sábado, 23 de maio de 2009

SOBRE A LÓGICA DAS ELITES NACIONAIS




O elemento fulcral de estabilização de um modelo vigente é a sua naturalização, ou seja, a assimilação de sua inevitabilidade. Pross (1974) aponta que no caso da compreensão da realidade política, a base de numerosas e contraditórias relações, que são inerentes às ações humanas, vão-se acumulando numa provisão de signos que se poderia denominar muito bem por material familiar, pelo que se prova e é repetidamente conhecido. Uma repetibilidade não problemática, ou seja, que não suscite a noção de mudança repentina da sua confiança originária, é algo que estabiliza o sujeito.
Por isso Pross (1974) aponta que com a ausência de questionamentos, a consciência interpretante do sujeito se estreita numa continuidade relacional, vez que tal consciência só se poderá ver dilatada com a convivência de uma crise que abra porta para relações de significado diferentes.
Tendo isso em vista, no contexto nacional, Viana e Carvalho (2000) apontam que o desenvolvimento civilizatório brasileiro sempre ocorreu no confronto da mecânica patrimonialista de nossas elites e do estímulo liberal de modernização por parte do Estado (imposição do modelo econômico vigente em expansão mundial).
Essa polarização sempre dominou o estado da arte no desenvolvimento produtivo nacional. O Estado novo, segundo apontam, representou um momento histórico em que o Estado visou expandir as relações de trabalho e impulsionar o Brasil a situações de desenvolvimento industrial e urbano, tanto quanto, de modernização dos processos de monocultura por meio de controle estatal das normas de trabalho, de incentivo controlado à organização das corporações de trabalhadores e da garantia de melhores condições de trabalho, visando um maior desenvolvimento dos setores produtivos. Contudo, segundo Viana e Carvalho (2000), em todos os momentos em que o Estado impunha um processo de garantia de direitos e organização do espaço de produção, movimentos das elites sempre reagiram num sentido patrimonialista, o que explica até hoje contextos de afastamento das proposições e ações do aparelho normativo estatal, em relação às efetivações políticas e de organização efetiva da sociedade[1].
Constata-se daí, um ethos conservador no espaço das elites nacionais e um despregamento dessas em relação ao arranjo da realidade social (consubstanciado pela práticas sociais dos grupos subalternos, pelo discurso idealizado pelos comandos normativos e não efetivados no espaço da realidade social, por um descompasso entre o processo produtivo e o discurso de políticas que acaba fazendo desse último, mero instrumento simbólico e de barganha social)[2]. Por isso, é que por vezes, nossas elites acabam sofrendo uma espécie de miopia da realidade da sociedade em geral, quando buscam catapultar sentimentos alheios.
A lógica em geral estimulada pelos reclames publicitários gira em torno do estímulo a compra de produtos, associada a um modo de diferenciação que é inerente a escolha dos bens e que é projetada em formas discursivas de diferenciação social do adquirente.
Contudo, nem sempre essa lógica se sobressai. Após, 2006, com a reeleição de Luís Inácio Lula da Silva, o apoio às medidas do governo, tinham como base de sustentação de realidade as políticas públicas que eram percebidas de forma direta pelas classes econômicas C, D e E. Assim o elemento simbólico de referência da ordem política do estado em vigência, se configurava em situações de proximidade da realidade social desses grupos que não poderiam ser superadas pela forma com que foi elaborada o material de campanha do movimento Cancei.
Tal material repercute os modos com que normalmente buscam as elites nacionais, produzir efeito simbólico nas classes subalternas, ou seja, a partir da introdução de um processo simbólico mediador que conta com o efeito de afastamento do sujeito em relação a referenciais de realidade objetiva.

[1] “No Brasil, se a via de republicanização democrática pelo mercado encontrou, em algum momento, a possibilidade da sua realização, isso se deu no Estado de São Paulo, único estado da Federação onde a dimensão do interesse se projetou em escala afirmativa. Ali, sem dúvida, estavam dadas as pré-condições para um trânsito bem-sucedido a uma ordem social competitiva, e que viesse, depois, a se difundir pelos demais estados da Federação, como, aliás, recomendava Alberto Salles. Dois movimentos, porém, originários de suas elites, obstaram essa vasta operação hegemônica: de um lado, a engenharia política que, no começo da Primeira República, as levou à solidarização com a ordem patrimonial por meio do sistema político do coronelismo; de outro, a sua concepção estreita e excludente da ordem liberal, que as manteve refratárias à incorporação das classes médias urbanas e da classe operária ao seu sistema da ordem. Assim, foi o liberalismo excludente das elites de São Paulo que o comprometeu com o patrimonialismo, tornando-o incapaz de se abrir a critérios universalistas e impedindo a matriz do mercado de cumprir um papel mais forte na construção da práxis republicana no país.
Quando, na década de 30, se intensifica o processo de modernização burguesa, aquela matriz já não é mais livre, nem vige o livre-contrato; ela se encontra regulada politicamente pelo Estado, com todos os seus principais atores no interior da estrutura corporativa” (VIANA e CARVALHO, 2000, p. 30 e 31).
[2] Em verdade nota-se dois movimentos dentro do seio da elite nacional, um conservador e outro atinente aos processos de modernização produtiva.

Referências bibliográficas:
PROSS, Harry (1974). Estructura simbólica del poder. São Paulo: Técnica J. Catalán.
VIANNA, L. W. & CARVALHO, M. A. R. 2000. República e civilização brasileira. In : BIGNOTTO, N. (org.). Pensar a República. Belo Horizonte : UFMG.

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