração de valores, a sociedade burguesa detinha já como organismos basilares de sua ação de poder a propriedade e o Estado que fundado num contrato social, acabaria tendo por papel defendê-la. Esse ideário foi amplamente difundido e agregado à concepção de função do Estado, ideário liberal.
Disso como sabemos, desenvolver-se-á uma nova ordem organizadora do trabalho, em que a relação de emprego combinado a uma ação abusiva de exploração das vidas humanas submetidas a tal império, assistem a eclosão posterior de movimentos sociais que viriam a lutar pela garantia de direitos aos trabalhadores.
Nesse contexto, o Estado passa a ser instrumento de uma nova elite, e a defender e estimular seus liames de controle para com a sociedade.
É então, após a fixação de tais direitos sociais, que se cria, também, um discurso que defende a idéia do trabalho como valor positivo e que o homem teria dignidade por ser trabalhador, qualificando positivamente sua subordinação.
Tal ideário, fortalecido como texto cultural, alimenta psiquicamente o trabalhador (relação de totemização), suavizando, ou justificando sua condição de submissão a uma ordem social em que não mais o ócio do nobre representa superioridade, mas a possibilidade de obter produtos pelo trabalho conferirá um maior ou menor status social ao homem.
Para tanto surge a necessidade de não se permitir que a publicização de idéias fomentadas pelo embate racional, revelasse a idéia de submissão, o que poderia traduzir-se em revolta social, ou mudança da ordem instituída. Mas de alguma maneira, buscar fortalecer um novo mecanismo de troca simbólica que sustentasse então esse novo domínio do detentor dos meios de produção de bens.
É por isso que aos poucos, inicia-se o desenvolvimento de entidades privadas, estimuladoras de idéias para a formação controlada de uma esfera pública, por meio da imprensa.
Desenvolve-se desde então técnicas que visam tanto persuadir por meio de um discurso racional de que a ordem social, mesmo baseada em diferenças sociais se justifica, quanto suprimir do espaço de discussão pública qualquer informação que possa vir a produzir intentos revolucionários, ou prejuízo nas relações de domínio, a partir da constituição de narrativas da vida social que naturalizassem as condições de vida da maioria subordinada.
Por isso alguns teóricos dirão que a publicidade deixa de se consubstanciar em elemento de controle do poder público e passa a referendar tal poder que defende interesses da elite econômica e política através da manipulação de uma opinião “pública”.
Desde então a elite passa a fomentar os grandes conglomerados capitalistas a investir em mecanismos de difusão informativa, visando sempre criar uma idéia de consenso social e encenar uma opinião pública.
A crítica preponderantemente é maquiada. Sintomas de consenso e idéia de Estado Social são difundidos, o que não quer dizer que correspondam a realidade experimentada pela maioria, mas que mina a ação reivindicatória desses últimos, permitindo a naturalização do status quo, e ocasionalmente barganhas com focos mais organizados da população subordinados ao poderio econômico, visando equilibrar, o regime dominante.
Assim, busca-se disseminar idéias a serem integradas as práticas culturais, impregnadas da idéia de autonomia: por meio da valorização da idéia de indivíduo, mas estimulando a todo o momento a noção de valor cultural aos objetos de industria e comércio difundidos, transforma-se o público no individual compartilhado que por sua vez é fomentado pela produção em série, aproximando a idéia de cidadania a de direito de consumo.
Tal fenômeno é tão bem sucedido, que a imprensa também se tornará em uma indústria de produtos informacionais. Estabelecendo-se, também nesse caso a concepção de um modelo de produto cultural subordinado a noção de hierarquia social, sustentado por uma mecânica de aquisição de bens.
Essa mecânica envolve os produtos e mensagens por um invólucro que busca encobrir e esconder sua deteriorização e falhas.
A monetarização da sociedade e seu vínculo a produção em série convertem o valor de uso dos bens e das informações em algo atraente, aprazível. O valor de troca dos bens e informações são estabelecidos pela produção em série. Não há vínculo, isso é, valor de uso que não esteja calcado na aquisição comercial. O cidadão se converte em consumidor, e seu maior valor se dá, no quanto seu trabalho possa comprar, bem como quais bens possa possuir, portanto se garante ao cidadão-consumidor o direito de trabalhar o tanto mais para obter renda e então exercer seu direito de comprar o melhor dos bens e assim, por meio deles, obter maior ou menor apreço. Eis que na mecânica da atribuição axiológica dos objetos, passa-se a considerar fortemente o valor econômico do mesmo e a transferência desse atributo positivo ao seu possuidor. O individualismo passa a compor as bases de um coletivo composto de indivíduos individualistas e competitivos que sem perceber aceitam liames de subordinação e hierarquização, e captam a noção de público daqueles que fomentam informativamente os produtos de consumo (mídias), encaminhando o embate não para construção racional de uma opinião pública, mas para suplantar o outro, ou melhor, comprar o bem mais venerado.

DEMOCRACIA DE PÚBLICO E O SIGNIFICADO DA POLÍTICA
Em razão do que já se apontou, não é estranho notar, que mesmo nas democracias representativas, os detentores do poder político também correspondem às castas de maior poderio econômico ou de bens culturais valorizados, de maior prestígio, portanto.
Nesse contexto é bom sublinhar a força que obtém as pesquisas de opinião e o marketing político como instrumento para vender a política apoliticamente.
Surge daí o conceito de Bernard Manin (1995) de democracia de público. Segundo ele, esse é o modelo que vigora nas sociedades ocidentais, em que o eleitorado se resume a um público que reage aos termos propostos no palco da política. O eleitorado, o cidadão é público. Os mídias são transmissores de propaganda.
Não há mais opinião pública, mas uma impressão, um clima de opinião.
Assim, tem-se um espaço em que não prepondera nem autonomia, nem racionalidade, mas sim um ambiente em que o cidadão, tal como consumidor tem necessidades previamente levantadas e introduzidas no discurso político. Ademais, as soluções se estabelecem fora do eixo da racionalidade, sem qualquer liame causal satisfatório, mas prometidas e vinculadas a idéia de resolução vinculada a figura de um indivíduo que goza de marcas de prestígio, e os projetos quando expostos são perfunctórios.
Este discurso se sustenta, posto que uma das bases fundantes da cultura, é a idéia de totemização que o homem estabelece para com os objetos ou valores que tem distante de si, ou de sua realidade empírica, mas de que se utiliza para fazer frente ao temor de ter consigo um problema que não se possa superar gerando um conflito psíquico vinculado a noção de morte, conforme já se apontou.
O marketing eleitoral ou político (não necessariamente vinculado ao período eleitoral e muito menos as instâncias partidárias) passa a representar quase sempre a um risco de despolitização da política e da democracia, dado que o cidadão acaba sendo substituído pela figura do consumidor/eleitor. Veja que nesse contexto o marketing político da campanha eleitoral só se torna mais evidente dada a presença do certame político, contudo, em todos os momentos ele se faz presente, na medida em que responde a interesses da manutenção da ordem política, melhor dizendo, do mercado da política.
Baudrillard refere-se a esse momento:
“ Por uma torção inesperada e uma ironia que já não é a da história, é da morte do social que surgirá o socialismo, como é da morte de Deus que surgem as religiões. Chegada astuciosa, acontecimento perverso, reversão ininteligível à lógica da razão. Como o é o facto de o poder já não existir, em suma, senão para esconder que não existe. Simulação que pode durar indefinidamente pois, contrariamente ao “verdadeiro” poder que é, ou foi, uma estrutura, uma estratégia, uma correlação de força, um problema, este, não sendo mais que o objecto de uma procura social, e portanto objecto da lei da oferta e da procura, já não está sujeito nem à violência nem à morte. Completamente expurgado da dimensão política, o poder depende, como qualquer outra mercadoria, da produção e do consumo de massas. Todo o brilho desapareceu, só se salvou a ficção de um universo político” (p. 38, 1991).
O mesmo autor em outra obra (1972) desenvolve a idéia de que, em nosso momento atual, o que é a pedra fundadora das relações de consumo não é a necessidade propriamente dita, mas antes de tudo relações de valores hierarquizados vinculados a uma significação do social, que fazem da própria vontade um mecanismo para se estabelecer dominação ao sujeito. Por isso fomentar valores importa em poder. O que não foi recusado pelos articuladores do movimento Cancei.
Baudrillard afirma que por detrás de todas as superestruturas da compra, do mercado e da propriedade privada, é sempre o mecanismo da prestação social que se deve ler na escolha, ou seja, acumulação, manipulação e consumo de objetos que se sustentam por uma mecânica de discriminação e prestígio que compõe por sua vez os sistemas de valores de uma sociedade integrada hierarquicamente.
Acrescenta também que os objetos, num “excesso de presença”, ou seja, ligados a sua capacidade mobilizadora do desejo de ser possuído, não se limitam a sua função, mas constituem o seu significado na capacidade que tem de determinar em que categoria social o seu possuidor passa a ser prestigiado.
Essa lógica de fomento de significado está na base de toda a publicidade midiatizada, inclusive política. Por isso superlativizar valores, recolher do campo do discurso os liames causais e supervalorizar figuras individuais desprezando a idéia de coletividade, se faz presente na abordagem da temática política.
Nisso se experimenta o olor de democratização pelo álibi democrático do universal do consumo. E em nossos dias as necessidades humanas e os bens materiais e culturais tomam conta do espaço que outrora fora preenchido pela religião e a posteriori pelos ideais humanistas de liberdade e de igualdade.
Tal apreensão do universal do consumo leva a condução das campanhas eleitorais ou políticas, mesmo institucionais, ligadas a estratégias da publicidade de mercado, o denominado marketing eleitoral, que segundo Kerbauy (2007) representa um risco de despolitização da política e da democracia, o cidadão é um consumidor/eleitor, que adquire produtos embrulhados sem conhecer o conteúdo e os processos de produção e maquiagem, eis o fenômeno do esvaziamento da política.
O movimento Cancei se fez constituído por diversas instituições, todas as quais ligadas a alguma classe profissional de prestígio econômico ou social, ou ainda por setores vinculados a produção ou comércio, bem como instituições detentora de caráter eminentemente elitista, como é o caso da maçonaria.

A RELAÇÃO DOS SUJEITOS E O PODER
Pross (1974) salienta que o significado que o homem retira dos objetos e das informações a que tem contato, se estabelecem como algo assimilado em razão de uma relação, que tem como elementos integrados: (1) o objeto observado, (2) o meio que lhe permite ser convertido no terceiro elemento, (3) a interpretação ou consciência interpretante.
Falar de política nos evoca de imediato a percepção que se está diante de um particular universo de significados, portanto de relações submetidas ao império de interpretações, sugeridas ou não, que acabam por compor um referencial social fundamental.
Quanto a referenciais, Pross (1974) salienta alcances, ou efeitos, fundamentais de um objeto ou mensagem: um deles é a possibilidade de evocar certa realidade particular aferível na imanência do próprio objeto ou nos referenciais e narrativas que o objeto evoca.
O caso particular da política guarda algumas particularidades. Sendo a política um modo de organizar, trazer regras ao plexo das relações de convivência humana, é destarte, um espaço submetido à mecânica da persuasão de outrem. Seja, aliás, por meios de robusteza física, violenta ou pelo manuseio das falas e mensagens, dependendo do momento e ambiente social.
Desde a revolução burguesa, como já se apontou, passou a esfera política a gozar do instrumento do discurso como mecanismo justificador daquilo que se experimentava como possibilidade de enfrentamento de um modus operandi da política, baseada num instrumental dogmático dos reis, ou na teatralização da superioridade dos nobres.
Contudo, em sua dinâmica revolucionária, a nova elite, acabou por promover um discurso de uma nova realidade política baseada, na idéia de confiança no Estado, o que Pross (1974) assevera estar baseada em grande parte no reconhecimento que é resultado da satisfação da confiança originária de que algo se dá mediante aquele instrumental, ou seja, aquilo que lhe fazem compreender como Estado. Nesse contexto, percebe-se que a aceitação de um modelo político não se dá necessariamente pela compreensão ou participação profunda do sujeito, mas por meio de um vínculo de natureza afetiva do mesmo, que se consubstancia tanto no apreço, mas, sobretudo na idéia de realidade e inevitabilidade que o sujeito emprega ao Estado ou ao modelo político vigente.
O elemento fulcral de estabilização de um modelo vigente é a sua naturalização, ou seja, sua inevitabilidade. Pross (1974) aponta que no caso da compreensão da realidade política, a base de numerosas e contraditórias relações que são inerentes às ações humanas se vão acumulando uma provisão de signos que se poderia denominar muito bem por material familiar, pelo que se prova e é repetidamente conhecido. Sua não problemática repetibilidade, ou seja, que parece não submeter ao golpe de alguma mudança repentina sua confiança originária, é algo que estabiliza o sujeito.
Por isso, tão logo concebida a idéia de Estado moderno, pelos burgueses, estabeleceu-se a iniciativa da propagação de notícias vinculadas a um universo narrativo que propunha a estabilidade inevitável do progresso e bem da humanidade, evitando-se evidenciar os reais propósitos para a consecução desse suposto projeto.
Não é por acaso que autores como Mezzarós (2004) e Chauí (2000) defendem a idéia de nação como uma construção bem articulada com o propósito de estabelecer unidade afetiva entre os homens entorno a um projeto político emergente.
Por isso Pross (1974) aponta que com a ausência de questionamentos, a consciência interpretante do sujeito se estreita numa continuidade relacional, vez que tal consciência só se poderá ver dilatada com a convivência de uma crise que abra porta para relações de significado diferentes.

AS ELITES E O DESENVOLVIMENTO PRODUTIVO BRASILEIRO
VIANA e CARVALHO (2000) apontam que o desenvolvimento civilizatório nacional sempre ocorreu no confronto da mecânica patrimonialista de nossas elites e do estímulo liberal de modernização por parte do Estado.
Essa polarização sempre dominou o estado da arte no desenvolvimento produtivo nacional. O Estado novo, segundo apontam, representou um momento histórico em que o Estado, visa expandir as relações de trabalho e impulsionar o Brasil a situações de desenvolvimento industrial e urbano, tanto quanto de modernização de processos de monocultura por meio do controle estatal das normas de trabalho, incentivo controlado as a organização das corporações de trabalhadores e da garantia de melhores condições de trabalho, visando um maior desenvolvimento dos setores produtivos.
Contudo, segundo Viana e Carvalho, em todos os momentos em que o Estado impunha um processo de garantia de direitos e organização do espaço de produção, movimentos das elites, sempre reagiram num sentido patrimonialista, que explica até hoje contextos de afastamento das proposições e ações do aparelho normativo estatal, em relação às efetivações políticas e de organização efetiva da sociedade.
“No Brasil, se a via de republicanização democrática pelo mercado encontrou, em algum momento, a possibilidade da sua realização, isso se deu no Estado de São Paulo, único estado da Federação onde a dimensão do interesse se projetou em escala afirmativa. Ali, sem dúvida, estavam dadas as pré-condições para um trânsito bem-sucedido a uma ordem social competitiva, e que viesse, depois, a se difundir pelos demais estados da Federação, como, aliás, recomendava Alberto Salles. Dois movimentos, porém, originários de suas elites, obstaram essa vasta operação hegemônica: de um lado, a engenharia política que, no começo da Primeira República, as levou à solidarização com a ordem patrimonial por meio do sistema político do coronelismo; de outro, a sua concepção estreita e excludente da ordem liberal, que as manteve refratárias à incorporação das classes médias urbanas e da classe operária ao seu sistema da ordem. Assim, foi o liberalismo excludente das elites de São Paulo que o comprometeu com o patrimonialismo, tornando-o incapaz de se abrir a critérios universalistas e impedindo a matriz do mercado de cumprir um papel mais forte na construção da práxis republicana no país.
Quando, na década de 30, se intensifica o processo de modernização burguesa, aquela matriz já não é mais livre, nem vige o livre-contrato; ela se encontra regulada politicamente pelo Estado, com todos os seus principais atores no interior da estrutura corporativa” (VIANA e CARVALHO, 2000, p. 30 e 31).

Constata-se daí, um ethos conservador no espaço das elites nacionais e um despregamento dessas em relação ao arranjo da realidade social consubstanciado por práticas sociais dos grupos subalternos, pelo discurso idealizado pelos comandos normativos, mas não efetivados no espaço da realidade social, um descompasso entre o processo produtivo e o discurso de políticas que acaba fazendo desse último, mero instrumento simbólico e de barganha social.
Por isso, é que por vezes, nossas elites, acabam que sofrendo uma espécie de miopia da realidade da sociedade em geral, quando busca catapultar sentimentos alheios.
A lógica em geral, estimulada pelos reclames publicitários, gira em torno do estímulo a compra de produtos associada a um modo de diferenciação que é inerente a escolha dos bens e que é projetada em formas discursivas de diferenciação social do adquirente.
Contudo, nem sempre essa lógica é vigente. Após, 2006, com a reeleição de Luís Inácio Lula da Silva, o apoio as medidas do governo, tinham como base de sustentação políticas públicas que eram percebidas de forma direta pelas classes econômicas C, D e E. Assim o elemento simbólico de referência a ordem política do estado em vigência, se configurava em situações de proximidade da realidade social desses grupos que não poderiam ser superadas pela forma com que foi elaborada o material de campanha do movimento Cancei.
Tal material repercute os modos com que normalmente buscam as elites nacionais, produzir efeito simbólico nas classes subalternas, ou seja, a partir da introdução de um processo simbólico mediador que conta com o efeito de afastamento do sujeito em relação a realidade objetiva que se pretende estimular em realidade.

CANSEI: MOVIMENTO? SOCIAL? POLÍTICO? MIDIÁTICO.
Ironicamente, no discurso do movimento tem-se a menção indireta de que a sociedade brasileira não se manifesta ativamente contra os problemas sociais, não reivindica soluções, mas ao mesmo tempo tal discurso não faz qualquer alusão ao debate de idéias, a difusão de propostas.
Um de seus principais articuladores Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo declarou que: "O propósito dessa articulação é demonstrar a indignação diante de várias questões. É uma sinergia de esforços de profissionais das mais diferentes áreas, todos voluntários, que retratam a indignação dos brasileiros" .
Muitos analistas políticos têm considerado que tal movimento é mais uma iniciativa maquiada de ação política contra o governo federal, tal compreensão verifica-se da fala de do Professor Barros Filho:
“O movimento Cansei é o retorno do recalcado. A derrota de Geraldo Alckmin, para quem estuda os meios de comunicação como eu, é um enorme mistério. Para quem ensina que a mídia produz efeitos extraordinários de condução da opinião pública, agenda os temas políticos fundamentais etc., você imaginar que um candidato ganha com enorme facilidade uma eleição na contramão de toda a mídia de massa do país é, no mínimo, estranho. Parto da premissa de que a mídia produziu sim um grande efeito - se não tivesse produzido, a derrota teria sido ainda mais acachapante. Ora, depois desse massacre eleitoral...
Quando o candidato é o que interessa, aí a festa é cívica, a voz do povo é a voz de Deus e o resultado das eleições é soberano. Quando o resultado não interessa, aí o movimento Cansei é levantado como legítimo etc. A meu ver, esse movimento é um golpe. É uma tentativa de golpe daqueles que foram violentamente derrotados nas eleições” .
O movimento Cansei buscando visibilidade e produção de efeito político, utilizou-se da difusão de suas mensagens por meio de diversos mídias: rádio, televisão, jornais e revistas. Em todas elas o conteúdo exposto, apesar de diferentes modos de composição da imagem e edição, acabavam sendo muito parecidos se não iguais.
Por isso que a seguir encontra-se selecionados em seqüência os produtos da campanha realizada em jornais e revistas pelo movimento, que se colheu para análise de conteúdo.
A análise da composição de cada um desses produtos midiáticos permite, na identificação de elementos semióticos invariantes que se encontram na base da formação da cultura, extrair indícios de intencionalidade no ato da composição dos produtos.
Veja que para tal campanha foram produzidas oito seqüências de mensagens, sendo sete delas acompanhadas de uma figura humana e uma última contendo apenas signos verbais e cor.
Assim inicialmente pode-se verificar que em todos os quadros existe a predominância de coloração escura que junto à imagem humana é confrontada por um tom claro em degradê que por tal razão demarca a presença de uma polarização entre claro e escuro, o que para Pross constitui uma das experiências pré-predicativas fundantes das narrativas da cultura.
Nos presentes quadros a polarização de cor acaba por produzir no observador a imersão num ambiente de negrume que implica numa impressão negativa, que no caso em tela tem a intenção de demarcar a idéia de que o momento histórico retratado é negativo, carente de esperança. Contudo a incidência da luz tem acaba por chamar atenção ao observador daquilo que pode representar um confrontador de tal negatividade. E é por isso que a claridade de fundo é contígua as berrantes letras brancas que compõem o nome do movimento: CANSEI. Assim, percebe-se intenção de vincular a idéia do movimento como uma luz (aspecto positivo), para um momento escuro, eivado de negrume.
Não é por acaso que a imagem das figuras humanas encontra-se no plano de fundo da palavra cansei e que todos os personagens tem seu braço direito sobreposto ao seu peito, clamando a idéia de comprometimento emocional e patriótico de cada um deles.
A palavra cansei se encontra horizontalmente acompanhada de outras mais a compor diferentes mensagens de indignação que dão conta das principais questões pautadas pela mídia nesse momento histórico e que são apontadas como problemas de estrutura político-social do país: Cansei de pagar tantos impostos para nada. Cansei de empresários corruptores. Cansei de CPIs que não dão em nada. Cansei de presidiários falando ao celular. Cansei do caos aéreo (menção a problemas da administração aeroportuária presentes no período). Cansei de tanta corrupção. Cansei de bala perdida.
Verifica-se o apontamento de reclamos de natureza pública que os mídias haviam vinculado nas narrativas noticiosas a responsabilização, na maioria dos casos, ao governo federal, imputando em todos os casos falhas por parte do mesmo: alta taxação tributária, corrupção licitatória, ineficiência da atuação do legislativo federal, poder paralelo da criminalidade organizada, má administração aeroportuária, corrupção, e violência urbana.
Contudo não há teor explicativo, nem clareza propositiva. Portanto é possível inferir um enfrentamento frente ao governo federal.
Contudo, para mascarar a ausência de reclamo social espontâneo, ou seja o fenômeno do esvaziamento, desinteresse para com o político, utilizam-se de figuras que estereotipam tipos sociais:
Campanha veiculada em jornais e revistas
Fig. 01

A dona de casa de pele morena que não entende a razão de pagar tanto por nada, veja, os tributos são fomentadores da atividade do estado, a redação reducionista da compreensão profunda de questões públicas é evidente no tratamento da mensagem.
Fig. 02

Eis um homem de fenótipo a sugerir idade entre 30 e 40 anos e com camisa a recordar uniforme de um operário vinculado a insatisfação quanto a empresários corruptores, menção indireta ao caso muito explorado pelos mídias e denominado mensalão.
Fig. 03

Jovem de cabelo um pouco comprido, boné e roupa despojada que parece compor personagem de um tipo universitário ou de profissional liberal, esse está vinculado a idéia de CPIs que não dão em nada! Visão certamente reducionista do processo político.
Fig. 04

Ao tratar do crime organizado nos presídios, a figura sóbria masculina com camisa clara a conclamar paz cai como luva.
Fig. 05

A imagem seguinte é de uma jovem vestida de preto, conclamando luto ao recente desastre aéreo que teve como resultado a morte de dezenas de pessoas; tal personagem usa aliança que recorda a idéia de compromisso. Fig. 06

Figura de uma mulher magra, detentora do padrão estético de prestígio na publicidade comercial, e que conclama o mais difundido dos males que se buscou vincular ao governo federal e ao Partido dos Trabalhadores nesse contexto histórico: tanta corrupção (ou seja, demasiada, mais do que outrora, do que antes do governo petista).
Fig. 07

A última das figuras reclama de balas perdidas, evidentemente, é a de um senhor negro. Fig. 08

Fonte: http://blog.cansei.com.br/


A busca pela impressão de processos identitários é evidente, veja que nesse último caso a população negra está vinculada às mazelas da violência urbana. Outro traço que busca estimular processos identitários é a forma com que são completadas as diversas frases, após a palavra cansei, com grafia manual. A idéia de mobilização e de incorporação e mal estar de diversos nichos sociais é
A evidência de que tal movimento não busca fortalecer uma esfera pública democrática se observa.
A idéia de proposta para resolução não se evidencia, tão somente a de indignação que pela coincidência com a pauta da imprensa se vincula a uma afronta a imagem do grupo político que detém o poder político no âmbito do executivo federal por parte dos articuladores do movimento.
Portanto, a campanha publicitária do Cancei se vincula a uma matriz de composição de discursos que se compromete com uma mensagem de rompimento psíquico, insatisfação, mas não evoca elementos outros, a permitir que o momento de desconforto psíquico se sustente em longo prazo.
O grande problema é que a única forma de promover esse efeito último é vincular tal desconforto a uma narrativa viável, verossímil, passível de ser compreendida como real. Para tanto, contudo, seria necessário motivar a discussão dos temas e elevar o nível do conteúdo exposto a tal que não se permite numa campanha dessa natureza e tendo como veiculadores uma elite que tem ao seu favor o status quo, e, portanto, não prescinde de grandes reformas.
Assim percebe-se um dilema que contamina os conteúdos e a postura do movimento que é de tentar coadunar rompimento radical com uma idéia conservadora, mudar, ou seja, optar para uma mudança que nada modifica.
Por isso fica difícil promover o efeito de uma totalidade de sentido que não se pode evitar.
Mesmo sendo os conteúdos vinculados nos materiais publicitários, frutos de sondagem preliminar, contudo, tendo sido apresentados sem um vínculo que permitisse fazer de tal conjunto difuso algo a determinar uma unidade discursiva, acabou-se decerto a transparecer algo que não detém a estatura mínima para o convencimento do padrão básico de um cidadão adulto convencional.
Morin (1975) em sua análise acerca de elementos componentes da complexidade social, apoiados em matrizes biológicas, afirma que na formação dos grupos sociais, a individualidade está fortemente vinculada a uma ação afetiva, espontânea e menos refreada pelos liames regulares e rígidos das ações socialmente determinadas e concebidas como “obrigatórias”.
É por isso que uma mensagem de cunho político que queira reverberar socialmente, há de buscar formas de ser assimilada como algo que afetivamente se vincule a individualidade, isto é, como algo que seja uma afirmação de algo existente, crível e que, portanto não evidenciará no sujeito a sua incapacidade e vínculo com a dúvida e incertezas, afirmando-se como um mecanismo de confirmação da personalidade do sujeito.
Quando, contudo a mensagem busca inflar nos receptores o intento de mudança, de confrontação, para preservar seu poder de vínculo, é de bom proveito, segundo Morin (1975), que esteja a mensagem de ruptura, de crise, vinculada, na sua própria percepção do problema, a um mapeamento que ao menos sugira alternativas, ou apresente um projeto alternativo sólido. Tais processos de ruptura, quando se evidenciam na prática espontânea do sujeito, inevitavelmente fazem-no ativar suas faculdades conscientes e inconscientes na procura de uma resposta para a incerteza ou a substituição por um fator de outra natureza que nesses casos acaba por fazer do momento de crise, algo quase que imperceptível pela consciência do indivíduo, e recusada por mecanismos do inconsciente.
O trabalho publicitário apresentado também evidencia, além da ausência de aprofundamento do discurso a difusa e desconexa relação entre os temas, a não ser quando se evoca relação com as críticas jornalísticas ao governo federal.
Tais características se evidenciam nas diferentes frases e no esforço de vínculo afetivo e identitário que se consubstancia na apresentação de figuras estereotipadas, junto a cada uma das imagens.
A idéia de crise e solução se evidencia no uso da base escura da foto transposta a um foco de luz clara, a evidenciar a luz no fim do túnel que o movimento possa apresentar.
Mas a idéia não se confirma em mais nada.
O que se evidencia na mensagem é em verdade a evocação de elementos que recordam a idéia de unidade (quer formar um grupo que apóie o movimento) e de afetividade, sobretudo quando evoca a idéia de nação (os indivíduos com as mãos no peito, ou a diversidade tipológica dos mesmos, a recordar um padrão particular da população brasileira, que é a diversidade na sua formação étnica).
Mas parece que todo esse esforço não se concretizou na mobilização de grande número de apoiadores. Passados seis meses de seu início, pôs-se fora de cena, sem dar sinais de qualquer iniciativa e deixando seu blog (principal mecanismo de divulgação) desativado.
A própria falta de objetivos transparentes atrapalhou tal investida. Ademais, uma parte substancial da mídia e de intelectuais se opuseram a iniciativa, o que acabou por arrefecer sua força e continuidade.
Contudo, além desses elementos apontados, faltou por parte dos partícipes do movimento uma ação coordenada e insistente, o que se firmaria decerto, se estivesse calcada em objetivos claros e declaráveis publicamente. Isso, tal movimento não conseguiu fazer transparecer. Talvez não houvesse dor suficiente por trás da iniciativa, ou ainda, talvez tenham alguns cidadãos, terminado vencidos pelo cansaço.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BYSTRINA, Ivan (1989). Semiotik der Kultur: Zeichen – Texte – Codes. Tübingen: Stauffenburg.
BAUDRILLARD, Jean (1972). Para uma crítica da economia política do signo. Lisboa: Edições 70.
_____________ (1981). Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d'Água.
FOLHA ON LINE. (2007). Grupo lança movimento "cansei" do caos aéreo e da corrupção. http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u315425.shtml. Acessado em 26 de 07 de 2007.
HABERMAS, Jürgen (1984). Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro.
MANIN, Bernard (1995). As Metamorfoses do Governo Representativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.29. São Paulo.
MATTELART, Armand (1994). Comunicação-mundo: história das idéias e das estratégias. Petrópolis: Vozes.
MESZÁROS. Istvan. O Poder da Ideologia. São Paulo: editora Boitempo, 2004.
MORIN, Edgar (1975). O Enigma do Homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
PROSS, Harry (1974). Estructura simbólica del poder. São Paulo: Técnica J. Catalán.
KERBAUY, Maria Teresa (2007). Marketing Eleitoral e agenda política. In: DOS SANTOS, Célia Marcia Retz Godoy (org.). Opinião Pública e Marketing Político. Bauru: Editora Faac-Unesp.
VIANNA, L. W. & CARVALHO, M. A. R. (2000). República e civilização brasileira. In: BIGNOTTO, N. (org.). Pensar a República. Belo Horizonte : UFMG.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O AUMENTO DO PODER DE COMPRA E A CLASSE MÉDIA


Para Arthur Virgílio a classe média (incluindo ele!) estaria viajando para a Europa nos últimos tempos, com alguma facilidade.
(Essa tem sido a fala do senador do PSDB ao tentar explicar o empréstimo de Agaciel Maia)
A última pesquisa da Ipsos decerto justificaria a resposta, mas senador, não é qualquer classe média que pode, ainda não, meu caro, ainda não!!



A recente pesquisa sobre renda e poder de compra
Nesta postagem e talvez em posteriores vou tratar um pouco do tema de acréscimo do poder de compra - ou seja, do que sobra para comprar - que foi objeto de pesquisa realizada pela Cetelem em conjunto com Ipsos.
Em tal pesquisa, segundo relatou Iris Bertoncini em matéria publicada em 02/07 no Diário da Manhã de Goiania, constatou-se que “a renda da família brasileira cresceu em todas as classes sociais na comparação de 2007 com 2008, embora em proporções diferentes. Os ricos ficaram mais ricos, 16,6%. Já na classe C, a maior parcela da população, a receita subiu 13%. Entre os menos favorecidos economicamente, a camada D/E, também houve registro de alta, mas apenas de 12%. Apesar do bom desempenho salarial, o brasileiro de forma geral, não conseguiu subir de posição social”.
Outro fator apontado pela jornalista acerca da pesquisa é que "em comparação aos três anos imediatamente anteriores, apenas os consumidores do Brasil e da Polônia avaliaram que a situação econômica melhorou em 2008. Na amostra de 17 países encontram-se Inglaterra, Espanha, França, Rússia, Itália, Coreia do Sul, Portugal e Alemanha, entre outros. “Este é um dado que pode confirmar que a crise econômica ainda não foi percebida pela população e há até um certo ‘descolamento’ da gravidade da situação global com a realidade vivida hoje pelo brasileiro”, afirma o levantamento". A pesquisa realizou 1.500 entrevistas domiciliares em 70 cidades, abrangendo nove regiões metropolitanas.


Falando da “média”
A seguir algumas reflexões - talvez “pitacos” - acerca, deste quadro tendo em vista sua relação com a agenda de governo posta em prática a partir de Lula.

1. Um primeiro ponto que deve ser considerado é que a classe média no Brasil aumentou numericamente e proporcionalmente, mas não significa dizer que a classe média possa ser medida tão somente pelo viés do ganho econômico, nem que detenha um único perfil dominante. Portanto, deve-se ter em conta uma classe média de “emergentes” e uma classe média já detentora desse posto, a longo prazo. Em geral, mas mais especificamente na classe média constituída de longo prazo, há uma característica que a diferencia dos pobres no Brasil, a classe média é marcada por uma certa autonomia econômica e de posição social frente aos bens de consumo, já os pobres no Brasil não tem a marca da autonomia, mesmo que relativa.

2. A classe média, portanto, representa a somatória de uma autonomia relativa de renda, do ganho efetivo de renda mediana, de um particular “status” simbólico e de comportamento que serve como modelo do homem médio, mas tomada por um moralismo que em momentos de debate político ou de disputa eleitoral é caracterizado por um conservadorismo institucional. “O tema da moralidade é próprio a essa classe média moderna”, conforme aponta Luiz Werneck Vianna (em entrevista oferecida a Revista do Instituto Humanitas da UNISINOS, publicada em agosto de 2008) que acrescenta: “Esses setores que estão levantando essa bandeira da moralidade estão vindo de dentro do Estado (Polícia Federal, juízes de primeira instância, mídia, Ministério Público)”. Essa marca moralista da classe média é que leva a muitos a manifestarem repúdio a política de assistência aos pobres, tais como o Bolsa Família, e manifestar como argumento que tal política não promove “autonomia” aos favorecidos, sem perceber que os pobres não atingiram ainda condições de detê-la ou reivindicá-la e precisam passar primeiro por esta etapa de auxílio.

Mas apesar disso, é possível pensar que o contato destes setores de classe média com o dos “emergentes” e a contemplação de recentes políticas de auxílio direto (para a classe média) como o programa “Minha casa, minha vida” produzirão uma percepção mais apurada e dentro do plano político, fora do domínio de rompantes moralistas.


Moralismos tucanos
O moralismo é importante, mas tem sido conduzido ao seu extremo, resultando em discursos acusatórios que tomam conta de dimensões de direitos e da política.
Devemos atinar para os interesses e conflitos de interesses e então coordenar um processo satisfatório de “contrato social” efetivo, isto é sociabilidade. José Serra, por seu autoritarismo, falta de flexibilidade e de poder de diálogo, também por sua desarticulação com os movimentos sociais organizados não reúne condições de fazê-lo.
O PSDB deu conta de uma etapa de estabilização econômica com FHC, enquanto a tarefa era resolver danos (diga-se, inflação) gerados pela dependência que a moeda nacional tinha em relação a indexações fora do controle e da realidade da economia nacional interna.


Consolidação da política de Lula
Mas Lula avançou demais neste processo - e um dos reflexos disso, são os dados da pesquisa apontada – quando viabilizou um reaquecimento da atividade produtiva interna do país e constituiu este processo combinado aos interesses daqueles que demandavam assistência, o que permitiu a geração de milhares de postos de trabalho e os programas de distribuição de renda.
Por isso é fato que se verifica, sem contestação, a sustentabilidade econômica nacional em tempos de crise (o que até os oposicionistas tem afirmado, sob pena de serem tidos por ridículos. Alguns não se importam com isso, mas na fala destes percebe-se marcas tendenciosas para o plano do moralismo radical). Esta estabilidade econômica promovida por Lula se deve:

a) ao equilíbrio fiscal e a manutenção de reservas pelo tesouro que viabilizaram liquidez monetária no Brasil e que tem garantido alguma autonomia em relação ao fluxo de capitais internacionais – o PSDB não efetivou isto solidamente, mas o fez de forma precária com o custo de muitas de nossas estatais em processos de privatização;

b) ao estímulo por meio de ações do BNDS e de outros mecanismos de financiamento governamental, inclusive de pequenos negócios que fazem das reservas financeiras nacionais base para ativação da economia interna;

c) a distribuição de renda, promovida por programas como o Bolsa Família que ativaram, ainda que minimamente, em muitas regiões no Brasil (com maior força e extensão), a circulação de capitais e riquezas.


Paratodos
Portanto, diante de um processo econômico que não deve ser desprezado, seja pelo rico, pela classe média ou pelos pobres, o que a pesquisa demonstra estatisticamente pelo ganho em todas as faixas econômicas:
Parece claro que é tempo de crescer e de forma sustentável e autônoma. O Brasil já gozou de muitas possibilidades de crescimento no passado. A dependência política e financeira às nações mais ricas e poderosas nos impediu de obter êxito sustentável. Porém, agora conta-se com tal experiência e com um quadro político mais favorável.
Por isso a opção por Dilma parece mais favorável a este equilíbrio.


Voltando à pesquisa
Os dados da pesquisa demonstram na verdade que os ricos e a classe média alta (classes A e B) tiveram ganho de renda, enquanto as faixas médias (classe C) além de aumentarem numericamente, tiveram dobrado o seu poder de renda e os mais pobres (classes D e E) saíram das faixas de miséria e extrema pobreza. Portanto, confirmam um processo estável de melhoria das condições de renda em todas as faixas econômicas, processo que nas dadas condições, conforme expressão repetida pelo Presidente da Republica, “como nunca, antes, na história deste país” aconteceu.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

QUEM NÃO A CONHECE... VAI SE SURPREENDER!



Na noite de 09 de julho assisti uma entrevista com a jornalista Cristina Lemos, no programa Brasília Ao Vivo, da Record News com a atual ministra da casa civil Dilma Roussef. Mais uma vez fiquei convencido de que quando esta mulher for mais conhecida e que muitos tiverem a possibilidade de escutá-la pessoalmente ou por mediação midiática, acabarão definitivamente apostando nela como sucessora de Lula.


Discurso tucano
Os tucanos que tiverem consciência da mecânica do comportamento eleitoral, já devem estar ressabiados.
Tenho visto uma estratégia de marketing político por parte do PSDB à partir dos seguintes pontos importantes na construção da preferência eleitoral:
a) o PSDB tem buscado pautar o Real como realização de seu partido, para poder afirmar que foi ele quem trouxe estabilidade para o país e tem maior capacidade técnica para suceder Lula. Vários nomes do partido tem afirmado que não se pode deixar de afirmar os bons feitos de Lula em seu governo (seria bobagem ir contra um percentual superior a 80% de aprovação), mas que seria claro que o PSDB contaria com melhores nomes para a sucessão (leia-se: Serra e Aécio);
b) o PSDB em São Paulo tem feito ampla campanha publicitária em tv e em outdoors em que tem apontado o governo Serra como realizador de políticas públicas (em regra viárias, como o Rodoanel) e como viabilizador de oportunidades de emprego (e novamente apontam o Rodoanel, ou a publicidade de suas contratações);
c) vê-se portanto que por um lado, os tucanos dimensionam o partido ao falar do Real, evitando por vezes a centralização da figura de FHC, o que em verdade fica difícil e por outro lado, quando busca evidenciar políticas públicas ou modelos de gestão alternativo, relacionam a Serra e Aécio (respectivamente) a proeza de tais feitos.

Limites do discurso
Tal estratégia não é ruim, demonstra leitura adequada de estratégia por parte dos tucanos, mas alguns entraves devem ser observados:
a) a aproximação de Ciro, com a proposta de sua candidatura em São Paulo vem junto da filiação de Itamar Franco ao PSB, com o discurso já afiado de que não foi FHC quem fez o Real, mas um grupo de pessoas, o próprio Ciro estaria entre elas, já que teria sido ministro antes de Fernando Henrique, mas sob a coordenação de Itamar (não é por acaso que as meninas do Jô, de quarta passada já apontavam o Real como uma realização sistêmica de Itamar, FHC e Lula!) Isso, certamente diluiria um dos cartuchos dos tucanos (ainda que tal cartucho por ser de natureza econômica, tal qual o ganho percebido pelas camadas populares e classe média baixa no Brasil pelo governo Lula, perderia de um liame mais recente e mais diretamente percebido como benefício);
b) Além da briga pela paternidade do Real, o fator de maior contribuição para a boa avaliação de Lula não é uma boa composição de marketing calcada em sua imagem pessoal, mas a evidência de políticas públicas por mediação de ganhos indiretos e diretos, mensuráveis pela dimensão de uso, ou de troca – equivalente – econômico. Isso não é pouco, corresponde ao estímulo basilar que teóricos da Corrente Econômico-racional do voto, como Antony Dows denominam pocket vote, comportamento nada alienado segundo tal autor. Aliás, desde 2006, segundo analistas políticos como Yan Carreirão, a maior parte do eleitorado tem se posicionado de forma pragmática, o que evidencia tal comportamento a longo prazo;
c) a crítica constante dos tucanos que Dilma não é um bom quadro, já que nunca foi candidata e também por que seria uma pessoa autoritária, pareceu-me na entrevista que vi, diluída pelo discurso, comportamento e expressividade da ministra. Então, ainda que seja verdade, no contato com a mesma, é notória uma capacidade de articulação de idéias com facilidade de incorporar reflexões pessoais, uma linguagem popular e exemplificativa, que farão dela, quando mais difundida nos meios de comunicação, além do liame com o governo Lula e o PAC uma candidata em que tal crítica poderá não alcançar grande êxito;
d) na fala de Dilma algumas coisa ficaram claras que não vão ficar baratas se os oposicionistas atacarem pesadamente. Ao falar de sua opção pela plástica, assumiu a mesma como desejo pessoal e acrescentou que o discurso que apontava esse comportamento como inadequado, ou como artificial era um pouco machista – mas lembrou que muitos dos homens políticos que conhece já passaram por cirurgias plásticas (ops! não vamos esquecer que Serra já fez a sua a muitos anos atrás);
e) termino esse texto recordando elemento presente em minha análise sobre os dados da pesquisa eleitoral recente, que aponta Serra em primeiro lugar entre as indicações estimuladas de voto (aquela em que o entrevistador dá opções ao entrevistado), mas que nas indicações espontâneas Dilma já empata com Serra. E recordo a todos que Gabeira, neste ano, começou com reles 3% de indicações do eleitorado no começo do ano, e ficou muito próximo de vencer no Rio, mas mesmo sua passagem para o segundo turno, quando venceu Crivella, só era percebida como tendência e possibilidade efetiva de concretização nos questionários espontâneos. Dilma cresce, é tendência, e ainda não foi – ao contrário do que se possa imaginar – explorada midiaticamente em seu mais alto potencial. Ela ainda vai aparecer mais. Talvez não tanto na Rede Globo, mas o grupo Record deverá viabilizar tais oportunidades, além da campanha de propaganda partidária e política.

LEIA ESTE ARTIGO TAMBÉM NO BLOG DA DILMA, postado dia 12/07/2009 - http://dilma13.blogspot.com/

INTIMIDADES ENTRE JEAN BAUDRILLARD E HUMBERTO GESSINGER





“Exaltação de microdesejos, de pequenas diferenças, de práticas cegas, de marginalidades anônimas. Último sobressalto dos intelectuais para exaltar a insignificância, para promover o não-sentido na ordem do sentido. E revertê-lo à razão política. A banalidade, a inércia, o apoliticismo eram fascistas, agora se tornam revolucionários - sem mudar de sentido, isto é, sem deixar de ter sentido. Micro-revolução da banalidade, transpolítica do desejo - mais um truque dos “libertadores”. A negação do sentido não tem sentido”.


Muitos poderiam pensar que este texto era de autoria de Humberto Gessinger, vocalista e compositor da banda Engeheiros do Hawaii, mas isso não seria verdadeiro. Essa é uma parte da obra “À sombra das maiorias silenciosas” de Jean Baudrillard, autor que, entre outros, influenciou os irmãos Wachowski a conceberem a trilogia de Matrix. Apesar do próprio Baudrillard preferir outros filmes como Truman Show.

Reminiscências juvenis
Ouvindo o CD “O Papa é pop”, álbum de 1990 dos Engenheiros do Hawaii, novamente recordei dos momentos em que ouvi pela primeira vez este álbum. Era ainda pequeno, nem sequer adolescente. Mas, já com tenra tessitura óssea eu percebi algo que me chamou atenção, de cara, e que foi além do tratamento dos arranjos muito diferentes - não haviam bandas que tocassem daquela maneira, se bem que eu não conhecia muita coisa, obviamente! Na verdade o que havia de particular era a adoção por aquela banda de uma influência do rock europeu e em particular o inglês dos anos 1970 e 1980 e um tanto de um esmero com o tratamento instrumental (coisas que Pink Floyd ensina), além de letras muito diferentes.
O que sempre parece engraçado é que as letras dos Engenheiros do Hawaii, muitas delas escritas unicamente por seu eterno vocalista Humberto Gessinger, sempre foram por muitos consideradas como de escrita vazia ou enganadora, um fetiche de linguagem, cheia de jargões de efeito e de pouco sentido, ou seja compostas por um discurso pseudo-intelectual.
Contudo, já tinha notado que não se tratava exatamente disso. A sina dos Engenheiros foi a de conceber letras de músicas com referenciais da literatura, artes e do espaço acadêmico mais contemporâneo, que em um país como o nosso, certamente causaria estranhezas.
Em O Papa é pop, os gaúchos estão a flertar com autores europeus que tratam da nova configuração do tempo, espaço, da cidade na contemporaneidade, ou seja autores que tratam do tempo de uma nova modernidade ou Pós-modernidade, tais como o Guy Debort e Baudrillard.

Gessinger e Baudrillard
Gessinger é provavelmente um dos primeiros no Brasil que vai explorar o pensamento de autores como Baudrillard. Neste álbum isso fica evidente e uma canção é emblemática: “A violência travestida faz seu trottoir”, em que frases como: ... a maioria silenciosa orgulhosa de não ter, vontade de gritar e nada pra dizer ... (que anuncia declaradamente as especulações de Baudrillard ao afirmar a força das massas estaria em seu subversivo desinteresse pelo mais “importante”, pela lei instituída ou pelas ideologias); ou a frase: “no ar que se respira, nos gestos mais banais ... na vitória dos iguais, a violência travestida faz seu trottoir (em que se observa sofisticado apontamento que confronta o axioma aristotélico de adequação em se tratar os desiguais à medida de sua desigualdade para se encontrar verdadeira igualdade).
E não pára por ai, também em “... na hora de dormir, na sala de estar a violência travestida faz seu trottoir” (em que recorda o mesmo autor na sua teoria sobre as lógicas sociais presentes na organização estética e do espaço do lar); ou em “uma bala perdida encontra alguém perdido ... enterra todos na vala comum de um discurso liberal (em que se vê um anúncio da regra política em vigor efetivo por traz de tantos rugidos), Gessinger afirma diferentes maneiras de opressão simbólica, econômica, do marketing, da moral e da falta de moral ou parâmetros. Descreve um panorama de um mundo em que a violência travestida de outras formas, prepara o flerte, à moda do comércio do sexo (Baudrillard teria dito, do desejo), em que por estar travestida, não é por vezes percebida.
Eis portanto um ensaio semiológico de Gessinger sob o acompanhamento dos grunhidos de uma simpática guitarra elétrica.
Esse é o clima do álbum como um todo, outras faixas denunciarão marcas de referenciais desse novo momento da literatura, artes e ciências sociais que em 1990, muita gente não tinha ouvido falar no Brasil.

Para quem tiver paciência, eis a letra a seguir:

"no ar que se respira, nos gestos mais banais
em regras, mandamentos, julgamentos, tribunais
na vitória do mais forte, na derrota dos iguais

a violência travestida faz seu trottoir

Na procura doentia de qualquer prazer
Na arquitetura metafisica das catedrais
Nas arquibancadas, nas cadeiras, nas gerais

a violencia travestida faz seu trottoir

na maioria silenciosa, orgulhosa de não ter
vontade de gritar, nada pra dizer
a violência travestida faz seu trottoir
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

no vídeo, idiotice intergaláctica
na mídia, na moda, nas farmácias
no quarto de dormir, na sala de jantar
a morte anda tão viva, a vida anda pra trás
é a livre iniciativa, igualdade aos desiguais
na hora de dormir, na sala de estar

a violência travestida faz seu trottoir

uma bala perdida encontra alguém perdido
encontra abrigo num corpo que passa por ali
e estraga tudo, enterra tudo, pá de cal
enterra todos na vala comum de um discurso liberal

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

| a violência travestida faz seu trottoir
| em anúncios luminosos, lâminas de barbear
| armas de brinquedo, medo de brincar
| a violência travestida faz seu trottoir

Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.
E a violência travestida faz seu trottoir...

não se renda às evidências
não se prenda à primeira impressão

eles dizem com ternura:
"o que vale é a intenção"
e te dão um cheque sem fundos
do fundo do coração

no ar que se respira
nessa total falta de ar
a violência travestida
faz seu trottoir

em armas de brinquedo, medo de brincar
em anúncios luminosos, lâminas de barbear
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

a violência travestida faz seu trottoir
a violência travestida faz seu trottoir"