terça-feira, 23 de junho de 2009

ZÉ DIRCEU - OS RUMOS DO PT E O CENÁRIO DE 2010.


No dia 21 de junho, esteve em Bauru a cúpula do Partido dos Trabalhadores na Caravana Estadual da macro-região do partido que engloba, além de Bauru, mais de 50 municípios. Nesta ocasião Zé Dirceu discursou e apontou algumas posturas partidárias para os filiados petistas que nos permitem observar como deve atuar estrategicamente o PT no certame eleitoral de 2010.
Zé Dirceu comentou alguns temas:

Visitando o Brasil por Dilma
Zé Dirceu tem visitado quase todos os estados brasileiros nesses últimos meses visando a consolidação da candidatura de Dilma e a unificação de todas as correntes petistas entorno de seu nome. Nestas caminhadas tem buscado, também, defender o governo e a sua pessoa como é de praxe.
Com isso percebeu como importante questão a adequação de palanques com diversos partidos aliados para a campanha vindoura, tanto quanto a compreensão por parte dos membros do partidos acerca desta questão para evitar dissidências.
Buscou apresentar Dilma, afirmando que a mesma sempre esteve bem afinada com o PT, mesmo quando compunha a ala socialista do PDT e participava dos governos petitas sulistas de Alceu Colares e Olívio Dutra. Nessas ocasiões Dilma era encarregada da pasta de minas e energia e atuou bem em tais governos, diferentemente de como agiu o governo de FHC no plano nacional que com a desnacionalização de setores de produção estatal, de forma a favorecer mais o capital privado do que os interesses nacionais, permitiu que o Brasil viesse a passar por uma crise nacional de falta de energia.
Em razão dessa competência que demonstrou no plano estadual, Dilma já era cotada antes no período eleitoral da incumbência de enfrentar o problema de readequação do sistema energético nacional – elemento primordial na cadeia produtiva e do sistema econômico de um país.
Por isso, Zé Dirceu apontou como necessário, no presente momento, atuar na consolidação do PT para sua unificação interna e na não dissidência com partidos aliados (também no plano regional) para o fim de viabilizar a vitória de Dilma, elegendo-a Presidenta da República, tanto quanto permitindo uma consolidação de maioria de esquerda no espaço legislativo.

Defesa de alianças e concessões partidárias
Por isso a construção de um palanque nacional demandaria ao PT abrir-se para discutir nomes de outros partidos em coligações para cargos executivos. Sobretudo, diante do grande esforço em firmar uma aliança nacional com o PMDB e a mais ampla possível nos espaços regionais constituindo palanques e contextos de boa receptividade para Dilma. No Pará, Bahia e Rio Grande do Sul as coisas estão difíceis com o PMDB.
Por isso, também, Zé Dirceu defendeu que o partido estivesse aberto a discutir nomes como Dr. Hélio ou Ciro Gomes para a candidatura ao governo de Estado de São Paulo e tem feito essa reivindicação em seu blog – esse tema foi ponto de dissidência na reunião – apontando que não se trata de aceitar de imediato esses nomes, mas de colocá-los, ao menos como possibilidade de discussão partidária.
A importância dessa postura tem liame com o contexto de alianças e da conjuntura do PSDB no plano nacional e regional. O PSDB está rachado em três agrupamentos. A chapa única entorno de Orestes Quércia para o senado corre risco de naufragar e complicar o acordo local em PSDB e PMDB já que o grupo de Kassab reivindica candidatura ao senado.
Por outro lado Dr. Hélio tem grande penetração no PMDB. Já Ciro Gomes representa a consolidação de alianças no nordeste em Pernambuco e Ceará, tanto quanto a de Coutinho na Paraíba que precisam do PT e vice-versa para o fortalecimento de seus projetos, o que combinado levaria ao fortalecimento da candidatura Dilma na região (para um aprofundamento da questão PMDBista indico a leitura do artigo PMDB A NOIVA MAIS COBIÇADA, no endereço http://crapula-mor.blogspot.com/2009/05/pmdb-noiva-mais-cobicada.html, do excelente blog Crapula Mor).

O provável quadro eleitoral de 2010
O governador do Estado de São Paulo tem promovido uma derrama fiscal em SP (a diferença de posturas de governo entre PT e PSDB tem esse ponto como elemento importante). No Norte e Nordeste sua aceitação deve diminuir e Dilma terá maioria, dado o alcance nestas regiões de políticas públicas materializadas e a não contingência de caixa como tem efetivado o PSDB local. No Centro-Oeste Zé Dirceu prevê um empate entre ambos e no sul, os últimos levantamentos apontam que Dilma já passou Serra. Isso também se deu em Pernambuco (o que aponta tendência que se consolidará a longo prazo no nordeste).
No Rio de Janeiro as coisas estão bem encaminhadas com o apoio PMDBista. Em Minas a situação não é favorável(ministro das comunicações de Lula, Hélio Costa, é cotado como candidato do planalto, mas o PT regional lá tem suas particularidades, o que pode prejudicar a indicação federal). Em São Paulo há uma indecisão e indefinição do quadro e de um bom nome que possa efetivamente enfrentar a candidatura hegemônica no estado e possa favorecer eleitoralmente Dilma São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro representam muito, e talvez o ponto decisivo da eleição do ano que vem.
Portanto, parece um erro, segundo Dirceu, já afirmar de imediato que o PT vai sair com candidatura própria para o Estado de São Paulo.

Programa de governo
Dirceu aponta como importante a definição – por meio de discussões que devem iniciar-se já dentro do partido – de uma plataforma de governo de unificação entorno de Dilma e que favoreça a projeção do nome da ministra eleitoralmente a viabilizar a continuidade (por meio de sua candidatura, mas também da plataforma de governo para o futuro) do projeto político petista encabeçado por Lula. Os pontos importantes seriam:
a) reforma política;
b) reforma da gestão do estado brasileiro;
c) reforma do Estado (burocrática e administrativa);
d) um olhar mais efetivo para a juventude, focando políticas de educação, tecnologia. Já que sem políticas que visem agregar valor a produção nacional e mudança da base de desenvolvimento econômico do Brasil para um viés tecnológico, o país não poderá aprofundar seus processos de desenvolvimento, muito menos consolidá-los;
e) novo modelo de reforma agrária: tendo como alvo o apoio e favorecimento do modelo familiar de produção, com liame ao fator de agregação de valor na produção e acesso do produtor à tecnologia;
f) mudança do padrão ambiental. O governo federal já reduziu 50% o desgaste ambiental na Amazônia, contudo ainda falta investimento para a manutenção, aumento e consolidação de processos de gestão sustentável dos recursos ambientais da região e também a sua proteção;
g) continuidade da política internacional do governo Lula.

O Brasil no plano internacional
Dirceu destacou como desafio de futuro a consolidação da integração sulamericana somando China, Índia e Rússia como parceiros importantes num novo cenário econômico que se verifica como tendência.
A defesa de reformas no FMI, Bird e OMC para focar investimentos relacionados a questão da fome no mundo e fazer evitar modelos econômicos bélicos deve ser postura afirmativa do Estado Brasileiro.
O quadro econômico atual no mundo permite tal projeto como prognóstico atrelado a uma postura estratégica do Estado Brasileiro. A economia mundial modificou-se. Hoje 50% do capital mundial está nas mãos dos países emergentes e o domínio de capital dos países ricos diminuiu. Ademais, a União Européia ao se distanciar dos Estados Unidos, tanto quanto a vitória de Obama e a crise econômica apontam para um cenário de relações internacionais que permitem ao Brasil figurar como protagonista na recomposição de um novo ordenamento político e econômico mundial. Tal procedimento revelará, como já temos visto, um Brasil com maior voz, proveito econômico em um mundo com uma nova oportunidade1.

1. Lula foi sondado pelo governo de Obama como possível nome para presidir o Banco Mundial depois de 2010.

2 comentários:

  1. Ô, rapaz, muito obrigado pela citação! Valeu mesmo! E parabéns pelo excelente post!

    Olha, fico muito feliz com a lucidez da postura do Dirceu. Alguns posicionamentos do PT de São Paulo são muito preocupantes. O Rui Falcão avalia como "decadente" apoiar Ciro Gomes ao Governo, prefere apoiar a Marta, e ainda acha que isso seria o melhor pra Dilma. Bom, é evidente que o mais interessante pra Dilma é não ter que enfrentar o Ciro na disputa pela presidência, e atrair o PSB nacional pra sua candidatura. É intelectualmente desonesto afimar que a candidatura própria de SP tem em vista o interesse da Dilma. Em São Paulo, parece que o próprio Palocci avalia que a sua imagem ainda está arranhada pelo caso do caseiro e não faz questão encabeçar chapa pra já. A Marta, infelizmente, tem uma rejeição que a impede de vencer qualquer cargo majoritário, e ainda assim os caras preferem insistir nela! Chamam de decadente não lançar candidatura própria, mas foram sem nenhum constrangimento pedir o apoio do PSB nas eleições do ano passado e em tantas outras. E o PSB, bem ou mal, concedeu! O PT paulista parece bem inflexível, espera apoio dos outros mas nunca sabe conceder. Espero que a situação seja contornada por aí.

    Abraço

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  2. Caro CrápulaMor,
    bom, a questão aqui é da composição de maiorias para decidir a candidatura. Do que vi lá na reunião foi o interesse explícito do prefeito de Osasco Emídio de Souza como candidato ao governo do Estado. O comportamento de Chinaglia foi de modéstia, ele é cotado, mas não insinuou qualquer posição que desse sinal. Mercadante vai para o senado, já confirmou. Marta falou muito bem de Dilma, mas não deu indícios também de interesse pela candidatura ao governo de Estado.
    Aqui o PSB está rachado em uma ala pró PSDB e outra (mais próxima dos ideais passados do partido) pronta a apoiar o PT (A candidatura de Ciro botaria uma ordem na casa). Vamos ver os próximos acontecimentos. Em breve estarei publicando a fala de Mercadante, muito boa, um apanhado de macro-economia.
    Obrigado pelo comentário.

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