sexta-feira, 29 de maio de 2009

AGNALDO SILVA, ESCRITA E OLHARES.



Dias atrás, Agnaldo Silva - jornalista, escritor e autor de telenovelas - disse não se recordar de alguma novela, nos últimos cinco anos, com diferencial que merecesse destaque. Tal comentário não passou despercebido, afinal de contas, Agnaldo, de fato, sabe escrever como poucos1.
Para ele, a técnica da escrita de novelas deve observar alguns elementos mínimos para sustentar a composição de uma boa estória. Primeiro, antes de tudo, o autor deve ter, em sua cabeça, já um começo, desenvolvimento e fim determinados (o que parece ser um contra-senso em momentos de novelas “vídeo-game” programadas conforme às nuances da sondagem de audiência).
Também, a procura pelo detalhe que faça interessante o ato de contar um fato é por ele destacada; Agnaldo considera que os autores têm repetido uma fórmula antiga que faz das tramas, uma mesma estória com nomes e roupas diferentes.
O autor de “O Homem Que Comprou o Rio” e de “Prendam Giovanni Improtta” é um obsecado pelo dialogismo, as contradições presentes na vida não são refutadas na composição de seus personagens, ambientes e relações. A vida real não é evitada sob a roupagem de um discurso do bom senso de escrita novelista.
Ademais, Agnaldo tem uma leitura autêntica da nova cena da sociedade brasileira, em particular o ethos carioca. Consegue suplantar o consensual ipanemismo e põe frente a frente, o que faz da realidade uma totalidade, os dois lados do Túnel Rebouças.
Nas novelas de Agnaldo a questão da democracia brasileira que se constitui é sempre levantada. Tanto na reprise de A senhora do Destino, como em Duas Caras, isso se evidencia. Nesta última, por exemplo, é possível recordar-se de Juvenal Antena, segurança de uma empresa falida que ao se ver envolvido em um motim contra o patronato, percebe a “oportunidade” de se fazer e manter como líder daqueles que reivindicavam um lugar para viver. O pano de fundo na composição dos personagens Juvenal Antena e Adalberto Rangel (Ferraço depois da plástica) tiveram, respectivamente, em Lula e José Dirceu uma miragem - foi o que o autor confessou, anteriormente -, mas um tom especial, independente das posições ideológicas particulares, existe na elaboração das ações das personagens em sua obra, ninguém é descrito como perfeito, como ideário ou como plataforma temática. E também, nem todos os atos são frutos de um projeto racional ou moralmente ilibado, mas a mistura entre a dimensão dos interesses pessoais e o intrincado coletivo - por vezes imoral, mas nem sempre.
Agnaldo obtém essa tessitura textual por que mira a vida fora das telas de televisão. Conhece ricos e pobres por convivência. E não tem uma leitura que se coaduna aos preconceitos recorrentes dos mais abastados. Esse fator permite a ele compor uma leitura muito interessante acerca da lógica dominante, nos discursos, atitudes e no psiquismo de sujeitos componentes das elites econômicas brasileiras.
Nas duas últimas novelas de Agnaldo, o mundo do trabalho e os meios de produção são apresentados na dinâmica daquele que trabalha e produz. Nesse ponto o novelista parece confrontar a retórica estruturalista e idealista - por que desapegada da realidade cotidiana – de um discurso esquerdizado do passado.
Agnaldo acerta ao perceber que há um domínio de valores estatutários, uma lógica simbólica que impede às elites de se enxergarem à natureza da sua real posição de destaque “hierárquico”. Não é por acaso que o autor destaca esse comportamento míope do merecimento etiquetado como o de estagnação das elites. A recordação do caso do casal Leonardo e Gisela – interpretados por Wolf Maia e Ângela Vieira -, pais de Maria Eduarda – interpretada por Débora Falabella - na trama “A senhora do Destino”, cabe aqui.
As construções narrativas de Agnaldo Silva têm como núcleo ordenador um elemento dramático que é reproduzido no interesse e imaginário popular (de diferentes classes sociais).
Controverso e polêmico, por vezes; mas maduro (no sentido amplo da palavra), sensível e com um poder consciente de análise e reprodução de visões de mundo: Agnaldo Silva, um autor brasileiro de telenovelas.
1“Cansado da mesmice na teledramaturgia, Aguinaldo Silva está à frente do que pode ser a primeira novela escrita por um coletivo da TV brasileira. Chega ao fim nesta sexta-feira o workshop de roteiro ministrado pelo autor e ele está radiante: a TV Globo já demonstrou interesse na sinopse desenvolvida por ele em parceria com os 15 alunos do curso.
A história, "criada a 32 mãos", como brinca Aguinaldo, gira em torno de uma mulher que é uma faz-tudo de toda espécie de serviços masculinos, como consertar eletrodomésticos e até carros.
Aguinaldo sonha com Glória Pires para a personagem principal, que se chama Griselda Pereira.
"Por conta do seu ofício, ela ganha o apelido de Pereirão", conta ele à coluna. O título provisório da trama, que promete inaugurar uma nova era na história da TV, e que já foi até registrado é Marido de Aluguel.”
TERRA TV (2009) Aguinaldo Silva quer Glória Pires em novela "coletiva" Fonte: http://diversao.terra.com.br/tv/interna/0,,OI3775757-EI12993,00.html.

Um comentário:

  1. Parabens pelo seus trabalhos.Agnaldo tenho um original escrito e como não consigo publicá-lo, acho que daria um ótimo roteiro de novela.

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