sábado, 23 de maio de 2009

A futebologia - versículo 3.


Na mídia, não há cotas... para a poesia.

João Antônio, futebólogo das antigas, trata de um momento crucial da transição entre futebol e vídeo-game, por meio da questão racial (que sabemos bem que não se trata só disso mas também diz respeito ao ethos do futebol).

Futebol brasileiro está embranquecido demais

Potoca, pela, lorota, fajutagem – tudo quer dizer o mesmo: mentiralhada.
Entre as boas potocas do País, há uma que reza, farisaicamente, que somos uma democracia racial. É o que dizem até “sábios” consagrados. Enfim, também pode ser dizer que saber não é o mesmo que sabedoria. Afinal, entre outras, não há um general negro no nosso país mais famoso e inconveniente que Zumbi dos Palmares.
Inda bem que a nossa galera é composta pela realidade. Nossas torcidas inteiras se identificam com as etnias de negros, negróides, ao contrário do nosso futebol que foi e vai se embranquecendo nos gramados de todo o País. Os ídolos das galeras que encheram os estádios brasileiros neste século erram, na maioria, negros ou mulatos, pixains verdadeiros ou disfarçados. Interminável e fulgurante galeria com Friendereich, Tim, Leônidas da Zilva, Batatais, Zizinho, Jair da Rosa, Garrincha, Pelé, Didi, Djalma Santos, Paulo César Caju... de uns tempos para cá, com a especulação imobiliária comendo com o trator os campos de várzea, os campinhos, e com o apadrinhamento calhorda com que se prova que qualquer ditadura adoece uma realidade nacional e mais a chegada da mídia, esta senhora indigna e absoluta fazedora da cabeça do povo, velha e hiena cafetina que dirige as emoções populares para onde quer e já promoveu os estilos computarizados e faltos de ginga como a tônica do nosso futebol, velha catastrófica...

E se fez a adoção do chamado “futebol empresa” a gerenciar os clubes, antigamente associações lúdico-desportivas. E se gerou o futebol de resultados. Zero a Zero passou a resultado positivo na matemática tão mesquinha quanto perversa. Vai-se acabando com o gol e, com ele, sem a cerimônia menor, acaba-se com a alegria do povo. Garrincha, Garrincha, teu nome era generosidade.

Mestre Ziza e outros nem sequer são ouvidos pelos que dirigem o futebol do País. Em compensação, dão cartas e jogam de mão Telês, Edus, Carlos Albertos Silvas, Zagalos, Parreiras, Lazzaronis e quiquiriquis na Era Dunga, tecnoburocrática em que se joga para o zero a zero. Sem cor e sem sabor. Só o da derrota.
Mas uma verdadeira romaria de valentes e abnegados torcedores vai sendo manipulada pela dona Mídia, enquanto se enchem os porões da memória com uma folha seca.
Quanta saudade. Mestre Didi...


João Antônio.

(coluna: Histórias de torcedor, Estado de S. Paulo. Domingo, 8 de julho de 1990).

3 comentários:

  1. Está ganhando forma este tratado sobre futebol e videogame. Falta você escrever sobre Zico.

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  2. Se em 1990 já estava desse jeito, imagine agora...
    O futebol "sem graça" predomina cada vez mais.

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  3. Caro Pedro, vc parece que está percebendo o que pretendo fazer, mas ainda não é o momento.

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