domingo, 7 de junho de 2009

A LÓGICA DO RESSENTIMENTO E DO CHILIQUE.



“Pior cego é aquele que não quer ver a beleza do sol e o clarão da lua”
Rui Barbosa


A questão da evidência, ou seja, daquilo que parece verdade clara, o conhecido “que é isso mesmo e pronto” é uma forma de compreensão da realidade que todos nós exercitamos em algum momento, sem perceber muitas vezes (e portanto, sem perceber que quase sempre fazemos isso). Ela evidencia uma mecânica recorrente de nossas formas de pensar, de perceber a realidade, que podemos denominar a lógica mais exercitada pelos indivíduos.
Assim, tendo em vista que diante da realidade concreta e do seu movimento contínuo: as plantas crescem, morrem. Os bichos correm soltos. E,mais, a sociedade se mantém com os negócios de poucos tendo muitos subordinados a uma dada mecânica de colheita de frutas no supermercado e de erotismo embalado em bancas de jornal e em filmes pornôs (dependendo do gênero sexual). Resta observar que a classe média, diante dessa constatação da realidade percebe esta última como a soma:
(a) de um ideário de realização de riqueza (que lhe parece possível obter) que encontra base de realidade modular, ou seja de evidência lógico metafísica, no patronato (o que explica formas de subordinação como o puxa-saquismo e as novelas para o pobre ver deleite de ricos virtuais);
com (b) a incorporação subjetiva de tal indivíduo como instrumento de trabalho técnico-científico (por isso a mãe diz ao menino, tem que estudar para ser alguém na vida, moleque!).
Doutra parte, pela classe média baixa e pobres, além de miseráveis, essa realidade mesma, é percebida como a soma: (a) do ideário da superioridade intransponível de outras classes e de seu domínio (exceto no caso da “subversão” lógica do sistema: que são as formas criminosas de ganho, também operacionalizadas por outras classes, diga-se de passagem, mas não confessadamente. Posto que é a mácula de um mundo formal e de faz de contas que tá tudo certo), tendo por base de realidade modular e lógico metafísica a prática do trabalho técnico-científico da classe média e a detenção dos meios de produção e políticos pelas figuras de renome e de garbo; com (b) a incorporação desses indivíduos como instrumento de trabalho técnico-empírico, denominado carinhosamente como mão de obra barata(ou não incorporação, o que se verifica nos processos de marginalização social e econômica. Vide os camelôs e o fenômeno social dos “manos” como não equivalente de “gente bonita na balada”).

Lógica do ressentimento
Um padrão de realização do ideado como forma confirmada por um objeto, objetivo ou forma social rígida (alguns diriam real) pode-nos levar a compreender a lógica do ressentimento e a lógica do chilique.
Nessa equiparação (do objeto e o desejo de realização) o indivíduo, normalmente, não reflete sobre relações implicadas entre uma dada forma social (o patrão, por exemplo, a gostosa, enfim ...) e os fatores de determinação desses e de sua manutenção.
Com o passar do tempo, alimentando o sonho, ideário, que não se reflete na realidade de múltiplas e contínuas relações que são o caminho que liga o objeto desejado e sua efetiva realização, o amargor passa a temperar essa forma de projeção do ego, nasce o ressentimento, forma lógica antes de objetivamente percebida na relação, frustrada, com algum objeto, pessoa ou objetivo.
Assim, algumas formas, conseqüentes, de ressentimento podem ser percebidas, exemplificativamente:
1) no amargor do ideólogo de esquerda (normalmente o classe-média dos anos 60 e 70) que passa a um radicalismo autoritário (diante de um mundo de “confusas” dissidências), o que leva ao Zé Serra, mesmo supondo-se inteligente, a desprezar um standart de perfeita aceitação da opinião da maioria que é a regulamentação anti-tabagista e impô-la - sem uma sequer promoção (publicidade) falseada de discussão pública a seu favor - a toque de caixa. (Você convidaria o Zé Serra para o seu churrasco se quisesse verdadeiramente se divertir?);
2) no amargor daquele que se realiza na não realização do outro, por que este outro não se identifica com suas formas rígidas e estanques do “correto” agir;
3) nas formas de violência ocasionadas pelo impulso dos jovens pobres que pela não compreensão e controle das relações a que estão subordinados, e pela percepção e reação de incomodo a essa subordinação imprecisa, assim agem;
4) na lógica do chilique. Quando o indivíduo diante de um fato ou objeto que constrange a lógica - ou modus operandi - internalizada de sujeição à mecânica de realização do “objeto ideal”, reage subitamente com grande carga (muitas vezes desproporcional) de energia. Essa demonstração de força, na verdade, revela sua “não evidente” fraqueza. Exemplos não faltariam dessa expressão de comportamento:
4.1) O chilique da mulher diante do comportamento insuportável do namorado que vai jogar bola e ela não quer ceder;
4.2) O chilique das forças conservadoras e elitistas no Brasil diante da nova orientação da maioria do povo brasileiro frente a seu imperativo, por que “evidente”, discurso anti-Lula (Dilma vai crescer, leiam o artigo anterior para saber a razão);
4.3) A lógica do turrão. O chilique manifesto diante de fato corriqueiro que faz algum indivíduo expressar descontentamento e não conseguir compreender o outro (nesse caso objeto de sua especulação) em sua totalidade contraditória, melhor dizendo, totalidade humana. Portanto, a lógica da modulação do indivíduo com quem se quer conviver, e que Tom Jobim, na canção Discussão, já advertia acerca, cantarolando: “Pra que trocar o sim por não. Se o resultado é solidão. Em vez de amor, uma saudade. Vai dizer quem tem razão”;
4.4) O machismo, expressão ou modulação comportamental chiliquenta que exprime formas rígidas de não suspeição da “insuperável” potência masculina.

7 comentários:

  1. Muito bom o artigo. Uma forma séria e bem humorada de tratar o assunto, afinal seriedade e bom humor não são antagônicos. Pois é, nossos padões de comportamento, anseios, idealizações nos oprimem muitas vezes, e a nossa falta de consciência sobre suas origens nos torna escravos satisfeitos, por não sabermos que assim o somos.

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  2. pobre pessoa que chilicar por perto, agora você terá alguns argumentos bem articulados para combater tal ato....

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  3. Você é louco. esse é um fato inegavel.
    talves quando criança ou ainda bebe bateram com a sua cabeça. Outro fato que não duvido muito.
    Embora seu texto seja erudito demais para a minha capacidade, me identifiquei que o quezito 2 da lógica do ressentimento. kkk
    abraço rapaz

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  4. Belíssimo texto, excelente e nietzschtído cabedal de reflexões.
    A propósito, tem churrasco vegano na minha casa sábado. O Nosferatu e o Humberto Gessinger confirmaram presença. Incluo vc na lista? ;-))

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  5. Rapaz, belo texto! Como diria um tal Bezerra da Silva, "certíssimo!". Um olhar profundo na nossa 'prisão' comportamental!

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  6. a lógica do chilique e do ressentimento é que um manifesta pra libertar o outro.
    Nada como um bom chilique pra limpar as razoes do ressentimento. e nada como o ressentimento pra dar um bom chilique, espantar as neuras e dizer que nao aceitamos qq logica ou razao ressentida.

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  7. agora diga-nos - manifeste-se - apresente-nos o chilique e o jorro dos ressentidos, dos sentados nas neuras dos centralizados: de esquerda superficial concomitante à direita usual dos usos e costumes.. em suma, como foi a defesa...

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