sábado, 16 de maio de 2009

A futebologia - versículo 2.


Uma das questões que não se cala quanto a manifestação do futebol, tomando este como espécime mitológica, é a razão pela qual a tantos, esta forma de vida, fascina pelo mundo a fora.
Os tecnocratas diriam: “o futebol, segundo números comprovados é o esporte mais popular do mundo”. Mas, todos sabemos que as estatísticas não explicam o desejo.
Não é de se estranhar que teorias antropológicas, das mais diversas, são apresentadas para explicar o encantamento. Tem quem pense que o futebol é um sucesso por ser uma prática antiga e por que diria respeito a uma das faculdades primordiais do humano, bípede que é (diferentemente dos demais bichos) tem no uso dos pés uma constatação de potência.
Por sinal, pra dizer que o futebol é mais antigo do que se pode supor, tem quem diga que não foram os ingleses que o conceberam, mas os maias com um futebol que mais parecia uma cerimônia de culto ao divino do que esporte, enfim...
Mas o futebol permanece, ou permaneceu (até a manifestação do Galinho de Quintino[1], pelo menos) por prováveis outros motivos.
Engraçado pensar que além do futebol, somente outro sintoma humano manteve-se por longa data; este que teimo em recordar, é a longânime vida (que tenta imitar a arte).
Tal qual a vida, aliás, o futebol é algo que tem um fim, o gol. Mas o gol, esta categoria que implica em algo a ser contado, mensurado, talvez seja mais do que moeda contabilizável. Tal como a vida que com seus objetivos traçados de realização material, de procriação (e etc, vamos parar por aqui!) ..., tem nestes pontos, a mira de um objetivo final, de um fim (de uma morte, talvez). O Gol pode ser assim percebido, como um fim de tudo.
A vida (tal como o futebol) é de fato constituída e experimentada em seu fragor mais consistente, no meio de tudo, entre o nascimento e o lance final, e não no seu fim. No futebol, tal como a vida, também, era assim, o gol fora seu fim, mas o meio disso tudo, as jogadas, os passes, o suor, o reconhecimento da beleza da realização do outro (jogador), os modos de vida do boleiro, a arte do jogo, tudo isso fazia deste esporte, uma paixão. Paixão, não se esquece, amortece. E é por isso, também, que o futebol permaneceu. Antes do gol, tantas outras manifestações, belezas, formas de agir!
Mas é assim mesmo, o futebol imitara a arte, ou talvez a vida, ou a vida à arte ... tudo no meio do caminho ... antes do instante (terapêutico; quem não tem medo do escuro?) algébrico, objetivo, definitivo, certo, ?justo, comparável. Antes que o instante do gol tenha sido consumado e então, tomado conta do desejo, do fascínio e terminado em contagens nas telas de vídeo-game.
Daí a tese de que o futebol acabou. "Come lacrime nella pioggia. È tempo di morire[2]". Quem ganhou?



[1] Referente a Zico, mestre da bola, jogador do clube de Regatas (é de futebol, acredite!) Flamengo, semi-deus japonês, nascido e infante em Quintino (bairro carioca), um dos maiores jogadores de futebol em todos os tempos, foi a manifestação final da pureza dessa epopéia esportiva humana.
[2] Frase final do filme “Blade Runner” de Ridley Scott.

Um comentário:

  1. Mesmo discordando sobre algumas coisas, perdeu-se muito de um aspecto mítico do futebol, a inocência, virou um antro de pernas de pau e corrução de empresários.
    Futebol "exo". Sem segredos: é só bater e fazer um golzinho.
    Que texto bonito, mon frere! Salue!

    ResponderExcluir